domingo, 24 de julho de 2016

Data internacional celebra negritude feminina


Em 25 de julho é comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra. Em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, realizou-se o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, ocasião em que duas decisões foram tomadas: a criação da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas e a definição do 25 de julho como o Dia da Mulher Afro-latina-americana e Caribenha. A data fortalece o feminismo e visa consolidar a resistência das mulheres negras às opressões de gênero e étnico-raciais nas regiões em que vivem. O objetivo é também ampliar as organizações que elaboram estratégias para enfrentar o racismo e o sexismo, sofrido por mulheres que passam ainda por situações de discriminação de classe social, etnia e religiosidade.

Na Universidade de Brasília, elas são mães, professoras, estudantes, servidoras e tantas outras mulheres que se esforçam, todos os dias, para superar os obstáculos, apesar das desigualdades sociais existentes. Ao ingressar na instituição, as alunas regulares fazem uma declaração de etnia, que permite traçar o perfil racial discente da UnB.


Com a finalidade de combater situações de discriminação, a Universidade de Brasília lançou a campanha UnB Diversa e Plural, com ações que visam promover tolerância e respeito às diversas identidades de gênero, raça e orientação sexual, entre outras.

Abaixo, uma série de relatos dessas mulheres passa as impressões sobre o que é ser uma negra na sociedade brasileira.

A mestranda em História, Layra Sarmento lembra que na História do Brasil há poucos relatos a respeito de mulheres negras e reforça que, nas escolas, são raras as aulas que citam líderes quilombolas. "Quando essas heroínas são mencionadas, o relato se resume à situação de escravidão", declara a estudante.

A escritora cearense Jarid Arraes, cordelista que aborda a ancestralidade feminina em seus textos, avalia que o quase esquecimento das mulheres negras na História é algo que contribui para a pouca visibilidade da população negra. Por esse motivo, pensa que as meninas negras, via de regra, crescem acreditando no mito de que não há boas referências intelectuais nas quais possam se espelhar. E, para descobrirem seus referenciais, é preciso que mergulhem num labirinto de pesquisas individuais. Jarid afirma que elas necessitam juntar peças de um enorme quebra-cabeça para, ao final, descobrirem que pouquíssima informação foi registrada a respeito de mulheres como as líderes quilombolas Dandara dos Palmares e Tereza de Benguela.

"Ser uma mulher negra no Brasil é 'pular uma fogueira' todos os dias, porque o racismo estruturante em nossa sociedade impossibilita que grande parte das mulheres negras brasileiras tenham acesso às políticas públicas básicas, como saúde e educação de qualidade. O racismo institucional é um dos 'fatores determinantes' para a exclusão e a ascensão social. Porém, apesar de todas as mazelas impostas às nossas vidas, sinto muito orgulho em ser uma mulher negra".

Maria das Dores Almeida (Durica), amapaense, professora, pós-graduada em História da Cultura Africana e Afro Brasileira. Na UnB, cursa o Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto aos Povos e Terras Tradicionais. Há 17 anos milita no Movimento de Mulheres Negras Brasileiras, no Instituto de Mulheres Negras do Amapá, na Rede Fulanas, nas Negras da Amazônia Brasileira e na Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras.


"Ser mulher negra é um desafio constante. Não esmorecemos jamais frente às dificuldades, e muitas vezes somos surpreendidas com ataques que vêm de onde nem esperamos. Sinônimo de luta, em minha opinião, é trilhar o campo do conhecimento, pois, conhecendo nossos direitos, é possível avançar assegurando que esses, tanto de ordem individual quanto dos grupos que representamos, sejam minimamente assegurados. Carrego em meu legado ancestral o desejo de avançar, vislumbrando a possibilidade de ainda poder viver em uma sociedade justa e igualitária. De índole nobre e guerreira, sigo sob o signo da resistência, na luta pela valorização do povo negro do Brasil e do mundo".

Miriam Aprígio, professora, historiadora e quilombola da Comunidade de Luízes em Belo Horizonte (MG), cursa mestrado em Sustentabilidade na UnB. É militante desde a juventude nas pautas étnico-raciais.


"Para mim, uma mulher negra é forte física e mentalmente, é confortável em sua pele. Uma mulher que acredita ser linda por completo, apesar dos chamados padrões de beleza da sociedade, como ter cabelos lisos, olhos azuis, nariz estreito, pele clara e quanto mais magra, melhor. Uma mulher que usa as pedras que atiram nela para construir sua fundação e que acredita que ela é tudo, pois foi criada com perfeição, mesmo que a sociedade diga que ela é não é nada".

Ficenca Raquel Eliza nasceu no Suriname e é quilombola do povo N’djuká. Graduada em Administração Pública, cursa mestrado em Sustentabilidade junto aos Povos e Terras Tradicionais, no Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB.


"A universidade, o mercado de trabalho, as relações afetivas, o consumo... tudo vem com um imenso carimbo: 'negra'. Logo, não confiável, incompetente, feia, não educada, sexualmente disponível, incapaz de convívio social 'civilizado'. Nenhuma positividade acompanha a adjetivação 'mulher negra forte'; somos fortes para suportar toda a perversidade do racismo à brasileira (na saúde, na educação, no mercado de trabalho). Em tempos como o atual, o racismo veste sua roupa de gala e nos ataca diuturnamente. Tememos perder nossos filhos e filhas, nossos companheiros e companheiras, devido à existência de uma arma permanentemente apontada para nossas cabeças. 'Somos alvo'. Mas, estar – historicamente – nessa condição nunca nos impediu de atuarmos no sentido de fortalecer a comunidade negra onde quer que estejamos e com os meios que temos".

