segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Para 27% dos universitários abusar de garota bêbada não é violência


A divulgação dos resultados da pesquisa "Violência contra a mulher no ambiente universitário", realizada pelo Instituto Avon e pelo Data Popular, revela um cenário desolador nas faculdades. Segundo o levantamento, feito com homens e mulheres de universidades brasileiras, mostra que 27% dos homens entrevistados acreditam que se uma garota tiver bebido demais abusar dela não é uma forma de violência.

Além disso, aponta também que 14% dos homens e mulheres estudantes conhecem casos de mulheres estupradas. E mais: entre os homens, 13% disseram já terem cometido pelo menos um tipo de violência sexual, e 28% das mulheres já sofreram algum tipo de violência dessa natureza.

Foram ouvidos 1.823 estudantes de graduação e pós-graduação de todo o país: 1.091 são mulheres e 732, homens. As perguntas se referiam tanto a atividades dentro das salas de aula como em festas e confraternizações.

Entre as violências, foram listadas a agressão física, o estupro, o assédio sexual e a coerção – como ser obrigada a ingerir bebidas alcoólicas ou drogas, ou ser drogada sem consentimento. Também entraram na lista a desqualificação intelectual e a agressão moral ou psicológica, inclusive ser xingada por rejeitar uma investida e ser incluída em rankings de beleza ou atributos sexuais sem autorização.

A conclusão imediata é que algumas das violências são ainda vistas como consequências naturais do comportamento da mulher ou brincadeiras sem intenção de ofender ou intimidar. Não só 27% dos entrevistados acreditam que "abusar da garota se ela estiver alcoolizada" não é uma violência, como 35% disseram que também não é uma violência "coagir uma mulher a participar de atividades degradantes, como desfiles e leilões". E só piora: repassar fotos ou vídeos das colegas sem autorização delas não foi considerada uma forma de violência para 31% dos homens entrevistados.

Para as garotas, o resultado é que, diante disso, 11% das universitárias entrevistadas já sofreram uma tentativa de abuso quando estavam sob efeito de álcool, e 36% delas já deixaram de fazer alguma atividade na universidade. E mais: 42% afirmaram que já sentiram medo de sofrer algum tipo de violência de gênero no ambiente universitário, porque elas têm a percepção de que não apenas criminosos externos, mas também colegas, professores, parceiros do cotidiano, podem ser protagonistas de violências que vão da desqualificação intelectual ao assédio moral e sexual, chegando até ao estupro.

Esses dados todos, aterrorizantes, mostram que ainda há muito a fazer no caminho pelo respeito às mulheres. Para quem não entende a necessidade do feminismo, acho que fica bem claro. Enquanto jovens acreditarem que têm direito de abusar de uma mulher por ela estar bêbada, ou que coagir as colegas não é violência, continuaremos a viver nessa barbárie.

A pesquisa mostra que é URGENTE uma mudança de mentalidade, que se pare de jogar para cima do comportamento da mulher a culpa pelas agressões que sofre. Elas não podem ser privadas de usufruir da vida na universidade por medo de serem violentadas, expostas, exibidas em leilões.

Os homens precisam melhorar, e muito. Às meninas cabe denunciar todo tipo de abuso. Não dá mais para aceitar esse machismo que mata, exclui, estupra e ainda acha que a culpa é das garotas. Não custa lembrar: beber não é um crime. Estuprar sim.

70% das alunas já sofreram violências em faculdades

Quando os estupros na USP, os rankings sexuais, a violência nos trotes e o chamado revenge porn entre universitários foram denunciados no ano passado, não só um ciclo de silêncio foi quebrado, mas a cultura do estupro e a violência contra a mulher, práticas enraizadas na sociedade brasileira, foram expostas também no âmbito acadêmico.

Cerca de 67% das universitárias de todo o brasil afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência de gênero no ambiente da universidade.

Este, e outros dados que revelam uma situação alarmante, foram apresentados pela pesquisa inédita “Violência contra a mulher no ambiente universitário”, do Instituto Avon em parceria com o Data Popular, divulgada no Fórum Fale Sem Medo nesta quinta-feira (3).

O levantamento ouviu 1.823 universitários das cinco regiões do País. Das entrevistadas, 67% já sofreram algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral ou física) no ambiente universitário.

