segunda-feira, 13 de junho de 2016

Mulheres que Fizeram História: Camille Cerveaux, a escultora internada como louca porque não queria casar


Camille Claudel: a quem serve a normalidade?

Por: Daniela Lima*

Camille Athanaïse Cécile Cerveaux Prosper nasceu em Aisne, França, no dia 8 de dezembro de 1864.

Filha de Louis Prosper, um hipotecário e Loise Athanaise. Foi a primeira de três filhos.

Desde de pequena, já declarava seu desejo de ser escultora, produzindo esculturas de ossos e esqueletos com muita facilidade.

Em 1881, com 17 anos, foi para Paris e ingressa na Academia Colarossi, uma escola para artistas escultores.

Até 1897, mulheres eram excluídas das principais escolas de artes francesas, como a École de Beaux-Arts. Trabalhavam como ajudantes ou assistentes de artistas e não podiam assinar as obras que ajudavam a realizar. Camille não assinou Les Portes de l’Enfer ou Les Bourgeois de Calais (A porta do inferno). Ficou à sombra de Rodin, de quem foi assistente e amante.

Com Rodin, Camille foi vítima de um relacionamento abusivo. Além de ter seu talento sugado, ele a engava, mantendo um relacionamento com outra mulher e dando falsas esperanças de um dia se separar.

Camille rompeu com alguns destinos impostos às mulheres de sua época como naturais. Não se casou, não teve filhos e se dedicou a uma atividade considerada masculina: a escultura.

Seu irmão, Paul Claudel, decidiu interná-la à força. “É preciso evitar o escândalo”, ele dizia.

O laudo de internação concedido por um médico amigo da família afirmava que Camille tinha delírios persecutórios envolvendo Rodin e cultivava hábitos miseráveis: não cuida da aparência, usa roupas puídas e sapatos gastos, não se lava, mantém as cortinas sempre abaixadas e as janelas fechadas, alimenta muitos gatos e vive sozinha, reclusa, numa casa quase sem móveis. São visíveis tanto as marcas da violenta relação com Rodin como o julgamento moral de seus hábitos.

Em seus 29 anos de internação, Camille implorou que Paul Claudel a tirasse de Montdevergues. Este período é retratado nas cartas que Camille escrevia para Paul Claudel e no filme Camille Claudel 1915:

“Hoje, três de março, é o aniversário do meu sequestro em Ville-Evrard: faz sete anos que faço penitência nos asilos de alienados. Depois de terem se apoderado da obra de toda a minha vida, mandam-me cumprir os anos de prisão”. (DELBÉE, 1988, p.201)

“Durante todo inverno não me aqueci, estou gelada até os ossos, cortada ao meio pelo frio. […] Uma amiga minha, uma pobre professora do liceu Fénelon que veio cair aqui, foi encontrada morta de frio na cama. É medonho!” (p. 255)

“Quanto a mim, estou tão desolada por continuar a viver aqui que eu não me sinto mais uma criatura humana”. (p. 275)

Camille Claudel nunca saiu de Montdevergues. Morreu em 1943, aos 79 anos. Foi enterrada em vala comum e seu corpo nunca foi encontrado. Paul Claudel não compareceu a seu funeral em Montdevergues.


* Daniela Lima é escritora e ativista, autora de Anatomia (2012), Sem Importância Coletiva (2014) e Sem Corpo Próprio (2015). É comentarista da Rádio Manchete, biógrafa da escritora Maura Lopes Cançado e fundadora do coletivo feminista Jandira (2014). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.


Fonte: Blog Boi Tempo / Facebook

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