terça-feira, 21 de junho de 2016

Após polêmica, quatro livros deixam de ser usados em prova


Quatro das obras criticadas por vereadores e pais de alunos na polêmica sobre os kits de livros distribuídos na rede municipal de ensino de Taubaté não serão utilizadas para provas.

A promessa foi feita ontem pela secretária de Educação, Edna Chamon, após reunião pública na Câmara, que durou cinco horas.
Integram a lista os livros: “O Livro da Com-Fusão Brasil”, de Ilan Brenman e Fê, a ser trabalhado no 1º ano do ensino fundamental; o “ABC Doido”, de Angela Lago, para o 3º ano; “Terríveis Romanos”, de Terry Deary, para o 7º ano; e “Góticos”, de autores diversos, para o 8º ano.
A decisão, tomada a pedido dos vereadores, tem como objetivo possibilitar que as crianças que não lerem os livros não sejam prejudicadas em suas notas.
“Acho que isso não é o que os pais queriam, mas já é um alívio. Vão poder decidir se o filho vai ou não ler o livro”, disse o vereador Carlos Peixoto (PMDB), presidente da Câmara.
Segundo Edna, dois dos livros -- “O Livro da Com-Fusão Brasil” e o “ABC Doido” -- já não deveriam ser utilizados em provas, pois são para alunos muito novos. Os dois outros serão apenas discutidos em sala de aula, mas sem uso em avaliações. “Foi um compromisso que assumi”.
O acordo serviu para apaziguar os ânimos após uma reunião tensa, mas não agradou o vereador Noilton Ramos (PSD), autor do requerimento que pediu a convocação da secretária.
O parlamentar, que integra a bancada religiosa, quer que os livros sejam recolhidos.
“Não vou aceitar [o acordo] e vou continuar contrário. Eu não acredito que esses livros sejam para formar cidadãos de excelência”, disse.

Polêmica

Na semana passada, vereadores e pais de alunos criticaram trechos dos livros. No “ABC Doido”, por exemplo, a letra T é ensinada como inicial da palavra tridente, e há o desenho de um diabo.
Já no “Terríveis Romanos”, há um ‘guia’ para fazer sacrifícios com animais.
Na reunião de ontem, a maioria dos vereadores usou a tribuna para criticar as obras.
“Muitos livros são bons, mas alguns eu, como mãe, não daria para meus filhos”, disse Maria das Graças, a Graça (PSB). “O produto não é adequado para crianças”, afirmou Nunes Coelho (PRB).
Já Edna defendeu a aquisição dos 32.896 kits, que custaram R$ 9,33 milhões, e foram distribuídos a alunos do 1º ao 9º ano do ensino fundamental e também para estudantes do ensino médio e EJA (Educação de Jovens e Adultos).
“Literatura sempre será matéria controversa. Devemos e vamos ouvir os pais, respeitando valores e crenças, mas não privando as crianças do conhecimento”, alegou. A cada fala de Edna, professores, assessores e secretários municipais, que lotaram a galeria da Câmara, aplaudiam. Cada kit é formado por oito títulos, que variam de acordo com a faixa etária.


Entrevista com a escritora Ângela Lago

Alguns vereadores e pais de alunos de Taubaté pedem que um livro escrito pela senhora, “ABC Doido”, não seja lido por crianças. Como a senhora reagiu a essa polêmica?A minha impressão é que temos em Taubaté um movimento muito interessante a favor da literatura, e que isso é um fato isolado provavelmente de um número de pessoas não significativo.

O livro, escrito há quase 15 anos, já ganhou vários prêmios, como o Jabuti, por ser considerado o melhor livro infantil juvenil de 2000. É a primeira vez que ele é citado em uma polêmica dessas?É a primeira vez que isso ocorreu, por isso mesmo considero um fato isolado. É um livro muito aceito, que já vendeu muito, foi premiado pela Câmara Brasileira do Livro e já tem uma versão na internet, em um trabalho gratuito para as crianças.

Vereadores e pais de alunos consideraram o livro inapropriado para crianças pois, em um de seus trechos, cita que a letra T é a inicial da palavra tridente e traz um desenho do diabo. Como a senhora vê isso?O personagem do diabo não é de uma religião específica, mas é um arquétipo de toda literatura.
Se forem banir o diabo, vamos perder “Fausto”, de \[Johann Wolfgang von\] Goethe, vamos perder livros do Guimarães Rosa, contos do Machado de Assis, como “A Igreja do Diabo”. Isso não tem nenhum senso. Houve uma leitura errônea. Na verdade, meu diabinho é uma figura de ironia. Não estou fazendo uma apologia a ele, mas uma ironia. Quando ele fala ‘cruz não’, é porque ele tem medo da cruz. Ele está diante de um poder que sabe ser maior que o dele. Acredito que a crítica tenha sido resultado de uma leitura apressada, provavelmente de pessoas que não pararam para refletir sobre ela.

A senhora considera o livro seja inapropriado para alguma faixa etária?
De maneira nenhuma. O diabo, enquanto personagem, é uma figura interessante, pois sempre acaba perdendo. É muito adequado para a criança refletir sobre o lugar do mal. No caso, ele sempre sofre castigo, sempre perde. É necessário reflexão sobre os temas, e não afastamento.

Vereadores e pais de alunos pedem que os livros sejam recolhidos. Acha que isso é correto?
Nós estamos em uma época em que queimas de livros não fariam nenhum sentido. Acredito que a maioria da população de Taubaté não vai deixar isso ocorrer, pois é uma cidade progressista.

A senhora teria algum recado para as pessoas que fizeram essas críticas a sua obra?
Não preciso falar nada, pois eu acho que eles vão cair em si sozinhos. No século em que nós estamos, não temos que recomeçar movimentos como a censura a livros, que nunca fizeram bem nenhum à sociedade.


Fonte: Jornal O Vale

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