terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Artigo - O drama dos refugiados: sinceridades e hipocrisias


Por: Evanthia Balla*

A crise migratória atual não deveria surpreender a Europa. A gravidade da crise humanitária provocada pelos conflitos no Médio Oriente e África e os erros das políticas externas dos países ocidentais nestas regiões não podiam deixar de ter consequências graves para o mundo.

Desde os ataques terroristas em Nova York e Washington em 2001 e a consequente guerra no Afeganistão e no Iraque em 2003 um crescente número de refugiados entrou na União Europeia, principalmente via Grécia e Itália, as principais portas de entrada da UE, alterando significativamente a imagem das principais capitais europeias. De acordo com a Agência da ONU para Refugiados, cerca de um milhão de pessoas fugiram para a Europa em 2015, na maioria sírios, afegãos e eritreus.

Com o início da Primavera Árabe em 2011, mas sobretudo com a guerra na Líbia e depois na Síria, o fluxo de refugiados que tentou entrar na União por via marítima, em embarcações precárias e com condições sub-humanas, aumentou dramaticamente, originando tragédias sem precedentes no mar Mediterrâneo. De acordo com a Organização Internacional para as Migrações, mais de 20 mil pessoas morreram no mar nas últimas duas décadas.

Hoje, numa altura que o próprio continente europeu enfrenta a sua pior crise político-financeira, é impossível que a UE consiga acolher todos os imigrantes que tentam entrar diariamente no seu território, distribui-los pelos Estados–membros de forma justa e equitativa, integrá-los adequadamente, e oferecer-lhes domicílio, emprego e dignas condições de vida. Pondo a atual situação europeia em perspectiva, apenas na Grécia estão cerca de 1,38 milhões de pessoas no desemprego e cerca de 14% da população a viver na pobreza. Este mesmo país tem sido forçado a acolher diariamente cerca de 2.000 imigrantes, com toda a pressão socioecónomica que este êxodo de massas comanda no país de acolhimento.

O atual caos migratório tem dificultado o registo e controlo fronteiriço provocando uma maior desunião entre os Estados-membros da UE, e colocando em risco os próprios triunfos do projeto europeu, como é o caso da livre circulação de pessoas e as suas subjacentes vantagens económico-sociais.

O chefe do governo austríaco afirmou recentemente que a Frontex deve salvar as pessoas que fogem para a Grécia, mas depois deve reenviá-las para a Turquia. Por sua vez, a Alemanha, a Turquia e a Grécia pedem à NATO para vigiar o mar Egeu, impedindo o tráfico de pessoas entre a Turquia e a Grécia, pedido esse que foi aceite rapidamente pela NATO.

Contudo, e apesar dos vários esforços realizados a nível nacional, europeu e internacional, até agora nenhuma solução tem sido capaz de resolver eficazmente o problema da crise migratória europeia.

Na Síria, a estratégia do ocidente, movida por puros interesses económico-políticos, tem-se revelado desastrosa, limitando-se a apoiar os rebeldes com fornecimento de armas e treino profissional, realizar ataques aéreos dispersos – focados principalmente contra o ISIS, e promover iniciativas diplomáticas fracas e inconsequentes a favor da resolução da crise, ao mesmo tempo que revelam uma enorme inépcia e impotência perante a conduta agressiva da Rússia na região e as controversas movimentações do Irão.

A única solução para o drama atual passa por uma verdadeira alteração das politicas ocidentais face aos países de origem: esforços perseverantes e eficazes para acabar com a guerra, fomento do desenvolvimento económico e promoção de iniciativas concretas a favor da paz e da tolerância religiosa e étnica nestes países.

Resolver o problema dos refugiados não é apenas um ato de caridade, é sobretudo uma questão de defesa dos direitos humanos tanto dos refugiados como dos próprios cidadãos europeus. É uma questão de sinceridade e de coragem política.


* Evanthia Balla é Professora Universitária


Fonte: O Jornal Econômico - OJE (Portugal)

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