terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Artigo - Tá faltando empatia


Por: Ana Luíza Figueiredo*

Empatia: A capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação por ela vivenciada. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.

Há pouco tempo circulava na internet a polêmica com os kits oficiais de Star Wars: O Despertar da Força, nos quais a personagem Rey (protagonista do filme) não aparecia. O mesmo se deu para o Monopoly temático do filme.

Diante desse problema, várias pessoas – entre fãs e consumidores – começaram a fazer petições e espalhar a hashtag #WheresRey para que a personagem fosse incorporada à linha de produtos oficiais do filme.


Tal reação recebeu muito apoio, mas também houve um número considerável de pessoas (sobretudo homens) que diziam que não havia sentido em fazer tanto barulho por causa de um mero brinquedo.

Lembro de um episódio que aconteceu em um grupo de cinema do qual faço parte, no Facebook. Uma garota postou uma matéria sobre a ausência da protagonista nos kits de bonecos e perguntou “Qual é a desculpa agora?”. Afinal, não é a primeira vez que uma personagem feminina é excluída de alguma coisa.

O post recebeu uma enxurrada de comentários masculinos que:

1) Tentavam defender racionalmente a falta da boneca da Rey – alegando que meninos não brincariam com ela, então não havia motivo para fabricá-la.

2) Diziam que não era preciso ficar tão chateada por causa de brinquedos. Eram só brinquedos.

3) Chamavam a reclamação de mimimi e pediam para as meninas que comentavam irem lavar uma louça.

A reação dos rapazes já acende uma luzinha vermelha.

Quem disse que os meninos não brincariam com a boneca da Rey? Se não tem nenhuma boneca, como vão saber se eles a escolheriam ou não? E outra, quem falou que são só meninos que brincam com os bonecos de Star Wars?!

Aliás, quanto machismo há nesse pensamento e no fato de mandar uma mulher lavar louça só porque ela deu uma opinião (que te incomoda)?

É claro que eu comentei no post e uma das respostas que recebi foi:
Se fosse com a Barbie, você não estaria falando nada. Afinal, a Barbie não vem junto com o boneco do Ken. Cadê a representatividade masculina?

E na hora eu mentalmente respondi à pergunta: “Em todo lugar”.

Mas escrevi que eram coisas distintas porque, no caso da Barbie, a protagonista é a Barbie. Faz sentido esperar que ela seja a estrela de tudo que envolva a boneca. Assim como em O Despertar da Força, a personagem principal é a Rey. Não há explicação plausível para deixar um protagonista de fora de linha de produtos, a não ser que a justificativa para isso seja baseada em preconceito.

O post acabou excluído e no dia seguinte a moderadora do grupo postou um texto bem grande, no qual dizia que temas como machismo, racismo e homofobia, sempre que discutidos, traziam comentários preconceituosos e agressivos nas discussões. Mas que aqueles assuntos precisavam ser discutidos, no grupo e na vida. Então, a partir daquela data, qualquer um que tentasse diminuir os debates ou reclamações sobre representatividade, etc, seria excluído do grupo.

Já dá para imaginar que muita gente comentou que aquele post era uma palhaçada, geração mimimi, “não se pode mais fazer piada/ comentar nada hoje em dia”. Rodaram.

Mas aquela situação me deixou pensando:

Por que é tão difícil simplesmente ouvir a reclamação do outro, tentando entendê-la e, principalmente, respeitá-la? Por que essa urgência em reduzir qualquer discurso diferente do seu a frescurite aguda?

Bom, no fim das contas as fabricantes dos brinquedos admitiram que a exclusão de Rey de todos os kits e jogos do filme foi proposital. Segundo eles, “nenhum menino quer ganhar um produto com uma personagem feminina nele”. Foi o mesmo argumento usado pelos rapazes do grupo – ao qual faço as mesmas considerações.

Então concluímos que ainda existe muito sexismo dentro das empresas que lucrariam com a falta dele. Paradoxo não? O próprio mercado alimenta uma cultura que diminui o consumo dentro desse mercado. Enfim.


