segunda-feira, 13 de junho de 2016

Muito além da feijoada, samba e candomblé - Escritores se reúnem na UnB para discutir a imagem do negro na sociedade brasileira


Na mesa de debate: racismo, preconceito, discriminação com as periferias urbanas e outros temas polêmicos. As obras literárias produzidas por escritores negros estão em discussão. São onze autores brasileiros reunidos para dialogar, expor ideias e apresentar suas publicações. É a III Jornada Literária de Autoria Negra, evento que aconteceu no dia 1º de junho, no auditório do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (IL/UnB).

Um público de cerca de 120 pessoas estava presente. Professores e estudantes lotaram o auditório do IL/UnB, com o objetivo de participar das palestras e conversar com os autores. Vanessa Andrade, estudante do ensino médio, considera importante participar de um encontro de escritores negros na UnB. Ela destaca a importância de se difundir a literatura que trata da negritude. “Na escola, dificilmente temos contato com a livros que falam das questões dos negros. Só conhecemos esses autores quando algum professor de História se interessa pelo assunto e traz para sala de aula”, afirma.

O encontro literário foi organizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (GELBEC). O grupo prioriza discussões sobre a relação entre literatura e sociedade, tendo como foco a representação de grupos marginalizados e as disputas no campo literário brasileiro. Também são estudadas as obras de autores que abordem temas sociais de relevância na sociedade brasileira. Feminismo, discriminação racial e violência urbana são alguns dos assuntos pesquisados.

Regina Dalcastagnè, coordenadora do GELBEC, relata que, ao escolher os escritores, teve a preocupação de abranger temas e enfoques variados. “Procuramos convidar autores e autoras de gerações e cidades diferentes. No mesmo espaço, temos o Cuti (escritor paulista), que, há décadas, é um autor renomado. E, compartilhando a mesa, Eliane Marques, autora do Rio Grande do Sul”, declara. Dessa forma, a professora de Literatura da UnB considera que o evento apresenta um panorama de textos produzidos no Brasil que apresentam temáticas e contextos sociais diversos.


Mulheres que escrevem

“Sou negra, gorda e nordestina.” A escritora baiana Mel Adún, uma das convidadas, relata que os espaços sociais devem ser ocupados por mulheres conscientes de que podem – e devem – se opor às padronizações estéticas que teimam em oprimir a mulher negra. Ela é autora de A lua cheia de vento (2015).

A escritora Meimei Bastos, em sua obra, analisa a condição da mulher na sociedade. “Fui criada na periferia de Brasília. Escrevo aquilo que, infelizmente, vejo todos os dias. A voz feminina deve ser ouvida e respeitada.” Ela é estudante de Artes Cênicas na UnB. Há dois anos escreve poesias. Em 2015, participou do livro Mulher Quebrada, publicação nacional que reúne textos de autoras que moram nas periferias urbanas.


Estereótipos

Ao tratar das questões relacionadas aos negros, as discussões nas mesas de debate procuraram fugir do tripé convencional do exótico/folclórico/religioso. “Somos muito mais do que pessoas com roupas coloridas, capoeiristas e tocadores de atabaque. Somos médicos, engenheiros e jornalistas. Produzimos conhecimento”, afirma Cláudio Albuquerque. Ele é historiador e professor universitário. Como pesquisador, ele afirma a enorme riqueza cultural trazida pelos ancestrais africanos, mas questiona a visão hierárquica que os livros de História apresentam. “Parece que, apenas na Europa, havia pessoas inteligentes. Ainda hoje, a África é um continente invisível nos livros didáticos”, observa Cláudio.

Para o próximo ano, os organizadores da Jornada Literária pretendem ampliar o evento. Eles desejam convidar autores de outros países para dialogar com os escritores brasileiros.

Na encontro literário, foi lançada a 38a edição dos Cadernos Negros.


Cadernos Negros

Criado em 1978, inicialmente era uma publicação com textos de oito poetas, que dividiam os custos do livro, editado em formato de bolso com 52 páginas. Os folhetos, vendidos principalmente em mostras literárias, circularam posteriormente de mão em mão, sendo distribuídos para poucas livrarias, mas obtiveram um expressivo retorno dos que tiveram acesso a eles. 
 Desde então, e ininterruptamente, foram lançados outros volumes - um por ano - alternando poemas e contos de estilos diversos. A distribuição aperfeiçoou-se, procurando chegar a um público mais amplo e diversificado do que aquele atingido pelos primeiros volumes. Escritores de vários estados do Brasil vêm publicando nos Cadernos. É preciso assinalar que não existem outras antologias publicadas regularmente com textos de autores afro-brasileiros, em grande parte devido às dificuldades financeiras inerentes às publicações desse tipo. Sendo assim, os Cadernos têm sido um importante veículo para dar visibilidade à literatura negra.

Fonte: Portal Quilombhoje / Universidade de Brasília - UnB

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