domingo, 13 de março de 2016

Artigo - A Democracia no Espelho: uma nota sobre a caricaturização da democracia e a vergonha como um saudável afeto político


Por: Márcia Tiburi*

A democracia, mais do que um regime de governo, é um valor social. Um valor tão importante que até os militares no período da ditadura usavam o termo. Cinismo? Não só. Os militares queriam manter as aparências porque sabiam que pegava mal falar o que realmente acontecia no Brasil naquela época.

Não é bom para o autoritarismo definir-se como o que ele realmente é. Por isso, todo regime, bem como todo cidadão, engajado no autoritarismo, toma emprestada a fachada da democracia. E faz isso porque o conceito de democracia é aberto como a própria coisa. O perigo de um conceito aberto é tornar-se manipulável.

É politicamente muito triste ver a palavra democracia usada por pessoas ou grupos autoritários.

A democracia, para além da fachada, é um processo de construção política. Ela não nasce pronta. É preciso desenvolvê-la no dia a dia, nas instituições, na sociedade, em cada ato pessoal, em cada momento impessoal. Seja na mesa da sala de jantar ou do bar, no trabalho, nas ruas, seja nas instâncias parlamentares, a democracia precisa ser antecipada como um valor por quem quer que ela exista na prática. Sabemos que praticamos a democracia quando escutamos o outro, quando defendemos os direitos individuais e fundamentais de todas as pessoas, quando defendemos o respeito à Constituição que está acima de todo autoritarismo possível.

O autoritarismo, por sua vez, é tão arcaico como é oportunista e se aproveita das fragilidades da democracia, que faz parte de sua natureza, para ganhar lugar.

Na base, democracia é um processo político de escuta. Para realizá-lo, precisamos estar abertos ao outro. Mas precisamos também poder discernir e avaliar se o que o outro fala faz sentido, se não é contraditório, se não acoberta interesses privados, se é dito em nome do sincero processo democrático ou da reprodução da fachada que acoberta o autoritarismo.


Fazer parecer democrático o que é autoritário e autoritário o que é democrático


Por isso, por ser processo, de tempos em tempos, a democracia é modificada pelas pessoas. Por que ela é um processo, ela não é fácil. Cada um tem que fazer a sua parte. Faz parte do processo que as pessoas não saibam como fazer o que deveria ser feito e que ajudem a produzir uma contradição curiosa: fazer parecer democrático o que é autoritário e autoritário o que é democrático. Seria importante, nesse momento, estudar, conversar com outras pessoas, esclarecer-se e, sobretudo, o que pode ser muito difícil, perceber as contradições nos discursos e nas práticas. Onde há manipulação, por exemplo, não pode haver verdadeira democracia.

A democracia como processo se caracteriza pelo diálogo, pela concretizacão dos direitos de cada um, pela abertura ao outro e pelo uso da sinceridade, não da delação, nem da manipulação. Tudo isso é muito ideal, não? Mas é esse ideal que se trata de tornar realidade, quando queremos desencadear um processo democrático em nossas vidas e na sociedade à qual nossas vidas estão intimamente ligadas.

Como exemplo de manipulação podemos citar o que os meios de comunicação fazem com a opinião pública. Sobretudo a televisão. Da publicidade aos noticiários, a televisão sempre se coloca naquele lugar religioso do caminho, da verdade e da vida. Ora, a televisão também faz parte da democracia. Isso é verdade, mas quem faz o jogo sujo, manipulando o sentimento da democracia, o desejo do povo, desmascara-se por meio de sua própria contradição.

Poderíamos também ter uma televisão democrática, mas para isso, as pessoas precisariam sair do encantamento no qual vivem como ratinhos levados pelos flautista de Hamelin…

Ocupemos a televisão. Antes que seja ainda mais tarde para a democracia.


Vergonha

O tipo de democracia que se desenvolve em um país serve de espelho à cada cidadão. Alguns olham para o espelho e, identificados, se sentem contemplados, outros sentem vergonha de sua imagem.

No Brasil começamos a sentir vergonha do que vemos ser feito em nome da democracia.

A aceitação das medidas e práticas autoritárias em nível legislativo, executivo ou judiciário que assistimos hoje, conspurca o Estado de Direito, mas essa conspurcação é a da própria sociedade que aceita o que lhe impõem seus líderes espectrais e heróis fabricados pelos detentores do poder econômico.

O que fazemos da democracia diz quem nós somos. Podemos fazer de nossa democracia o melhor modo de viver, ou podemos caricaturizá-la, deformá-la, transformá-la em um arremedo.

Podemos cancelá-la e usá-la como maquiagem como vem sendo feito.

Ou podemos olhar nesse espelho, pensar na verdade que mora na vergonha que estamos sentindo e mudar o rumo das coisas.

A mudança de rumo depende de cancelarmos o autoritarismo que cresce em família, esse laboratório da vida social e política. Depende de praticarmos como um ideal antecipado, a democracia no dia a dia, com os mais próximos ao nosso convívio.

A democracia é um valor social, existe em nome de todos, mas só se sustenta se for um valor pessoal, de cada um.


* Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004); “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero” (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante” (Record, 2010), “Olho de Vidro” (Record 2011), “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011) e Sociedade Fissurada (Record, 2013). Publicou também romances: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009), Era meu esse Rosto (Record, 2012). É autora ainda dos livros Diálogo/desenho, Diálogo/dança, Diálogo/Fotografia e Diálogo/Cinema (ed. SENAC-SP).

É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.


Fonte: Revista Cult

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