segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Racismo ostentação? Como operam os grupos que incitam ódio na internet


A investigação do Ministério Público de São Paulo sobre os ataques racistas à jornalista Maria Júlia Coutinho acabou revelando uma dinâmica até então desconhecida sobre como operam grupos por trás de crimes de ódio na internet.

À BBC Brasil, o promotor Christiano Jorge Santos, que conduz as investigações desde o início, disse que o principal trunfo da "Operação Tempo Fechado" foi identificar quem são e como se comportam os membros de grupos secretos que articulam comentários racistas ou homofóbicos no Facebook.

"A novidade é a confirmação que de que há grupos organizados. Não se trata de uma ação espontânea, que ganha volume em cadeia. São organizações criminosas com distribuição nacional, literalmente do Rio Grande do Sul ao Amazonas."


Até agora, 25 mandados de busca e apreensão foram realizados em oito Estados - Amazonas, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. A operação envolveu mais de 20 promotores de justiça ligados a grupos de combate ao crime organizado do MP, além de dezenas de policiais.

De acordo com Santos, os grupos atuam a partir de uma dinâmica de disputa e competição. Quanto maior for atenção midiática por conta dos ataques e maior for seu número de curtidas e compartilhamentos, maior é o prestígio entre os "rivais".

"Eles querem notoriedade, competem entre si e agem como gangues de pichadores, em que uma quer sempre aparecer mais do que a outra."

"Eles não sabem explicar o porquê do preconceito como estratégia de reconhecimento", prossegue o promotor. "Indagados, dizem apenas que usam 'humor negro'."

Aliciamento de menores

De acordo com Santos, que recebeu a reportagem em sua sala na 1ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, apenas três menores de idade foram identificados - dois deles confessaram participação nos ataques.

"Todas as atividades mais importantes, como o aliciamento de participantes e a coordenação dos grupos que fizeram os ataques, partiram de adultos", diz Santos.

Ele explica que os administradores dos grupos "pescam" novos membros em salas de batepapo e páginas com conotação racial. "Mesmo aquelas com tom aparentemente de brincadeira, como 'nega maluca'. Quem faz comentários racistas por ali é convidado pelos organizadores para participar de suas páginas. E ser convidado traz status."

Os suspeitos mapeados pelo Ministério Público são investigados por crimes de injúria qualificada, racismo, organização criminosa e, eventualmente, aliciamento de menores.

A investigação continua. "Puxamos o rabo do gato e veio um tigre", afirma. "Os primeiros suspeitos ouvidos entregaram muita gente."

"Há uma rotatividade muito alta. Os grupos aparecem, ganham notoriedade, e rapidamente são invadidos por infiltrados de grupos rivais, que os denunciam até que sejam apagados pelo Facebook", diz. "Aí tudo começa outra vez - mas os rastros para as investigações ficam."

Segundo o promotor, logo após os ataques à jornalista, os comentários dentro do grupo "pareciam comemoração de jogo de futebol".

"Detectamos até postagens dizendo que eles alavancaram a carreira da Maju, reivindicando para si a fama da apresentadora. É coisa de gente imatura, não parece o perfil de um neonazista, que quer fomentar ideias e reforçar uma ideologia", diz.

Ele ressalta, entretanto, que isso não minimiza o gesto dos grupos.

"A ação não deixa de ser perigosa, porque enceja o aumento de ideias preconceituosas e isso funciona como bola de neve. Os neonazistas, por investigações antigas nossas, costumam chamar pessoas com essa tendência para participar inclusive de homicídios ou agressões nas ruas."

'Pirâmide do racismo'

A reportagem indaga: "Além das figuras famosas, centenas ou milhares de negros anônimos são vítimas de racismo diariamente, online ou offline. Como a justiça tem encarado a questão?"

Segundo o promotor, o racismo não tem a atenção que merece em delegacias, promotorias e tribunais.

"Os procuradores, os juizes, os policiais, ainda não se sensibilizaram, a meu ver, da maneira adequada para o crime de racismo. Muitas vezes, dá-se mais atenção a delitos patrimoniais, sem violência, do que ao racismo. Em alguns países, entretanto, ele é considerado crime a humanidade."

Santos, que em 2004 conduziu uma investigação sobre racismo no extinto Orkut, questiona o próprio Ministério Público. "As cúpulas das instituições, falo especificamente da minha, o MP de São Paulo, têm que se estruturar melhor e não deixar que investigações como essa sejam ações isoladas, mas ações institucionalizadas", diz.

Ele prossegue: "Há uma pirâmide de base muito larga composta pelo número de crimes e um vértice muito estreito que é o número de condenações definitivas. São pouquíssimas no Brasil".

"No dia a dia, o racismo é praticado a cada minuto em cada bairro ou quarteirão. É um crime de pouca visibiliadde, que provoca ainda pouca sensibilização."

'Fakes' mapeáveis

Em julho deste ano, uma foto de Maju no perfil do Jornal Nacional foi alvo de dezenas de ofensas em julho deste ano.

"Macaca", "volta para a senzala", "fundo de frigideira", "tapete de mecânico" e "Estou vendendo essa escrava a R$ 200" foram alguns dos comentários - que geraram indignação entre internautas e colegas de emissora, que criaram a hashtag #SomosTodosMajuCoutinho em defesa da jornalista.

Além Maju, que apresenta a previsão do tempo no telejornal, as atrizes Taís Araújo e Sharon Menezes também foram alvo de ataques similares recentemente.

"Não sabemos se os ataques recentes a outras atrizes negras têm relação com esses grupos. É possível que sim, mas há chance de terem sido realizados por pessoas inspiradas na repercussão dos primeiros e da aparente impunidade aos autores."

"A investigação mostra que é possível chegar aos responsáveis, mesmo que escondidos atrás de fotos ou nomes falsos. Só um dos 12 investigados usava perfil verdadeiro. Temos métodos de investigação, provados neste caso."

Na quinta-feira, foram apreendidos computadores e smartphones nas casas e locais de trabalho dos 12 suspeitos de participar de ataques racistas à jornalista Maria Júlia Coutinho, em julho deste ano.

"A internet não é um oceano de impunidade", diz o promotor.


Fonte: BBC Brasil

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