Mais recentemente, a lista de material de uma escola em São Luís – MA começou a circular pela internet, causando muita indignação.

Era uma lista que pedia que os pais comprassem brinquedos para seus filhos da pré-escola. Até aí tudo bem. Se não fosse um detalhe:

As sugestões para os meninos eram kit de bombeiro ou de médico. E as sugestões para as meninas eram jogo de panelas ou kit de cabeleireira.

Como era de se esperar, junto aos comentários de reprovação, vieram os comentários de “não sei pra que tanto drama por causa de simples brinquedos”.

Por último, tivemos o polêmico boneco-esponja na casa do BBB16. A esponja, no caso, era o afro do boneco.


Mais uma vez, revolta e indignação por um lado (majoritariamente composto por pessoas negras e/ou de cabelo cacheado/crespo) e olhos virados de outro (majoritariamente composto por pessoas brancas de cabelo liso/ondulado).

O principal argumento desse último grupo era:
É só uma esponja. Tanta revolta por causa de uma esponja?! Então tudo pode ser ofensivo agora, é só alguém cismar que é?

Não, meus queridos. “Não são só 20 centavos”, lembram? A revolta não gira em torno da esponja, nem é só por causa dela.

Não é só uma boneca. Ou um jogo de panelas. Ou um acessório que usa afro.

É o que eles representam, em que contexto estão inseridos.

Em uma sociedade machista, em que a mulher é constantemente reduzida ao papel secundário, norteada pela opinião masculina, o que significa não ter nenhuma boneca da Rey (mesmo ela sendo a protagonista do filme) só porque meninos, em tese, não a consumiriam?

Em uma sociedade patriarcal, num dos Estados mais desiguais do país, em que as tarefas domésticas e aspirações profissionais (ainda) são divididas por gênero, o que significa fazer as alunas brincarem apenas com jogos de panela enquanto os alunos podem sonhar em ser médicos? [quem mais lembrou dos rapazes que mandaram as garotas do post "irem lavar uma louça"?]

E em uma sociedade racista, onde ser negro significa ser considerado feio, menos capaz ou “não adequado”, na qual termos como “cabelo de bombril”, “cabelo ruim” e “cabelo pixaim” circulam em todos os ambientes e que usar afro é um ato de resistência e auto aceitação, o que significa ter uma esponja justamente no formato desse cabelo, usada para lavar pratos em um dos programas de maior audiência do país?

Para você, talvez nada. Você não passou por nada disso, não se identifica com esses problemas. Ou talvez não tenha percebido que a coisa era tão abrangente. Ou a tal coisa só não se te afete mesmo. Mas para as pessoas que se sentiram atingidas pelas polêmicas acima descritas, isso reflete (e origina) os preconceitos com os quais precisam lidar diariamente, sem trégua. Então, para elas, isso significa muita coisa. Muito mais do que você poderia supor.

É fácil dizer que não há nada demais em uma menina trans usar um vestido quando você é cis. É simples achar que as lutas LGBT por mais representatividade são exageradas quando você, por não ser uma pessoa LGBT, é representada em todas as mídias, espaços e leis. Também é fácil ignorar que existe uma exclusão estética quando é apenas o seu tipo de cabelo e a sua cor de pele que aparecem em todas as revistas de moda e beleza.

Tem um dizer do qual eu gosto muito:

“A dor do outro não é a minha dor. Justamente por isso, sou obrigado(a) a respeitá-la, e fazer todo o possível para entendê-la.”

Não adianta falar “mas eu não acho nada demais”. O mundo não é você, a opinião alheia não gira em torno do seu umbigo. Se ofendeu alguém, é porque havia motivos para que esse alguém se sentisse ofendido. Então o melhor a fazer é pedir desculpas, dizer que não foi a intenção e não repetir mais aquela piada ou comentário.

No fundo, é tão simples. Poupa tanto bate-boca, tanta dor de cabeça.

Recomendo.



* Ana Luíza Figueiredo é redatora publicitária que arranja tempo pra falar das coisas. Participa de seis antologias literárias e, em março de 2016, lança o livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole, pela Selo Off Flip.


Fonte: Blog Obvious

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