terça-feira, 21 de junho de 2016

Artigo - Fios de prata


Por: Onides Bonaccorsi Queiroz

Há os que me perguntam, ou sugerem: por que você não pinta seus cabelos grisalhos?

É bem singela a resposta: porque não tenho motivos para fazê-lo. Não tinjo porque é verdade que tenho cabelos brancos.

Cuido bem da minha saúde, faço exercícios, busco uma alimentação equilibrada, me enfeito, gosto de roupa bonita e evito o estresse tanto quanto possível. Mas não tenho obsessão em parecer jovem. Deixo que o ciclo da natureza siga seu curso e procuro me adaptar a essa realidade.

De modo que já tenho mais de 40 e não quero ter 20. Não sou gatinha, sou mulher. E valorizo as minhas realizações, pois sei o quanto me custaram. Rio com mais facilidade, choro quando quero, sei sentir raivas circunstanciais sem alimentar ódios mortais, amo com mais liberdade, perdoo mais, dou a volta por cima mais rápido, mantenho mais a calma em momentos de tensão. Graças a tudo o que vivi exatamente a bordo do tempo, compreendo mais meu mundo de dentro e o de fora, o que me dá certa segurança. Também tenho claro que não é a opinião de alguém ou mesmo o senso comum que calça meus passos, mas a legitimidade interior. Esse é o meu maior patrimônio.

Então não vejo sentido no esforço de disfarçar a velhice biológica, como se o passar dos anos fosse um inimigo. Porque aí certamente se perde a formidável oportunidade de aprender a abrir o coração para a existência. Semeio confiança, colho gratidão e encantamento. O tempo é aliado para quem está atento.

Para isso é preciso ver com novos olhos. Identificar uma beleza além da estética. Muito mais sofisticada. A beleza da dignidade daquele que aprendeu a se aceitar tal como é. A beleza da brandura diante das fases da vida. A beleza de caminhar silenciosa e muitas vezes solitariamente. A beleza de poder admitir que logo mais estará partindo deste mundo. E a beleza suprema de se libertar do medo.

Quero viver da melhor maneira que entendo: simples, profunda e alegremente. E me entregar às aventuras existenciais que a minha própria alma escolher. Às conquistas que tiverem significado para mim. Eis o poder que me cabe.

Assim renovada, todas as manhãs desperto meu rosto com água fria e penteio meus lindos cabelos prateados.

Olho-me ao espelho e sei que não sou a imagem. Eu sou aquela que olha.


Fonte: Blog Verbo de Ligação

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