domingo, 10 de janeiro de 2016

Artigo - O que a cena de ciúme da Ivete nos diz sobre as nossas próprias relações


Por: Anna Haddad*

Essa semana, uma cena de ciúme da Ivete Sangalo viralizou e virou meme na web. Durante um show de fim de ano na praia de Guarajuba, Bahia, a cantora chamou a atenção do marido publicamente ao vê-lo conversando com uma moça no camarote. Falou, lá do palco:
Quem é essa aí, papai? Tá cheio de assunto, hein. Vou passar a mão na cara. Quem é essa daí? Conversando pra caralho. Manda ela subir aqui no palco para fazer essa conversinha de ouvido comigo".
O Twitter e o Facebook ficaram lotados de comentários de todos os tipos. Gente compondo paródia musical, falando sobre ciúme, traição, fama e insegurança. Críticas à Ivete de um lado, doses de empatia de outro.





Mas ao ver o vídeo e ler os posts nas redes só consegui pensar em uma coisa: não é só a Ivete. Nós todos estamos cultivando péssimas relações sem sequer nos darmos conta disso.


1. Relações que não nos impulsionam e não nos ajudam a ser verdadeiramente felizes

É difícil assumir, mas a maior parte das relações que estabelecemos não nos ajudam a ser felizes de verdade.

O exemplo mais óbvio é o de muitos casais, independentemente do formato da relação (monogâmica ou não monogâmica). É comum desenvolvermos ciúme, apego e querermos exercer controle sobre o nosso parceiro ou parceira. E podemos fazer isso de várias formas. A Ivete fez isso quando chamou a atenção do marido em público por estar conversando com uma outra mulher. Mas dá para cercear e restringir alguém de várias maneiras. Proibir de viajar com os amigos, desmotivar a aceitar uma proposta de trabalho em outra cidade, diminuir com pequenas críticas todos os dias ou manipular com palavras doces para que o outro se afaste daquele amigo que não gostamos.

Quando dizemos que amamos, dizemos também que queremos a felicidade do outro. Mas na maioria das vezes isso não é inteiramente verdade. Queremos a felicidade do outro de forma condicionada e oportuna. Queremos que o companheiro seja feliz, contanto que essa felicidade não confronte a nossa, não nos traga nenhum desconforto ou incômodo. Traduzindo, é mais ou menos assim:
"Quero que você seja feliz, amor, contanto que: perto de mim, longe daquele seu amigo Ricardo, sem trocar muita ideia com aquela colega de trabalho, a Joana, sem conversar com nenhuma ex e sem, de forma alguma, fazer aquela viagem dos seus sonhos para os Estados Unidos, de 5 meses."
E a lista de poréns poderia seguir eternamente.


2. Relações que aprisionam ao invés de libertar

É mais fácil contar para o amigo recente do teatro que você é homossexual do que para o amigo de anos e anos, que te conheceu no colégio. É mais acolhedor dizer para o colega do trabalho que você está pensando em mudar totalmente de carreira do que para a própria irmã. Quem nunca passou por isso?

Não importa se a relação é amorosa, familiar ou de amizade. É comum passarmos anos nos relacionando com pessoas que nos estreitam e aprisionam, de diversas maneiras. Nos restringem à caixinhas e nos mantêm parados ao invés de nos ajudar a evoluir, mudar. E fazemos o mesmo com elas também, de formas escancaradas ou mais sutis.

Fazemos isso frequentemente com quem conhecemos de longa data, irmãos, companheiros de anos, amigos de infância. É como se, de certa forma, congelássemos a pessoa no tempo junto com algumas das suas características - sem parar para pensar que ela amadurece o tempo todo, assim como nós.
"O Fabinho? Ah, aquele menino eu conheço há anos. Ele é lento pra resolver as coisas, mesmo." 
"Eu te conheço, Carol. Você é ansiosa demais, sempre foi." 
"Ele é igualzinho ao pai, teimoso e intolerante."
Deixamos de ver a pessoa inteira, os movimentos dela no mundo, as transformações diárias. Solidificamos o irmão que já não vemos mais tanto ou a amiga da época da faculdade, colocamos num determinado espaço, com uma certa "etiqueta". Gastamos pouco tempo em investigar de verdade, com perguntas curiosas e abertura, quem essa pessoa é agora, no presente. Para quem sofre o "congelamento", fica difícil realmente se expressar, contar novidades, descobertas, pontos de vista frescos.

Relações assim - se não terminam - seguem superficiais ou geram bastante sofrimento.


3. Relações de pouca escuta e troca genuína

É comum, na correria do dia a dia - cada um no seu quadrado, com sua vida - estarmos pouco disponíveis para as nossas relações. Tem que estar tudo agendado, combinado e articulado. O dia, o jantar, o horário do encontro. Encavalamos compromissos, vivemos sempre no celular. É raro estarmos com alguém, realmente presentes e interessados, dedicando aquele tempo junto para conversar, fazer perguntas genuínas, se abrir.

Vivemos encontros superficiais, de mais do mesmo. E ninguém está se beneficiando com isso, exceto o dono do restaurante.

Também, esquecemos que as pessoas ao nosso redor são a nossa maior fonte de conhecimento. Estabelecer relações de aprendizado e troca é extremamente satisfatório, aprofunda vínculos e nos impulsiona. Uma dica é parar sempre para pensar qual foi a última vez que você aprendeu algo com alguém a sua volta. Não importa se é um amigo, a vó ou o namorado. Se foi uma receita nova de pão, a história de um bairro de São Paulo, francês básico ou dicas de decoração para a casa nova. O importante é se conectar, aprender e ensinar.

E aí? Que tipo de relação você anda cultivando?


* Anna Haddad é advogada, escritora e feminista, fala sobre colaboração, educação e gênero


Fonte: Brasil Post

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