Entre os homens, 38% dos estudantes admitiram já ter praticado pessoalmente de algum tipo de violência contra mulheres em espaços acadêmicos.

"Existe um tabu muito grande e uma falta de consciência sobre o que é violência. A Lei Maria da Penha veio para classificar o que é violência contra a mulher, mas existem práticas que são extremamente violentas e não são categorizadas. Por isso, não são consideradas violência. A pesquisa vem para desmistificar e expor uma situação alarmante", afirma Alessandra Ginante, presidente do Conselho do Instituto Avon.

Para Renato Meirelles, presidente do Data Popular, que realizou a pesquisa a pedido do Instituto, os dados não só categorizam e expõe atitudes machistas e opressoras dentro das universidades, mas "quebram estigmas".

“A violência contra a mulher não existe só nas periferias, entre as pessoas de baixa renda, como grande parte das pessoas ainda imagina. A pesquisa veio para quebrar este estigma. Quando você pesquisa a universidade, que é o centro da formação da sociedade brasileira, e a gente vê que atitudes extremamente machistas estão muito presentes nesses ambientes, você precisa ir mais fundo e entender que a raiz do problema é muito mais complicada do que imaginamos”, disse Meirelles.

A pesquisa mostra que o medo é direcionador de muitas das atitudes no ambiente universitário - já que, traz a percepção de que não só colegas estão entre os agressores, mas também professores podem ser protagonistas de violências que vão desde a desqualificação intelectual ao assédio moral e sexual, chegando até ao estupro.

"Não são só os alunos. Um professor me trazia presentinhos toda aula e começou a mandar mensagem pelo celular. No dia da prova, ele sentou do meu lado e meu deu a prova mais fácil, fez de tudo pra eu entender que aquilo era um favor. Tipo... Que ele ia cobrar"
(Depoimento de uma das entrevistadas na pesquisa).

"Esse é um tipo de violência muito 'invisibilizada'. E as pessoas tendem a acreditar que ela é uma lenda urbana, ou como dizem, “mimimi” de universitária. Os índices vêm para identificar que não é assim, que essa violência está aí, que ela é real; que ela é física, sexual, mas ela é também psicológica e limita o potencial dessas meninas", afirma Silvia Chakian, promotora de Justiça e Coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (GEVID).

Segundo Chakian, a pesquisa, além de dar nomes às violências cometidas e trazer dados impressionantes, é importante porque norteia ações do Ministério Público.

"A gente espera a pesquisa do Instituto todo ano por que ela norteia as nossas ações estratégicas ao longo do próximo ano. E isso é muito significativo", disse.

A pesquisa também mostrou que situações de violência sexual como ter o corpo tocado sem consentimento, sofrer tentativa de abuso por estar sob efeito de álcool ou droga, ser forçada a beijar outro aluno ou ser coagida a ter relação sexual sem consentimento foram sofridas por 28% das entrevistadas.

Os casos frequentes fizeram com que 42% das alunas sentissem medo da violência nos ambientes universitários e 36% delas já deixaram de fazer alguma atividade acadêmica por isso.

49% das alunas já foram desqualificadas intelectualmente no ambiente universitário por serem mulheres, com piadas ou sátiras de gênero.

E, embora dois terços das alunas sofreram violência, 63% não reagiram. A maioria delas, por medo de ser exposta (cerca de 61%).

Das que denunciaram, um terço sofreu represálias, como ser hostilizada, ficar isolada ou ser exposta na universidade

A pesquisa também mostra que a percepção do que é violência contra a mulher é de fato muito restrito entre os universitários.

Espontaneamente, apenas 10% das alunas admitem ter sofrido violência. Mas quando apresentadas aos comportamentos listados por especialistas como violência contra a mulher, esse número sobe expressivamente para 67%. Entre os rapazes, vai de 2% para 38%.

Porém, entre os entrevistados, 64% dos homens e 78% das mulheres concordam que o tema violência contra a mulher deveria ser incluído nas aulas.

Eles acreditam também que a faculdade deveria criar meios de punir os responsáveis por cometer violência contra mulheres na instituição: 88% dos alunos e 95% das alunas compartilham desta opinião.


Fonte: Jornal Meio Norte / Brasil Post

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes