terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Artigo - Pais somem, mães ficam


Por: Walcyr Carrasco*

Conheci um homem de formação filosófica, escritor. Casou-se, teve dois filhos. Veio o divórcio. Pensão combinada. Pagou alguns meses e nunca mais. A mãe se virou e revirou para criar as crianças. Tentou receber várias vezes. Foi pior. O pai recebia os filhos no fim de semana e dizia:

– Vejam só, eu mal tenho o que comer. E sua mãe quer meu dinheiro.

A mãe conformou-se, o que lhe restava fazer? O pai, um poeta. Só não era sensível para pagar a pensão dos filhos. É incrível o número de histórias do gênero. Não falo de relações eventuais, em que o homem desaparece até por falta de um laço afetivo com a mulher. Mas de casais que se amam durante algum tempo. Vem a separação, some a pensão. Parece que o homem não sente a mesma responsabilidade da mãe. E a lei? Bem, uma das poucas situações em que alguém realmente é preso neste país é por falta de pagamento de pensão alimentícia. Adianta? Já vi acontecer dos dois lados. Uma vez, do pai. Um amigo não pagava a pensão da filha havia séculos. Vivia sem grana. Mas tinha o suficiente para suas próprias roupas de shopping, bons restaurantes, noitadas. Era um sujeito que vivia endividado. Se endividar pela filha, nunca. A ex reclamou. Chamou a polícia. Deu cadeia. O pai dele atualizou as pensões. Ele saiu. Não pagou de novo e acabou ficando por isso mesmo. Já acompanhei outro caso do ponto de vista da mulher. Botou o ex na prisão. Mesma coisa. Ele saiu e parou de pagar. E os filhos a acusam de prender o pai! Ela dá duro e sustenta a família, o que fazer? Há outra. É uma atriz famosa. Digo isso para mostrar que não depende de beleza, charme, nada! Casou-se três vezes. Um único deles dá cerca de 10% dos gastos do menino. Os outros dois, um de cada casamento, não recebem centavo. Nem visitas dos pais. É como se para os homens fosse mais fácil simplesmente deixar o filho. Pelo contrário, são raros os casos de mães que abrem mão das crianças. Será uma característica ancestral, masculina?

Um amigo me contou:

– Sou o único filho do meu pai. Mas ele casou com outra e criou os três dela. Para mim, nunca mandou dinheiro, nunca se interessou, nunca viu um boletim de escola.

O mesmo rapaz tem uma filha.

– Fiz questão de pagar até os exames médicos da mãe. Nós nunca moramos juntos, mas dou pensão, aconteça o que acontecer, não falto.

É um caso raro. Homem some, mulher fica.

Por incrível que pareça, os filhos da nova mulher muitas vezes se tornam mais importantes que os próprios. Acompanhei uma história em que o pai, milionário, casou-se com uma cabeleireira. Passou todos os bens para os filhos dela, deixando os seus sem sequer um apartamento. Suponho que no decorrer de tudo isso não faltaram brigas, desentendimentos. Mesmo assim. O casamento acaba, mas os filhos são para sempre. Com frequência, os homens se comportam como se filho fosse só um aditivo do casamento. Às vezes desaparecem por anos e só voltam a se relacionar quando as crianças estão criadas, se tornaram no mínimo adolescentes. E o pior: como cabe à mãe toda a tarefa de educar, dizer “não”, quando esse pai bonzinho reaparece, sem impor limites, sem restrições, não só reconquista facilmente o amor dos filhos, mas se apresenta como alguém “melhor” que a mãe. Um sujeito bom para se conviver. Claro. Ele fica com os fins de semana, quase férias, se tanto. A mãe com o dia a dia, com todas as dificuldades. E sempre tem explicações:

– Eu sumi porque estava num momento difícil.

– A minha nova mulher era muito complicada, sentia ciúmes de vocês, eu sei que errei, mas…

Ou o pior de tudo:

– A sua mãe é que complicava as coisas.

Ou seja: ele deu no pé, a mãe segurou as pontas. E depois a culpa é toda dela.

Uma professora divorciada, óbvio, ficou com os filhos. Sem receber pensão, teve até de vender sanduíches na porta da escola onde dava aulas, para ganhar um dinheirinho a mais. O pai dos meninos não sumiu, é verdade. Apesar de ser um executivo, já num segundo casamento, nunca dava dinheiro. Mas sempre visitava os filhos, passeava com eles. Um dia ela parou de brigar.

– Pelo menos é um bom pai, dá atenção aos meninos. Melhor isso do que nada.

Claro que não é justo. Mas era o que restava. A verdade é uma só. Quando um casal se separa, na maior parte das vezes, a mulher fica não só com as crianças, mas também com os encargos familiares. O homem voa. E com a maior facilidade cria uma nova vida, esquecendo que tem filhos para criar.


* Walcyr Carrasco é colunista da Revista Época, jornalista, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão


Fonte: Revista Época / Blog Temos que Falar sobre Isso

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