domingo, 27 de março de 2016

Ele voltou ao lugar onde apanhou e distribuiu flores


Foi por conta de um beijo na Praça 15, centro do Rio de Janeiro, que o paraense Carlos Vera Cruz, de 35 anos, apanhou. No local, acontecia uma festa e Carlos esperava voltar para casa com as melhores lembranças de uma noite animada. Acabou indo para o hospital por conta de uma fratura no cotovelo e escoriações por todo o corpo. Pela primeira vez, ele encarou a homofobia de frente.

“Eu e um paquera fomos abordados por dois caras grandes, bem-vestidos, durante um beijo. Eles partiram pra cima de nós e nos agrediram verbal e fisicamente. As pessoas vieram em nosso auxílio e eles fugiram. Fiquei com o braço imobilizado por um mês”, contou Carlos, ator, diretor e professor de teatro que frequenta a capital carioca por conta de um mestrado em artes cênicas.

Questionado sobre as consequências psicológicas da violência sofrida, ele não hesitou: “Essas eu transformei em arte”. Ainda com o braço enfaixado, o artista retornou ao local da agressão e propôs uma performance intitulada Te convidei pra dançar. “Eu abordava as pessoas na praça, contava sobre o ataque, e, em seguida, convidava-as a dançar. No final da dança, dava a elas uma rosa. Foi uma espécie de mecanismo de defesa do meu corpo-artista. Um dispositivo que foi ativado para lidar com a crueldade e materialidade da situação vivida”.

O gesto proposto pelo artista de Belém serviu também como denúncia: “Achei necessário comunicar o fato, a homofobia, de forma performática, intervindo no urbano, ali, onde o urbano interveio em mim”. Cada nuance do gesto agressivo que marcou Carlos foi respondida com uma força contrária. A intolerância dos agressores recebeu a mensagem de tolerância do agredido. A intransigência foi desmascarada pela afeição. A porrada foi deslegitimada pelas flores e pela dança.

De forma a propagar essas lições, a performance foi filmada e carrega um recado simples, mas ainda imprescindível em um país onde um homossexual aparece morto a cada 28 horas: “Homofobia mata, amor cura! Vamos amar!”.



Fonte: Blog Carmela Veloso de Beauvoir / Jornal Correio Braziliense

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