Joelma Rodrigues, 48 anos, nasceu em Brasília. É doutora em História e leciona nos cursos de Licenciatura em Educação do Campo e no Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto aos Povos e Terras Tradicionais da UnB. Suas pesquisas têm como foco as intersecções entre raça e gênero, a partir da perspectiva do feminismo negro e do mulherismo africano. Atualmente, é coordenadora das questões negras da Diretoria de Diversidade da Universidade de Brasília (DIV).


"Ser mulher e negra, para mim, é um desafio, porque, em nossa sociedade, somos vítimas de opressão em dose dupla: enfrentamos o machismo e o racismo, diariamente. Somos inferiorizadas, mas não abaixamos a cabeça diante das dificuldades. Somos mulheres de luta, mesmo que o preconceito tente nos derrubar. E nossa luta constante vai muito além do que querer um lugar no âmbito profissional ou social. É, acima de tudo, querermos ser respeitadas como seres humanos. Somos sinônimos de resistência. Precisamos nos unir, ainda mais, para combater o racismo. Não podemos mascará-lo como algo inexistente. O padrão de beleza imposto pela mídia nos obriga a ser quem não somos e quem não queremos ser. Mas isso não nos impede de ser quem somos em nossa essência. Somos beleza, somos cultura, somos amor. Nós queremos igualdade de direitos e representatividade".

Priscilla Sena, 23 anos, moradora de São Sebastião (DF). Estuda Letras e ingressou na Universidade de Brasília pelo sistema de cotas raciais. É ativista cultural e integrante do Movimento Cultural Supernova. Luta contra o racismo e ama seu cabelo black.


"Ser mulher negra é uma questão de se tornar negra. Em uma sociedade que demonstra por todos os meios midiáticos que estamos fora dos parâmetros de beleza, ser negra é resgatar uma segunda identidade e se enxergar livre das amarras sociais que insistem em nos perseguir. Ser uma mulher negra é se descolonizar todos os dias para o enfrentamento cotidiano. É resistir aos ataques de sexualização e objetificação sobre os nossos corpos negros. Ser negra é resgatar nossas origens, amar as nossas raízes e traçar novas rotas de sobrevivência".

Ana Caroline Gomes, 24 anos, moradora do Gama. É estudante de Teoria Crítica e História da Arte. É produtora cultural, dançarina e rapper.


"Sempre penso que ser mulher negra é viver plenamente, sem medo de ousar e jamais me submeter a critérios da sociedade, que ditam o que devemos fazer com nossos cabelos e determinam o que é bonito ou não. Ser mulher negra, pra mim, é ter orgulho de quem sou; é não usar ou ser algo para agradar um padrão determinado pela sociedade".

Layane Soares Nunes, 20 anos, nascida em Valparaíso de Goiás (GO). Entrou na UnB, no curso de Arquitetura e Urbanismo, pelo sistema de cotas raciais e se orgulha disso. Está inscrita no Programa de Iniciação Científica e participa do Grupo AfroAtitude. Em 2016, participou do Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Negros, no Rio de Janeiro (RJ).


"Ser uma mulher negra é ser forte, é resistir às opressões de uma sociedade racista e patriarcal. É ser mãe e pai, mesmo estando só. É ser alvo do desrespeito e se manter firme. É subir, mesmo com tudo te empurrando pra baixo. É ser cansada, negada e objetificada. É ser a segunda opção para aqueles que não enxergam o valor do corpo negro feminino. Ser mulher negra é sofrer com tudo isso e, ainda sim, subsistir mais forte a cada dia".

Hallana Moreira, 20 anos, estudante de Jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Ela ingressou na instituição por meio das cotas para negros.


"Acho que ser mulher negra é ser uma pessoa comum. Não acredito que a cor da minha pele ou o meu gênero deva ser empecilho para alcançar meus objetivos. E é com esse pensamento que levo minha vida. É apenas ao interagir com o mundo de alguma forma que sou lembrada de que não sou apenas alguém, não sou apenas uma mulher, mas, sim, sou uma mulher negra. Com isso, o caminho que sigo acaba sendo um pouco peculiar. Por essa razão, ser uma mulher negra também significa um trabalho constante para derrubar as diversas barreiras e preconceitos que surgem com o rótulo, sem, com isso, perder a força e o otimismo".

Janiele Custódio, 23 anos, formada em Engenharia de Produção na UnB. Passou direto da graduação para o doutorado em Engenharia de Sistemas na George Washington University, Estados Unidos, que inicia neste semestre.


"Ser mulher negra é ser igual à mulher branca, 'só que não'. Ser mulher negra é tentar transcender as barreiras do padrão e assumir suas raízes sem ser desrespeitada ou taxada como adepta de uma 'modinha'. É estar inserida em uma realidade etnocêntrica, conviver com a falta de representatividade e tentar se enquadrar dentro do que a sociedade assume como bonito, desvalorizando seu maravilhoso DNA. Ser mulher negra é ter sua intelectualidade questionada devido à distorção histórica dos negros e ser vista como inferior à mulher branca até que se prove o contrário. As pessoas chegam a ficar impressionadas quando um negro, por exemplo, assume algum bom cargo. É nascer com o genoma tão 'diferentemente igual' ao de todas as outras mulheres".

Krissya Norrana, 20 anos. Estuda Ciências Biológicas e mora em Planaltina.

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Mercado

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a renda das mulheres negras brasileiras não corresponde à metade da recebida pelos homens brancos e equivale a cerca de 56% dos rendimentos das mulheres brancas. O desequilíbrio se repete em relação a situação educacional; inserção no mercado de trabalho; acesso a bens duráveis e tecnologias digitais; condição de pobreza e situações de violência doméstica.



Os dados estão registrados no livro Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil editado pelo Ipea, em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e a ONU Mulheres em 2013.


Fonte: Portal da Universidade de Brasília - UnB

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