domingo, 14 de agosto de 2016

Acesso à educação é ainda mais difícil entre mulheres indígenas, diz agência da ONU


O tema central deste ano para o Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado nesta terça-feira (9), é o acesso à educação, previsto pela Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e por outros instrumentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada por líderes mundiais no ano passado, e o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 4 fortalecem esse direito, pedindo a eliminação das disparidades de gênero na educação e o acesso igualitário — incluindo os povos indígenas — em todos os níveis educacionais e de capacitação profissional.

Atualmente, o direito à educação está longe de ser uma realidade plena e concreta para os povos indígenas do mundo. Em todas as regiões, persistem as disparidades entre populações indígenas e não indígenas quanto ao acesso aos sistemas educacionais.
A lacuna é mais profunda no caso das mulheres e meninas indígenas, condenadas assim a um ciclo de pobreza, menos oportunidades, pior saúde e falta de condições para a tomada de decisões.

A agência da ONU trabalha com mulheres indígenas de todo o mundo, promovendo seus direitos e fazendo ouvir a sua voz. Estima-se que, das 370 milhões de pessoas indígenas do mundo, 45 milhões vivam na América Latina e Caribe, representando 8,3% da população na região. Em média, 85% das meninas e meninos indígenas estão matriculadas na escola secundária, porém, somente 40% chegam a concluí-la.

Neste Dia Internacional, a agência da ONU destacou sua atuação no tema, na qual se insere o projeto “Voz das Mulheres Indígenas”, cujo objetivo é aumentar a incidência política das mulheres em defesa de suas necessidades e interesses.

“Minha vida inteira morei na aldeia. Saí de lá para fazer a faculdade de secretariado na Universidade Estadual de Londrina. Passei nove anos lá. A faculdade não ensinou, ela aprimorou. Procuro ajudar o meu povo, sou aquela que busca informação para quem não saiu da base”, disse Andreia Lourenço.

Os olhos dela marejam quando lembra da colaboração de professoras e professores. “Tive filho no primeiro ano de faculdade. Costumo dizer que o curso foi o pai do meu filho, já que sou mãe solteira”, acrescentou ela, que busca saber mais sobre a história de seu povo para além das fronteiras da aldeia Laranjinha, onde vivem 250 indígenas, nas imediações do município de Tomazina (PR).

Na divisa entre Alagoas e Sergipe, os Wassu Cocal fixaram-se na região, no século 19, após a vitória da Tríplice Aliança — Brasil, Argentina e Uruguai — contra o Paraguai na disputa pelas terras do Mato Grosso.

“A luta do meu povo começou na Guerra do Paraguai, quando os guerreiros receberam as terras do imperador. O povo Wassu passou 10 anos lá e, depois desse período, os fazendeiros tomaram as terras. Houve muito massacre, negação de origem para não morrer. (…) Há 30 anos, as pessoas estão retornando para exigir as suas terras”, disse Iara Wassu Cocal, integrante da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Espírito Santo e Minas Gerais.

“A gente já vem de uma família de liderança. Meus avós por parte de pai e de mãe sempre foram caciques. Isso é uma questão histórica, vem de sangue, vem de família. Liderança já nasce liderança. Não se faz liderança de hoje para amanhã. É só esperar o tempo dela”, afirmou a terena Simone Eloy Amado, multiplicadora do projeto A Voz das Mulheres Indígenas.

Simone divide o seu tempo entre dois mundos: o tradicional e o acadêmico, conciliando a vida na aldeia Ipegui, no município de Aquidauana (MS), com a vida no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursa o mestrado em Antropologia Social do Museu Nacional.

O tempo é de colheita na vida dela. Em fevereiro de 2016, ela defenderá sua dissertação e já faz planos para o futuro: doutorado sobre mulheres indígenas. “No momento em que você entra na universidade, você não está estudando somente para si. Você está estudando para um povo”, disse.

No seu sobrenome, Maria Leonice Tupari carrega sua etnicidade. Seus antepassados e antepassadas foram forçadas a migrar do Mato Grosso para Rondônia, como resultado da escravização por seringueiros.

É com a voz entrecortada que ela relembra histórias de vida marcadas pela violência num tempo que as “mulheres indígenas eram dadas” e seu povo era alvo da expropriação cultural que lhes impedia de falar a língua materna.

Aos 39 anos e mãe de quatro filhas e um filho, Maria Leonice Tupari nasceu na Terra Indígena Rio Branco, cortada pelo Rio Branco e Rio Guaporé, do município Alta Floresta do Oeste (RO).

Atualmente, vive na tribo indígena Sete de Setembro, habitada pelos Paiter Suruí, no município de Cacoal (RO). Desde junho de 2015, Leonice é uma das multiplicadoras do projeto Voz das Mulheres Indígenas, que tem proporcionado o fortalecimento de sua consciência sobre organização política.

Uma das principais lideranças do projeto Voz das Mulheres Indígenas é Sônia Guajajara, integrante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Ela explica que o projeto tem colaborado para tentar unificar uma pauta, reunir ideias e demandas das mulheres.

“A gente tem isso para definir, qual a pauta comum das mulheres indígenas brasileiras, tentando alcançar a diversidade étnica e cultural no sentido de ver qual é a nossa demanda e como podemos atuar com maior participação e incidência das mulheres em todos os processos de decisão e discussão”, disse.

Sônia é do povo Tenetehara e nascida no Maranhão. Entre as demandas políticas dos povos indígenas no país, ela destacou garantias para “não permitir retrocessos nos direitos adquiridos na Constituição Federal”.

“A principal luta continua sendo a garantia do território, porque a partir daí a gente consegue as outras políticas sociais, culturais e políticas para as mulheres. A gente não tem saúde diferenciada para as mulheres indígenas. Há especificidades que precisam ser atendidas”, afirmou.


Fonte: Portal ONU BR

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