segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Artigo - Instituto Manassés: exploração e preconceito em nome de Jesus


Por: Vlamir Duarte*

“Algum abençoado paga minha passagem ?”

Assim começa a saga diária de jovens que, aos berros, pregam dentro de ônibus, contando sua libertação das drogas por obra do Senhor Jesus. São os ‘Manassés’ em ação, usando o transporte público como púlpito e outras coisinhas mais…

A Instituição Social Manassés é, em tese, uma comunidade terapêutica para reabilitação de jovens dependentes químicos. A internação nestas comunidades é voluntária, mas o regime residencial é custeado pelo interno: paga-se para ter a glória da libertação das drogas.

O presidente da Federação Norte e Nordeste das Comunidades Terapêuticas (Fennoct), Célio Luiz Barbosa, conta que as comunidades que iniciaram este tipo de trabalho surgiram há cerca de três anos e ganharam grandes proporções. “Isso não pode ser chamado nem de comunidade terapêutica, está mais para comércio. Comunidade terapêutica não explora pacientes em nome de uma recuperação”, declara.

Colocar dependentes químicos na rua representa, no mínimo, grande risco para o tratamento e, no máximo, exploração: os ‘internos’ em instituições como a Manassés precisam atingir meta de venda de 200 kits por dia, pelo menos. Os pastores defensores desta prática alegam que não há apoio governamental para a manutenção das casas sem que seus ‘internos’ precisem ir às ruas. Amém ?

Uma alternativa a ser glorificada de pé pela sociedade seria estas instituições arranjando empregos para seus residentes, onde eles trabalhariam para si mesmos e não para as instituições. Mas o método adotado por estas instituições funciona da seguinte maneira: os residentes são enviados para sedes longe de onde são originados, por exemplo, os residentes de Teresina são dependentes químicos vindos de Belém, São Luis, Fortaleza, entre outras. O tratamento é feito em duas etapas que duram nove meses. Na primeira etapa, acontece a desintoxicação onde os residentes realizam atividades de laborterapia, participam de cultos, reuniões, palestras, dinâmicas em grupos e individuais, e sem o uso de medicamentos.

A segunda fase tem como intuito a reintegração social, onde os residentes participam de atividades de divulgação dos informativos, ou seja, vão para o transporte público vender pequenos produtos como canetas e chaveiros, para a manutenção da Instituição e replicação da doutrina evangélica a que se submetem.

Em 2013, dois casos de jovens residentes no Instituto Manassés da capital alagoana deram o alerta de que algo errado acontecia nos bastidores da instituição. No primeiro caso, um homem de 29 anos foi à polícia para denunciar que no local não havia acompanhamento médico e que, além de ser obrigado a vender canetas para manter a instituição, o tratamento é feito somente “através da fé”, sem nenhum acompanhamento médico. Ele havia sido expulso da Instituição após recusar-se a trabalhar por estar com o braço machucado e precisar de repouso. Sem ter para onde ir, recorreu à polícia.

Após ser procurado pela polícia, um representante da instituição esteve na delegacia e pagou a passagem de volta do jovem até Pernambuco. “Ele se mostrou uma pessoa totalmente sem equilíbrio. Alguém que trabalha com pessoas não pode ser rude, pelo contrário, precisa acolher”, declarou, na época do fato, a delegada Maria Aparecida, titular do 6º DP do bairro da Jatiúca.

O segundo caso foi de um paraibano que foi para Alagoas através da instituição para fazer o tratamento. O paraibano alega que ele e a família assinaram um contrato para o início do tratamento, acordando que a família paga a passagem para o estado que há vagas para o tratamento e uma taxa no valor de R$ 400 para a manutenção dos primeiros 15 dias na instituição.

“No início ele (representante da Manassés) disse que minha mãe só pagaria a passagem. Depois eles começaram a pedir mais dinheiro para várias taxas. Desde que cheguei, só tive um tratamento com dentista. Eles colocam a gente nas ruas para vender e temos que bater metas. Preciso de mais ajuda para sair do vício”, disse o rapaz na época.

