segunda-feira, 6 de junho de 2016

A população invisível do cinema


Entre os anos de 2002 e 2012, mulheres pretas e pardas* ocuparam 4% do elenco dos filmes nacionais de grande bilheteria. A proporção é nove vezes menor do que a quantidade de atrizes brancas presentes nas mesmas películas. De acordo com os dados do Censo realizado pelo IBGE em 2010, observa-se que pretas e pardas representam um quarto da população. E correspondem à metade das brasileiras. Ainda assim, segundo o levantamento do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMMA) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), elas não estão na telona.

De posse desses dados, a jornalista Conceição de Maria Ferreira Silva (que prefere ser chamada de Ceiça Ferreira) dispôs-se a destrinchar o tema em tese de doutorado defendida em abril na Faculdade de Comunicação (FAC), intitulada Mulheres negras e (in)visibilidade: imaginários sobre a intersecção de raça e gênero no cinema brasileiro (1999-2009).

Ferreira desenvolve trabalhos acadêmicos sobre a relação entre a questão racial e a produção audiovisual brasileira. No doutorado, o recorte temporal abrangeu os anos de 1999 a 2009, período que comporta a retomada do cinema nacional e significativas mudanças nos movimentos sociais.

“A tese é importante porque há pouquíssimos trabalhos sobre mulher negra e cinema brasileiro”, comenta a professora Tânia Montoro, orientadora do doutorado de Ceiça Ferreira.

Desenvolvida em três fases (pesquisa bibliográfica, análise fílmica e estudo de recepção), a tese se assenta na premissa de que a mulher negra tem visibilidade limitada no cinema, na publicidade, no jornalismo e na televisão brasileira, assim como na historiografia e na literatura. A invisibilização ocorre de duas formas: pela perpetuação do estereótipo e pela ausência de personagens negras.


Doutora pela Faculdade de Comunicação, Ceiça Ferreira
investigou a visibilidade da mulher negra no cinema brasileiro.

A questão é que essas práticas repetitivas “naturalizam na produção simbólica os processos de exclusão e as assimetrias sociais, raciais e de gênero existentes na convivência inter-racial brasileira”, afirma Ferreira. “Nossa cultura ainda é fortemente ancorada na valorização da mestiçagem e de um ideal estético branco como elementos fundadores de nossa identidade nacional”, explica.

Três filmes foram alvo de análise: Orfeu (Cacá Diegues, 1999); Bendito Fruto (Sérgio Goldenberg, 2004) e Besouro (João Daniel Tikhomiroff, 2009). Segundo o relato de Ferreira, o processo de seleção das obras já indicou assimetrias de representação. Isso em razão da dificuldade de encontrar produções em que “a mulher negra represente papéis minimamente interessantes e que tenha tempo de tela relevante”, como comenta a doutoranda.

Na análise fílmica, Ceiça Ferreira observou que predominam imagens estereotipadas sobre as mulheres negras. São representadas como seres hipersexualizados; restritos ao trabalho braçal ou doméstico, cujos corpos estão à disposição.

O ponto alto da tese está nos estudos de recepção, que foram realizados com três grupos de discussão (um composto por estudantes da UnB; outro por membros de uma associação de idosos e um terceiro constituído predominantemente por servidoras públicas, em Goiânia). Neles, foi possível discutir o racismo a partir da película, considerando o posto de vista de três gerações – jovens, adultos e idosos – acerca do filme Bendito Fruto.

“A ideia é conhecer o receptor. Para quem faz a pesquisa, é muito enriquecedor, pois observam-se discursos que emergem no grupo, contradições”, descreve Ceiça Ferreira. “Determinados imaginários se mantêm”, continua.

A análise do estudo de recepção confirmou o que foi observado na análise fílmica: as mulheres negras eram representadas como figuras invisibilizadas, passivas, incapazes, hipersexualizadas e subservientes.

Durante a investigação das memórias dos participantes dos grupos de discussão, algumas frases foram recorrentes, como “Não me lembro de nenhuma negra que seja boa moça” ou “Mulher negra é a mulata, é o sexo”. Por outro lado, algumas surpresas surgiram, como a de uma senhora que afirmou que, ao pensar em uma mulher negra, lembrava-se de sua mãe. Um episódio, em especial, chamou à atenção da doutoranda: “Uma senhora me surpreendeu. Ela disse que ‘ser do lar também é ser protagonista. Ser dona de casa é um reconhecimento, porque, geralmente, a mulher negra é a doméstica’”, conta. “Daí, nota-se que a demanda da mulher branca é diferente da negra. Elas têm experiências históricas distintas. A negra sempre esteve na rua, no mercado, no trabalho. Estar dentro de casa é privilégio da branca”, elabora Ferreira.

Em outra etapa do estudo de recepção, os participantes propuseram possibilidades de enredos para personagens negras. Neste momento, ficaram patentes os imaginários viciados, frutos de um regime escravista, colonial e patriarcal. Nos cenários elaborados, observou-se recorrência de papéis: o da escrava; da moça sofredora; da pessoa com sexualidade aflorada ou fácil; da empregada doméstica ou da vítima de preconceito racial.


Conclusões

“Os estereótipos permanecem. É possível confirmar a força do imaginário por causa das assimetrias específicas. A mulher negra sempre é o outro. E as relações interpessoais são marcadas por essas assimetrias”, comenta Ferreira.

Apesar disso, os estudos de recepção permitem vislumbrar outros imaginários. “A tese apresenta conclusões interessantes como o fato de que as mulheres negras gostam de ser representadas em seus lares, com seus filhos, dentro da vida cotidiana”, comenta Tânia Montoro.

“Descobriu-se que elas, em sua maioria, tiveram uma vida dedicada à casa dos outros e aos filhos dos outros (como empregadas, amas de leite, babás...) e estar em suas casas com seus filhos transmuta esta forma de representação. Também é importante perceber que, enquanto a velhice é lugar da solidão para as brancas, para as velhas negras é lugar de mais prestígio, sabedoria na hierarquia social e familiar”, afirma Montoro.


Perpetuação do racismo

Segundo Ferreira, o imaginário reforçado pela produção cinematográfica interfere na forma em que a mulher negra é tratada. Isso porque, quando ela entra em um lugar social, não se imagina que possa ser protagonista. “O processo aprisiona essas mulheres em estereótipos. Não se espera que sejam outra coisa”, elabora.

“A gente finge que o racismo não existe, porque está naturalizado na nossa sociedade. Mas pensa que cada um tem seu espaço. A gente é afetuoso, beija e abraça, mas desde que as pessoas não saiam do lugar preestabelecido para elas e o cinema reforça isso”, encerra.

*O levantamento do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMMA) usa a mesma terminologia aplicada pelo IBGE para elaborar o Censo. Na matéria, consideramos o termo “pretas e pardas” como sinônimo para “negras”.


Fonte: Portal da Universidade de Brasília - UnB

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes