domingo, 3 de abril de 2016

Artigo - O efeito Pugliesi - nós a criamos!


Por: Ícaro de Carvalho

Gabriela Pugliesi é um desses fenômenos modernos difíceis de se ignorar. Seguida por milhões de pessoas e criticada por tantas outras, representa um mercado que movimenta dezenas de bilhões de reais por ano, ao redor do mundo: a indústria da solidão.

Basta que você acesse o seu perfil no Instagram, rede social conhecida pelas fotos que exibem um estilo de vida perfeito, seja com roupas, comidas, viagens ou corpos, para que você perceba o tamanho da sua marca. Atualmente duas milhões e duzentas mil pessoas seguem os seus passos todos os dias, acompanhando uma rotina de treinos e quilos de fotos hedonistas, ambientadas em um cenário perfeito, onde cada centímetro da sua postura tende a valorizar a sua musculatura e silhueta esguia.

Números de uma indústria mais do que atual

Não é preciso ser muito esperto para perceber que aquilo ali é um imenso laboratório. Gabriela tenta, a todo momento, passar a ideia de que o perfil representa a sua vida; é como se ela acordasse, corresse alguns quilômetros e, de repente, oops!, tiraram uma foto minha sem querer!

“Welcome to my life” não foi posicionado – estrategicamente – logo após o seu nome sem qualquer motivo. A sobrevivência da sua marca depende da sua habilidade em passar a ideia de que todos aqueles resultados são possíveis. Aquele corpo, aquele namorado e aquele estilo de vida são apenas estão ao alcance de qualquer um. Todo o seu modelo de negócio está escorado na insistência de que qualquer pessoa pode chegar lá.


E por que nós nos importamos tanto com isso?

Há quase cem anos, o filósofo espanhol Ortega Y Gassett escreveu em sua obra mais famosa, a rebelião das massas: “As cidades estão cheias de gente. As casas cheias de inquilinos. Os hotéis cheios de hóspedes. Os trens cheios de viajantes. Os cafés cheios de consumidores. Os passeios cheios de transeuntes. As salas dos médicos famosos cheias de enfermos. Os espetáculos, desde que não sejam muito extemporâneos, cheios de expectadores. As praias cheias de banhistas. O que antes não era problema, começa a sê-lo de quase contínuo: encontrar lugar”.

O que José Ortega não teve tempo de testemunhar, porque morreu antes, é que o núcleo da sua observação – encontrar lugar – ultrapassou a matéria e contaminou o espírito. Se antes nos preocupávamos com o apartamento que iríamos alugar e com o banco vago do ônibus, presenciamos agora um exército de jovens que não enxergam qualquer motivo para estarem aqui.
Somos a primeira geração que ouviu, da boca dos nossos pais ou professores, que poderíamos fazer qualquer coisa. Que seríamos quem quiséssemos e que a vida se desenharia perfeita para cada um de nós. Nos venderam a ideia de que ocuparíamos – todos! – um filme de Hollywood.

E, de repente…


E, de repente, a vida real

Essa vai ficar ótima no Insta!


Nossos pais não nutriam a esperança, desde cedo, de que poderiam ser como o ator daquele filme. Sabiam que aquilo era fantasia – entretenimento – e que, quando as luzes acendessem, o mundo real estaria lá fora. Aos vinte e poucos já tinham filhos e responsabilidades de monte para se preocuparem com a quantidade de sódio do que estavam consumindo; em uma época onde todos os bolos eram feitos em casa e as festas ali mesmo no condomínio, não havia espaço para projetar em outras pessoas os ideias do que era felicidade.

A vida nos grandes centros pode ser muito dura. Um jovem de hoje suporta níveis de stress que, no início do século passado, só seriam encontrados dentro de manicômios. Mas não se engane em achar que são os ônibus lotados e os salários baixos que caracterizam a fuga da realidade do jovem dos dias de hoje. Se o fenômeno Pugliesi é algo tipicamente moderno, devemos encontrar na nossa sociedade de hoje os motivos para tamanho sucesso. De cara, posso listar os maiores:


A redução dos laços afetivos perenes

Quantos amigos você tem no Facebook? Quantos deles você conhece realmente? Qual é o nome e sobrenome dos seus vizinhos? Quantos familiares estavam na sua última ceia de natal?
Se há algo que caracteriza o homem moderno é a constante substituição de elementos verdadeiros por simulacros.

Hoje, vale mais à pena alimentar a rede social com uma praia bonita do que aproveitá-la; consumir toneladas de pornografia do que estar ao lado de uma mulher de verdade e passar horas jogando FIFA ao invés de bater uma pelada com os amigos.

Nunca estivemos rodeado de tantas pessoas e, ao mesmo tempo, tão sozinhos. E os efeitos dessa companhia artificial são devastadores para um cérebro acostumado há milhares de anos à realidade de carne e osso. Nos anos 50 pesquisadores estrangeiros pretendiam descobrir o que fazia as pessoas buscarem por estímulos surreais; e isso significa desde o uso de drogas de fuga ao consumo de pornografia (leia também o nosso artigo sobre o tema). O estudo, que ficou conhecido como ratland, descobriu algo surpreendente.

Para ler a história completa, basta clicar na imagem

Quando confinados em gaiolas pequenas e sem qualquer companhia, os ratos abusavam do consumo de drogas. Em ambientes grandes, com entretenimento e vida social, ao redor e em companhia de outros tantos camundongos, estes, simplesmente, deixavam de consumir as substâncias venenosas.

E isso nos faz concluir algo fundamental para o entendimento da cultura do estímulo constante: a solidão nos empurra para uma vida que não existe. Passamos a nos contentar com simulacros, abrindo mão da realidade que julgamos não ser tão interessante assim.

A origem dessa solidão

“Eu gosto mais de bicho do que de gente!” – é uma alegação cada vez mais comum.


Não dá para contornar a questão: a redução do tamanho das famílias é um dos fatores fundamentais para o crescimento desse fenômeno. E não é só isso: a ausência de filhos e a longa permanência com os pais contribuem para o atraso no desenvolvimento emocional e social do jovem dos dias de hoje. Carente de propósitos, ele se mantém – também – ausente de conquistas. E é o sabor da vitória que nos faz reconhecer o nosso próprio valor, nos amar e nos respeitar e, aonde há amor próprio, não há espaço para simulacros.


Agora, vamos direto ao ponto

Imagine um exército de jovens que ouviu a vida inteira que a vida é uma só e que é hora de aproveitá-la. Que assistiu, por centenas de vezes, em filmes e comerciais, que a hora é agora. Que já cansou de receber sermão dos pais, que dizem que filho só depois dos quarenta. Que não cometessem os mesmos erros que eles. Que é hora de estudar.
Somos a geração que passa até 50% da vida estudando. Entramos na escola aos quatro e saímos da nossa última pós graduação aos quarenta. Nossos pais, que conquistaram tudo com trabalho duro, de repente passaram a acreditar que nós não deveríamos passar por tudo isso. Somos uma geração que já leu sobre tudo, mas que não conhece quase nada.

E, quando não há pressa nem motivo para se avançar no ritmo da vida, o que nos resta? O tédio. Um estudante do ensino médio poderá estudar – entre a escola, a universidade e os cursos de pós graduação – por cerca de vinte anos antes de ter que pensar em trabalho. Sobra tempo e dinheiro para fazer – e ser! – o que ele quiser. Entretanto, por mais livre que ele possa achar que é, metade do seu dia passa em uma sala fria, ao lado de gente que ele não conhece, pisando em carpete cinza e usando sorine por causa do ar-condicionado.

Com o celular em mãos e a internet da empresa, eis que um mundo novo se abre…

Olhe, você também pode viver esse momento!


Essa foto resume todo o modelo de negócio de todas aquelas pessoas que sobrevivem da indústria da solidão. Aqui, perceba como eles foram “surpreendidos” pela câmera. Passam a ideia de que tudo é muito natural, o que de certo ponto é até bizarro, porque se percebe que foi tudo arquitetado milimetricamente; do ajuste de cores à postura e ao sorriso, é tudo arquitetado para parecer natural. O resultado? Algo extremamente artificial!

Distantes de conquistas reais, que envolvem tempo, trabalho – e, mais do que isso – responsabilidades, vamos atrás do que é mais fácil, imediato e nos retorna em prazer automático: um corpo bonito, bronze, viagens e uma vida inteira para ser livre como aquele comercial da coca-cola.

Bella Falconi, uma das mais famosas dessa indústria

Gabriela Pugliesi e todas as outras marcas dessa indústria vivem da sua eterna insatisfação e do desejo constante que você sente de se tornar também um deles!

Tá, mas quem mantém tudo isso?

O tamanho desse mercado


A indústria da saúde e do bem estar exibe hoje um mercado de muitos bilhões de reais. Somado a isso todo um bioma de relacionados: personal trainers, academias, alimentação, suplementação, médicos e esteticistas…todo um mercado que se alimenta da necessidade de auto-afirmação. E não há uma maneira melhor de vender tudo isso do que utilizando essas figuras como, ao mesmo tempo, marca e resultado daquilo que elas representam.

Quando uma dessas meninas faz uma propaganda sobre determinado suplemento, não é a empresa falando, é ela – e o seu corpo fantástico – gritando:
“Ei, é isso que me faz ter esse life-style; essas viagens, esse corpo e essa vida. Você não gostaria de ter isso também para você? Chega desse escritório!”.

Seja ela amada ou odiada, Gabriela Pugliesi, que é apenas uma representação de tantas outras dessa mesma indústria, se apresenta como a manifestação perfeita do tédio e da solidão do jovem moderno. A maneira com que acompanham cada passo, cada post e cada vídeo de vinte segundos explica por quais caminhos uma geração inteira está rumando. Com seus olhos voltados ao celular e sem muita coisa pelo que brigar, cada vez mais tornaremos ricos e famosos aqueles que venderem a ideia de que a vida pode sim ser um filme de romance norte americano.


Fonte: Portal O Indigesto

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