terça-feira, 9 de agosto de 2016

Violência contra a mulher: o maior perigo está no conhecido


“Eu não esperava que nada de ruim pudesse me acontecer naquele lugar. Era como se fosse uma extensão da minha casa, onde eu ia para brincar. Foi assim até que ele resolveu que poderia fazer algo a mais comigo.” Aline*, hoje com 17 anos, tinha 8 e morava em um bairro da zona leste de Uberlândia quando foi abusada por um vizinho e amigo de longa data da família que ela considerava como tio. Ela, e tantas outras mulheres e crianças, enfrentam uma experiência tão difícil de viver quanto de mensurar.

“A gente tem a ideia de que o estuprador é um tarado que anda pelas ruas em busca de um alvo. O contraponto da nossa experiência no atendimento de mulheres é que, na verdade, o estuprador é o conhecido. Estamos presenciando um aumento dos casos de abuso de filhas e enteadas”, diz Cláudia Cruz, psicóloga e presidente da ONG SOS Mulher e Família, de Uberlândia.

Segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgados em 2014, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados, amigos ou conhecidos da vítima.

Em 2015, conforme aponta o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 1.968 casos de violência sexual foram registrados em Minas Gerais. No mesmo período, de acordo com a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), 579 mulheres sofreram violência sexual em ambiente familiar. Destas, 80 são dos Municípios que compõem a 9ª Risp (Região Integrada de Segurança Pública), entre eles Uberlândia.

Arte: Alexandre Barbosa

Segundo Cláudia Cruz, qualquer tipo de violência promove uma ação de recuada na mulher, e quando a violência sexual parte de alguém com quem se tem uma proximidade afetiva é mais difícil ainda processar o fato, uma vez que há um rompimento de confiança entre a vítima e o abusador. “A vítima vive um impasse. A tomada de decisão que vai resultar em um rompimento com a pessoa que cometeu a violência é um processo complexo.”

Foto: Celso Ribeiro
“A gente tem a ideia de que o estuprador é um tarado que anda pelas ruas em busca de um alvo. O contraponto da nossa experiência no atendimento de mulheres é que, na verdade, o estuprador é o conhecido”, diz Cláudia Cruz, psicóloga e presidente da ONG SOS Mulher e Família

Aline viveu momentos de extrema tensão após ter sido abusada. Ela deixou de ir sozinha à casa do “tio”, mas tinha de conviver com ele sempre que as famílias se reuniam. “Eu não contei para ninguém. Tinha muito medo de ser repreendida. Pouco depois de um ano do que aconteceu, o homem que me abusou e toda a família dele mudaram de cidade. Foi um alívio”, diz a jovem.


“O estupro é a desconsideração daquilo que é a vontade da mulher”

Reconhecer o abuso não é algo que acontece de maneira direta para toda vítima de estupro. Não foi, e ainda não é, para Bianca, de 23 anos. Ela foi estuprada, em uma casa na zona oeste de Uberlândia, por um homem que conheceu durante uma festa. “Me martirizo porque escolhi ficar com ele, ir embora da festa com ele. Eu não queria transar, mas ele não entendeu da mesma forma. Hoje eu sei que foi estupro, apesar de me culpar por ter me exposto a esse perigo. Sexo consensual, pelo menos para mim, não deixa as marcas físicas e emocionais que esse deixou”, diz.

Essa reação de culpabilização e até de negação, segundo a psicóloga Cláudia Cruz, é comum. “Supomos que muita gente não reconheça que foi vítima de violência, que muitas vezes é cometida pelo próprio companheiro. A mulher sabe que é algo ruim, mas às vezes não se dá conta ou não aceita que precisa de um atendimento especializado. O que alertamos é que o estupro é a desconsideração daquilo que é a vontade da mulher”, afirma.

Essas condições ajudam a entender um cenário de subnotificação significativo em relação a esse tipo de violência. No Brasil, em média, 35% dos crimes sexuais não são notificados, conforme aponta o 9o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Arte: Alexandre Barbosa


Mulher é desencorajada a denunciar

“Entre os atendimentos prestados na ONG SOS Mulher e Família, a menor frequência é de casos de violência sexual, mas não somos ingênuos. Na verdade, o que entendemos é que as estatísticas indicam essa subnotificação”, afirmou a psicóloga, que preside a organização.

Outra questão apontada como justificativa para essa falta de registro é que muitas vezes a mulher é ameaçada ou desencorajada de denunciar. “Em alguns casos, essa mulher vem de uma família que há gerações têm histórico violento e, ainda, pode ser induzida a pensar que aquela situação é normal. Há casos em que a violência, seja ela sexual, física ou psicológica, é um elemento que faz parte da construção dos relacionamentos”, diz Cláudia Cruz.

Essa falta de representatividade nos números oficiais e de reconhecimento da realidade acerca do crime de estupro, além de subdimensionar a gravidade da questão e prejudicar o estabelecimento de políticas públicas que ajudem a combater o problema e a apoiar as vítimas, ainda é um indicativo do quanto a situação de abuso é difícil de ser encarada.

Nem Aline nem Bianca apresentaram queixa formal do abuso sofrido. Sequer procuraram atendimento médico. Elas também estão fora das estatísticas.

A vergonha e o medo de expor a família e de ser julgada fizeram com que Aline, ainda criança, não contasse a ninguém que o “tio” a abusou. “Eu não sei se alguém realmente desconfiou, mas a sensação que eu tinha era de que todo mundo me olhava e sabia, eu me sentia suja.”

Já Bianca foi desacreditada quando contou para a irmã o que havia acontecido. “Acho que ninguém considerou que aquilo era verdade, me viram como uma irresponsável que quis ter uma noite de aventura e não conseguiu arcar com as consequências. Mas eu sei bem que não escolhi passar por isso.”

Arte: Alexandre Barbosa







* Os nomes reais das vítimas de abuso entrevistadas nesta reportagem foram substituídos por nomes fictícios


Fonte: Jornal Correio de Uberlândia

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