domingo, 13 de março de 2016

Artigo - Por que mulheres “viajando sozinhas” são um problema para o mundo


Por: Ana Freitas

O assassinato de duas turistas argentinas no litoral do Equador gerou um amplo debate sobre desigualdade de gênero e culpabilização da vítima na América Latina na última semana.

Notícias em jornais frisavam que as jovens “viajavam sozinhas” e mensagens em redes sociais destacavam que, por estarem “viajando sozinhas”, sabiam do risco que corriam. Um psiquiatra chegou a dizer ao site argentino Big Bang News que elas eram “vítimas facilitadoras”, porque teriam “mexido com fogo”.

Um texto que viralizou no Facebook diz: “As mochileiras assassinadas no Equador, para os meios de comunicação de massa, ‘viajavam sozinhas’. Eram duas mulheres, maiores de idade, viajando juntas. No entanto, ‘estavam sozinhas’. Sozinhas como? Falta o quê? Eram duas. Mas como nasceram mulheres, ser duas não é suficiente. Para não estarem ‘sozinhas’, lhes faltava alguma coisa. Adivinhe o quê…”

De acordo com os críticos, as jovens foram descritas como “viajando sozinhas”, mesmo estando em dupla, só porque não viajavam na companhia de um homem.

O episódio deu origem à campanha #ViajoSola (“#ViajoSozinha”), pelo direito de mulheres viajarem sozinhas sem serem culpadas (ou ameaçadas) por isso.

No Facebook, uma carta-manifesto escrita por uma estudante paraguaia teve mais de 600 mil compartilhamentos. Nela, a estudante faz a voz das duas jovens assassinadas e critica a culpabilização das vítimas. Leia um trecho:
“Mas pior que a morte foi a humilhação que veio depois. Do momento em que resgataram meu corpo inerte, ninguém se perguntou onde estava o filho da puta que acabou com meus sonhos, minhas esperanças, minha vida. Não, mas começaram a me pergunta coisas inúteis. A mim, imaginem, uma morta, que não pode falar nem se defender.
‘Que roupa vestia?’
‘Por que estava sozinha?’
‘Como uma mulher viaja sem companhia?’‘Se enfiou em um bairro perigoso. O que você esperava?’”

Marina Menegazzo, de 21 anos, e María José Coni, de 22, de Mendoza, na Argentina, desapareceram em Montañita, no Equador, no dia 22 de fevereiro. No dia 28 de fevereiro, o Ministro do Interior do país, José Serrano, anunciou que as duas foram encontradas mortas e que dois suspeitos pelo crime estavam detidos.

De acordo com os suspeitos, as jovens foram assassinadas a facadas depois de reagirem a uma tentativa de abuso sexual. Elas teriam, em algum momento, decidido ir a casa dos suspeitos por não terem dinheiro para continuar a viagem, pois teriam sido roubadas em um albergue dias antes.
Por que mulheres viajando sozinhas se sentem ameaçadas - e são culpadas por isso?

Para Juliana de Faria, do coletivo feminista Think Olga, olhar para duas mulheres como “sozinhas” faz parte de uma herança da época em que mulheres não podiam, de fato, andar na rua sem a companhia de um homem, pois eram malvistas se o fizessem.

“A mulher não é entendida como um ser que pode ocupar o espaço público. Afinal, demorou mesmo muito tempo para que ela de fato o ocupasse. Então, ainda somos vistas como seres domésticos - do lar, que cozinha e cuida dos filhos, que recebe o marido no fim do dia de trabalho. Esse olhar é equivocado, claro, mas muito real e muito presente”, explica.

A culpabilização da vítima, ou seja, o impulso de colocar a responsabilidade da violência na “falta de decoro” e de precaução da mulher que saiu de casa, vem, segundo ela, da necessidade de afirmação do poder do homem sobre a mulher quando ela desvia da conduta que ele considera ideal para seu papel social. “É daí que vem o ‘ela mereceu’, ‘ela sabia o que podia acontecer’”, completa.

É essa a mentalidade que torna viajar sozinha como mulher uma tarefa mais difícil. Letícia Bahia, da revista independente AzMina,escreveu que o assassinato das jovens revela o “desamparo da nossa condição de mulher”.

No mundo todo, são milhares os sites, blogs e fóruns em várias línguas dedicados a debater quais os destinos mais e menos recomendados para mulheres viajando sozinhas, além de fornecer dicas para que mulheres possam fazer viagens mais seguras.

Neste texto do Matador Network, um dos mais populares sites independentes de viagem do mundo, a colunista Aniko Villalba diz que ser uma mulher viajando sozinha é garantia de que as pessoas vão “ter pena de você”, de que “você é vista como mais vulnerável”. Ela diz também que uma mulher viajando sozinha também recebe muita atenção indesejada - e que algumas vezes, isso significa que é impossível relaxar.

A escritora Janice Waugh, autora do livro The Solo Traveler’s Handbook (O Manual do Viajante Solitário), acredita que as medidas de segurança que uma mulher viajando sozinha precisa tomar são as mesmas de alguém que viaja com companhia.

“Os quatro fundamentos são: com pessoas que você acabou de conhecer, permaneça em lugares públicos, seja proativa e escolha de quem você vai se aproximar se precisar de ajuda, não tome decisões precipitadas e seja rude se for necessário”, aconselha Waugh.


Fonte: Jornal Nexo / Think Olga

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