Este impasse só foi solucionado quando o supervisor da instituição que fica no Recife, André Araújo, foi até Maceió. E eis a resposta de Araújo à delegada:

“Ele é um vagabundo e já fez isso na semana passada. Nós demos uma segunda chance, ligamos para a família, mas ele não quis se recuperar. Ele gastou R$ 100 com drogas, esse dinheiro é da instituição. Vim disposto a resolver o problema e o que a senhora [delegada] quiser que eu faça, vou fazer”, frisou o supervisor.

Se estes dois casos não são suficientes para ilustrar a falta de assistência e o despreparo da instituição para com seus residentes, só Jesus na causa ! …ou, melhor:

O cunho evangélico da falácia e chantagem emocional esconde um marketing apelativo. Agumentum ad passiones, sensibilizar para induz a “contribuir” com a nobre causa. Quando contrariados, apelam para oArgumentum ad baculum, apelo à consequência e ao medo: “É muito fácil falar mal de alguém que tem Jesus no peito, mas será que vocês falariam mal de mim há alguns meses, quando eu era viciado em crack?”. Dá para ver aí a eficácia do tratamento dessa instituição.

A reclamação de que a Manassés não recebe quaisquer auxílios governamentais também não se justifica, visto que nosso Estado é laico e não tem obrigação de auxiliar empresas e organizações privadas.

A intenção de recuperar pessoas do vício é boa, mas a execução da obra demonstra que há má fé. Sem a ajuda de profissionais da saúde e psicólogos, expõem-se jovens à lavagem cerebral religiosa profunda, o que é tão danoso quanto as drogas.

Saliente-se, contudo, que há separação inequívoca entre evangélicos de fato e estas seitas/instituições que se apropriam de ensinamentos crísticos para obter lucro.

O Relatório da 4ª Inspeção Nacional de Direitos Humanos: locais de internação para usuários de drogas, de 2011, aponta falhas relevantes no método do Instituto Manassés:
  • O interno que tiver problemas de saúde (sarna, tuberculose, DST/Aids, sofrimento ou transtorno psíquico, deficiências, hipertensão, diabetes ou outros) é desligado da instituição.
  • Internos homossexuais são evitados, mas, quando aceitos, recebem um trabalho para alterar sua orientação sexual.
  • Não é permitida a visita íntima, e a abstinência sexual é estimulada por motivos religiosos. O interno que mantiver atividade sexual é desligado da instituição.
  • Adota-se o deslocamento do interno para outro estado como critério de cuidado.
  • Há utilização de mão de obra não remunerada dos internos.
  • Manutenção não voluntária (cárcere privado) por desobediência à disciplina.
Se tudo isto exposto ainda não for capaz de sensibilizar a opinião pública e os órgãos competentes a tomarem as medidas cabíveis, comecem a orar para que o Senhor Jesus venha realmente em socorro destas pessoas que acreditam no trabalho idôneo de uma instituição criminosa.


* Vlamir Duarte é Graduando em Rádio & TV, natural de Bananeiras, apaixonado por artes, fotografia e formas de instigar o pensamento. No Portal Livre iniciei minha experiência profissional como redator, tendo depois exercido o cargo de chefe de reportagem e colunista. Escrever sempre foi meu hobby, contestar a melhor maneira de aprender a lutar por uma imprensa livre e isenta.


Fonte: Jornal A Página

1 comentários:

Sürwickwyyder disse...

Esse pessoal da Manassés são agressivos nos coletivos, agem as vezes com 3 integrantes até simulando como se fossem roubar o ônibus, e coagem as pessoas e até assediam mulheres. Eles também marcam as pessoas que não querem dar como eu. Enfim, são intolerantes. Eles são viciados na ativa pq vi um deles se drogando no centro do Recife.

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