domingo, 15 de maio de 2016

Artigo - Por que alguns gays sentem-se desconfortáveis em meio a héteros?


Por: Ítalo Damasceno

“Gato escaldado tem medo de água fria”. Nunca entendi bem o significado desse dito popular, até porque nunca achei uma razão lógica para alguém escaldar um gato. Apesar disso, já vi vários gatos com medo de água fria, no caso, vários gays totalmente desconfortáveis quando estão em meio a héteros. Não dá para fugir da pergunta: quem os escaldou?

Pensei nesse assunto depois do relato de um amigo. Ele é próximo dos seus primos, que são héteros, e todos gozam de uma carinhosa liberdade. Um dia, esse amigo levou o namorado dele para conhecê-los. No final do encontro, o namorado estava em choque, pois achou os primos extremamente ofensivos e desrespeitosos com ele. O outro, que é da família, não conseguia ver nada que o tivesse ofendido. Quando o namorado citou as frases e expressões que o haviam incomodado, meu amigo retrucou:

– Mas eu falo essas mesmas frases, inclusive para você. Por que eu dizer não é ofensivo, mas eles sim? É porque eles são héteros?
– Sim, de certa forma, sim. É estranho ouvir um hétero fazer uma “brincadeira gay”.

Enquanto um argumentava que sempre parecia que eles estavam debochando, e não fazendo graça, o outro dizia que talvez a maldade estivesse nos olhos de quem via. Meu amigo disse que seus primos falavam aquilo porque ele havia dado liberdade para tal. Se o namorado não havia reparado, era porque ele também fazia piadas com a heterossexualidade dos outros. Só então seu namorado lhe contou algo que ele não sabia.

Ele nunca conviveu com um hétero tranquilo em relação a outras formas de orientações sexuais e de gênero, nunca esteve em um ambiente livre para a expressão da sua orientação sexual, somente em meio a outros gays. Por isso, praticamente, só andava em meios assim. E ainda, seus amigos sempre o advertiram para tomar cuidado quando estivesse próximo a héteros, pois em algum momento eles poderiam acabar estranhando algum comportamento e a noite ia acabar mal – para o gay do grupo. “Em terra de sapos, de cócoras com eles”.

Eu prestei muita atenção nessa história, porque, por uma circunstância do destino, meus amigos sempre foram numericamente mais héteros do que homos. Tenho poucos amigos gays, mas incontáveis amigos héteros e, acho que por sorte, nunca precisei enfrentar alguma situação difícil por esse motivo. Sempre nos respeitamos e fomos extremamente afetuosos. Ao mesmo tempo, esse meu comportamento, de vez em quando, foi visto como exótico.

Mas dá para culpar os gays por essa desconfiança? Anos e anos, e por que não dizer, séculos e séculos de repressão e violência por parte de uma maioria intolerante nos fizeram ter um instinto de sobrevivência mais aguçado, para dizer o mínimo. “Quem bate esquece, quem apanha lembra”. O que levava uma amiga a dizer que “bicha burra nasce morta"

Eu devo escapar à regra da convivência porque sou meio lesado e também porque uma das coisas que eu mais gosto em regras é a possibilidade de quebrá-las. Sem contar que as novas gerações parecem ter conseguido desenvolver uma proximidade mais tolerante, cada vez mais cedo.

No fim da noite relatada pelo meu amigo, ele e o namorado ficaram pensando sobre a relação com os héteros. Viver armado é assumir também uma postura de ataque. Não ficar ligado pode ser um vacilo que vai custar caro. Esta é uma questão ainda bastante complexa para se dizer que posição tomar, mas se questionar um pouco pode ser legal, afinal, como dizia a vovó, “o hábito não faz o monge”.


Fonte: Portal Metrópoles

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