domingo, 15 de maio de 2016

Sobrevivente de atentados de Bruxelas combate estigmatização de muçulmanos


Um empresário judeu que sobreviveu aos atentados terroristas de Bruxelas encontrou na defesa da comunidade muçulmana uma motivação para superar o trauma, convertendo em símbolo desse combate a nova amizade com um sobrevivente muçulmano.

Em 22 de março deste ano, 32 pessoas morreram em duas explosões no aeroporto internacional de Zaventem e uma na estação de metrô de Maelbeek, na capital belga. O grupo extremista autodenominado Estado Islâmico reivindicou a autoria dos ataques.

"Percebi que, depois disso, muitos amigos meus desenvolveram uma raiva generalizada de muçulmanos. Acho importante lutar contra isso para salvar nosso modelo atual de sociedade e evitar que a situação degenere", explica Walter Benjamin, judeu não praticante em uma família na qual há também cristãos e muçulmanos.

Vítima de terroristas que atacam em nome do islã, Benjamin defende que "99,9% dos muçulmanos são formidáveis e não merecem ser culpados pelo que fazem 20 ou 30 idiotas".

Ele diz acreditar que o melhor exemplo disso é Hassan Elouafi, muçulmano fervoroso que foi a primeira pessoa a ajudá-lo no dia do atentado.


Explosão

Os caminhos de Benjamin, 47, e Elouafi, 41, ambos belgas, se cruzaram no aeroporto.

O judeu se preparava para embarcar para Tel Aviv, em Israel, onde mora a filha de 16 anos. Já o muçulmano se preparava para consertar uma máquina no edifício onde trabalha como técnico há 20 anos.

Benjamin perdeu a perna direita, teve a esquerda gravemente comprometida por uma fratura múltipla e estilhaços de bomba, e várias partes do corpo perfuradas por pregos que compunham os artefatos. Elouafi saiu fisicamente ileso, mas profundamente abalado.

"Foi tudo muito rápido. Lembro de ter ouvido a primeira explosão e pensado: 'Quem é o idiota que solta fogos de artifício em um aeroporto?' Aí vi muita gente correndo na minha direção, gritando, mas nem deu tempo de entender o que estava acontecendo", contou Benjamin à BBC Brasil.

A segunda explosão ocorreria poucos segundos depois, a cerca dois metros de onde ele se encontrava, na fila para registrar as bagagens.

"Houve um barulho e uma luz muito forte. Fui projetado pela bomba e caí sentado. Vi minha perna do lado, arrancada, e meu sangue jorrando. O homem que tinha estado atrás de mim na fila estava a meu lado, morto. Ele tinha perdido a cabeça. Todos ao meu redor estavam mortos."

Mais afastado, enquanto passava pela fila um, Elouafi viu "uma bola de fogo" acompanhada de "um barulho gigantesco", e em seguida "tudo ficou negro de poeira por causa do teto que caía".

"Quando a poeira baixou, vi Walter sentado no meio de todos aqueles corpos, sozinho. Ele gritava de dor, com uma voz frágil. Me senti mal e dei a volta para ir até lá consolá-lo. Não podia deixá-lo lá sozinho", lembra Elouafi, pai de quatro filhos.

Ainda assim, Benjamin considera que o novo amigo ajudou a salvar sua vida.

"Eu me sentia morrendo. Hassan me emprestou o telefone para que eu avisasse minha mãe. O socorro demorou a chegar e ele ficou o tempo todo comigo, ajudou o militar que chegou depois a me fazer um torniquete e me acompanhou até a ambulância. Ele não precisava, podia ter ido embora, ter se protegido. Mas ele ficou lá", lembra, emocionado.


Reencontro

Uma semana depois dos atentados, Elouafi, ainda traumatizado, decidiu telefonar para a mãe de Benjamin para ter notícias do desconhecido que ele havia ajudado e temia não ter sobrevivido aos ferimentos.

"Quando ela me falou que ele estava vivo e que estava me procurando, eu comecei a chorar. A psicóloga, que estava ao meu lado, também começou a chorar. Foi um alívio. Eu não tinha parado de pensar nele. Fui direto para o hospital onde ele estava internado."

Segundo Benjamin, os dois formam agora uma "nova família recomposta, apesar de todas as diferenças".

"Nos falamos quase todos os dias. Ele vem me visitar com frequência, me traz pratos preparados pela esposa dele, pergunta sempre se eu preciso de alguma coisa. Age como um verdadeiro irmão", afirma.

Para Elouafi, as conversas com o amigo judeu, sempre otimista e de bom humor, são "uma espécie de tratamento psicológico".

"Quando eu não consigo dormir, eu ligo pra ele. Quando ele tem dificuldade pra dormir, é ele quem me liga. Só nós podemos entender o que sentimos", afirma.

Batalha

Benjamin diz acreditar que a amizade entre um judeu e um muçulmano surgida de um atentado terrorista é "um símbolo forte, que permite enviar uma mensagem importante a todos os que tentam estigmatizar toda uma comunidade".

"Hassan é uma pessoa excepcional. Como alguém poderia relacionar ele com os terroristas que fizeram isso comigo? Se não fizermos nada contra esse tipo de ideias, estaremos abaixando os braços definitivamente e dando espaço para uma sociedade violenta e acívica."

Por isso, ele decidiu contar a história em uma nota pública em sua página Facebook, onde também cobra ações das autoridades belgas para evitar que mais jovens "vejam o terrorismo como a única saída para suas vidas".

A publicação gerou centenas de mensagens de apoio e despertou o interesse de um grupo de jovens de Molenbeek, bairro de Bruxelas de onde eram originários muitos dos terroristas que atacaram a cidade e Paris.

"Eles vieram me ver, disseram que sentem muito pelo que aconteceu comigo, falaram dos problemas do bairro e do que querem da vida. Eles querem que as coisas mudem. Precisamos ajudá-los a colocar os políticos diante de suas responsabilidades."

De sua cama no hospital, de onde ainda não tem prazo para sair, Benjamin prepara um livro sobre os atentados e planeja dar conferências nas escolas belgas quando voltar a andar.

Também faz planos de acompanhar seu novo amigo muçulmano em uma viagem a Jerusalém, cidade sagrada para católicos, judeus e muçulmanos, que Elouafi sonha em conhecer.

"Plantarei uma árvore para ele, sua esposa e seus filhos em Israel", disse o judeu.


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

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