terça-feira, 9 de agosto de 2016

Artigo - Minha história de gravidez ectópica e a verdade sobre pílula do dia seguinte


Por: Gigi

Sempre que vejo uma amiga minha dizendo que tomou uma pílula do dia seguinte, fico até arrepiada, e vou tentar explicar ligeiramente o por que:

Quem me conhece sabe que eu nunca fui aquela pessoa que faz tudo certinho e opta sempre pelo estável. Nao! No rio da vida, eu nao fui lá molhar os pézinhos, eu mergulhei. Eu gosto de correr riscos e essa é uma característica minha, que sem ela, teria me feito ser outra pessoa. Sem ela, a vida que eu tive, eu nao teria tido. Esta característica minha me fez conhecer o melhor e o pior da vida que vivi. E tudo bem.

O problema nao é correr riscos, mas saber os riscos que voce está correndo. E nós mulheres, por causa dos interesses corporativos de companhias farmaceuticas, raramente chegamos a saber os riscos que estamos correndo com certas coisas que já sao tao usuais como pílula anticoncepcional e pílula do dia seguinte.

A anticoncepcional eu já nao tomo há milenios, quando descobri que meu inchaco e mau humores vinham daquelas doses diárias de hormonios que nao me deixavam ser quem eu realmente sou. Em nós mulheres, hormonio é tudo. Já pararam pra pensar que consumir diariamente qualquer dose que seja de hormonio tem grande impacto no seu corpo e mente? Pois pensem. E to falando porque experiencia em químicos eu tenho.

Gratidao pelas feministas que foram lá queimar sutias, tá tudo certinho. Mas seria a pílula a melhor opcao anticoncepcional para a mulher? Seria a pílula uma invencao de mulher pra mulher Marisa? Ou é mais uma ideia de liberdade sexual às custas de consequencias que afetam SOMENTE a mulher? Pensem nisso quando tiverem um tempinho. Eu já pensei: nao tomo!

Sexo sem camisinha é melhor? Nossa, mil vezes! Mas se há um método como a camisinha que nao afeta o corpo e a mente de nenhuma das partes, por que nao optar por este? Porque na hora do vamo ver, as coisas sao diferentes. Por isso, quando um homem se recusar a usar, e voces nao quiserem filhos nem graves consequencias, tentem pensar mais em si mesmas.

Meu breve relato: No meio de 2015, me despedindo de Ireland pra vir embora pro Brasil, decidi curtir meus últimos dias de bouas. E se tem uma coisa que eu gosto nesse mundo, essa coisa se chama liberdade, inclusive a sexual. Transei sim sem culpa com quantos quis. Todos com camisinha, exceto por um.

Eu nao queria transar sem protecao. Mas né… o cara queria, e sem protecao foi. No dia seguinte, obviamente eu tomaria a pílula do dia seguinte. O menino, paranoico, já estava surtado de manha, achando que eu nao tomaria, pois depois vim a saber que uma conversa que ele teve com outra menina sobre filhos o tinha deixado desconfiado. (Ué, e por que nao quis usar camisinha?).

Enfim… tomei a pílula. Mas conheco meu corpo: naquele mesmo dia senti que algo estava diferente dentro de mim. Mas só viria a saber mesmo o que era umas duas semanas depois quando, faltando 5 dias pro meu voo de volta pro Brasil, fiz um teste, e quase nem conseguia segurar ao ver o resultado: A pílula nao tinha funcionado. E se fosse só o fato de ela nao ter funcionado e eu ter engravidado, tudo bem. O drama maior viria depois.

Tudo o que voce nao quer quando toma uma pílula do dia seguinte é engravidar, isso é óbvio. Mas também eu nao ia querer abortar. Minha mente teve que ir de “Uhul sou solteira e livre apesar de pobre e sem emprego” (que era a situacao na época) para “Certo. Tenho que resolver minha vida completamente AGORA” em apenas algumas horas. Gente, a gente passa a vida fazendo essa transicao, e eu tive que fazer em 2 minutos. Nao sei de onde tirei forcas.

Fui apenas avisar ao pai da crianca qual era a situacao, e que ele nao precisava fazer nada, etc. Eu teria a crianca sozinha etc e tal. Veja bem: Eu tinha pouquíssimos dias pra resolver tudo isso, corria contra o tempo, mal conseguia pensar, mil coisas acontecendo ao mesmo tempo. Que situacao, meus amigos! O menino, afff nao vou nem dizer que surtou. E de repente, me vi sendo questionada por seus amigos sobre minha idoneidade, e sobre a dúvida se aquele filho era dele. Oi?????

Eu olhava aquilo e pensava: Como foi que eu vim parar nisso? Era o CSI Investigacao Criminal da gravidez de one night stand. De repente todas as neuroses e medo de estrangeiros tinham brotado naquele grupo, e eu era agora um forasteiro do Velho Oeste que tinha deflorado uma donzela. Depois de muitos convites para aborto com tudo pago negados por mim, e a declaracao via porta-voz de que o cara nao se responsabilizaria por nada (algo que eu já estava ok desde o comeco), resolvi que eu nao tinha que passar por aquilo e provar idoneidade pra ninguém pois eu poderia ter transado com 375 homens, o filho ainda era dele. Tchau galhere, ces que se resolva ae, tenho muita coisa pra me preocupar agora. Aliás, gratidao aos meus amigos e família. Mas a dor de quem está numa situacao destas só pode ser realmente dividida com a outra parte que gerou o filho. Entao, aquela dor era só minha. E vendo o quanto o cara era emocionalmente frágil, ainda tentei ser forte por ele também.

Mas a história nao termina aí… Ela fica ainda mais stranger things… Vim embora para o Brasil, praticamente louca, sem saber o que fazer da vida. Estudava sem parar porque tinha agora que arranjar um emprego muito bom. Eu, que nunca realmente quis ser mae, agora me preocupava com todo o futuro de uma crianca que decidi ter, eu tinha que ser forte. Mas já na primeira semana no Brasil, comecei a perceber em meu corpo que algo nao ia bem. Eu tenho uma conexao muito forte com meu corpo e uma intuicao muito agucada. Todos os dias, inconscientemente muita adrenalina comecava a tomar conta do meu corpo e eu comecei a ter certeza de que eu ia morrer. Cada dia que passava, eu sentia que estava mais perto da morte. E minha mae achava que era noia, e eu nao conseguia sentir que uma vida nova estava chegando, mas que a minha estava indo embora. Uma certeza irracional que eu nao sabia explicar até o dia em que se confirmou a situacao.

Eu, sem entender o que acontecia comigo, comecei a pensar que eu ia morrer no parto. Nunca tinha tido tanta consciencia e certeza da morte. Mas já estava me habituando a ideia de ser mae. Roupinhas, projetos, essas coisas todas. Mas quando pensava na crianca em si, uma adrenalina muito forte e de novo a certeza da morte surgia dentro de mim,e eu nao conseguia nem me visualizar com a crianca, nem ao menos visualizar seu rosto.

No dia da primeira ultrason, enquanto ouvíamos os batimentos cardíacos do bebe e minha irma e mae choravam de emocao, veio a notícia: a médica olhou com aquela cara estranha, e eu senti ali que tinha um problema. Ela desligou o som dos batimentos cardíacos e disse “está fora do útero”. E eu “como poe pra dentro?”. Ela ficou sem graca de me dizer diretamente, dava pra ver no rosto dela: “voce vai tomar um remedinho ou fazer uma cirurgia”. Ela nao teve coragem de dizer. E eu entendi que o remedinho ou a cirurgia era pra por pra dentro do útero. Mas nao era: era pra tirar, ou tirar perdendo trompa e tudo mais. O que????

Gravidez nas trompas: isto quer dizer que o óvulo foi fecundado bonitinho, mas no meio tempo de acao da pílula do dia seguinte, ele ficou ali fecundado sem descer das trompas para o útero, pois no momento em que ia descer, a pílula fez efeito, impedindo a descida para o lugar certo, mas nao impedindo a fecundacao. Que beleza hein galhere! DEVIA ESTAR ESCRITO ATRÁS DE CADA CAIXA DE PÍLULA, ASSIM COMO FAZEM COM O CIGARRO. VOCE PODE MORRER! A trompa é menor que a espessura de um dedo mindinho, e nao tem capacidade elástica para um evento deste porte: um bebe crescendo dentro dela. À medida que o feto cresce, uma bomba-relógio aumenta o passo em seu corpo, pois quando a trompa estourar, será uma hemorragia interna sem freios, a menos que voce seja muito sortuda e chegue muito a tempo no hospital. Muitas mulheres nem sabem que estao grávidas até esse sangramento chegar e ser devidamente confundido com uma menstruacao super intensa que vai te levar à morte.

Como que minha vida tinha saltado de “uhul solteira e livre” para “fudeu vou ser mae” para “socorro, vou perder filho e trompa”, assim em questao de semanas? Mas podia ser pior: podia acabar em “socorro estou morrendo. adeus.” Só agora escrevendo vejo como foi tudo tao intenso porque na hora a gente fica meio que anestesiada. Daquela consulta para ouvir os batimentos cardíacos, eu já nem pude voltar pra casa. Estava correndo risco de vida e nao sabia. Eu ainda quis ir pra casa, pensei “volto amanha prometo, mas me deixa pensar gente”. Mas o hospital proibiu e entao eu soube pela boca da médica que eu já poderia estar morta há um tempinho, e tudo fez sentido. E aquela dor e pequenos sangramentos que eu sentia de vez em quando, tudo agora estava claro.

O procedimento foi tao de emergencia, que me colocaram na frente de outras cirurgias de emergencia. E olha, o SUS tá de parabéns. Pra resumir: agora minha vida tinha dado outro plot twist, e eu, ali acordada da cirurgia apenas sentia as piores dores desse mundo físicas e emocionais mais o luto da perda de tantas coisas, mas tantas que eu nao conseguiria numerar. Foi devastador pra minha família que já amava aquele que seria o primeiro neto, mas pra mim foi milhoes de vezes mais devastador: eu tinha sentido o poder da vida e da morte tao de perto, tao rápido, tao intensamente.

E o processo de cura dessas dores também nao foi fácil. Todos pensam que vai ser rápido e let it go. Sao vários estágios, e, pra mim, um deles foi ficar traumatizada a respeito de homens. Meu corpo ficou traumatizado, era irracional. Uma vez fui a um banheiro de um bar, e lá tinham várias fotos de homem sem camisa, e meu coracao batia rápido com medo, como se o homem fosse uma ameaca de morte. E eu nunca tinha vivido essa experiencia do medo de homem antes. Afff.

Hoje estou curada, passou, tá tudo bem, e agora tive forcas pra falar no assunto. Mas quantas amigas vao passar por isso e outras coisas piores até que a verdade sobre pílula do dia seguinte seja espalhada? Algumas coisas a gent só sabe de ouvir de uma e de outra. E essas sao as coisas que deviam ser faladas pra todas. No meu caso, #gratidao à vida e pela vida. Adiei a morte, pois precisava escrever esse post antes. Se cuidem meninas, pensem mais em voces mesmas em primeiro lugar. O homem que use camisinha. E se nao quiser, ele que vá bater uma punheta.

Espalhem entre as amigue de voces. Vamo cuidar umas das outras porque como diria o Michael, “they don’t care about us”, e como diria o Julian Casablancas: That was a cautionary tale, boombox is not a toy.

Todo meu amor pra voces.


Fonte: Portal Medium

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