segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Artigo - 5 Situações Idênticas que Geram Elogios a Homens e Críticas a Mulheres


Por: Lara Vascouto*

Ser mulher em um mundo machista significa muitas vezes ser ridicularizada, ignorada, violentada ou até morta por fazer coisas que homens são elogiados por fazer. Oh sim, eu sei que homens também sofrem, eventualmente, com determinadas expectativas que recaem somente sobre eles. Você provavelmente já está fazendo uma lista lá nos comentários: homem não pode chorar, homem tem que ser forte, homem não pode se preocupar demais com a aparência, homem tem que ser másculo, homem tem que ‘prover’, etc, etc, etc…

Mas antes que você poste essa lista, é bom que se lembre de algo muito importante: praticamente todas essas expectativas para homens existem como um contraponto em relação a mulheres – mulheres são frágeis / homens são fortes; mulheres são delicadas / homens são másculos, etc – de modo a manter o esquema de homens dominantes e mulheres submissas. Elas são resultado, portanto, de uma cultura machista que promove a inferiorização da mulher

Além disso, dificilmente um homem corre o risco de ser violentado, estuprado ou morto por não cumprir essas expectativas. E se corre – como no caso da violência contra homens afeminados, por exemplo – isso costuma ocorrer justamente porque a sociedade é machista e misógina e não suporta a ideia de que um homem acidentalmente se assemelhe ou queira se assemelhar a uma mulher.

Bem, agora que já tiramos isso do caminho, podemos seguir para exemplos práticos em que homens e mulheres são tratados de forma complemente diferente por fazerem as mesmas coisas. Exemplos como.


Homens são românticos, mulheres são patéticas

Se um homem se diz apaixonado e persegue ou importuna uma mulher, ele está só sendo persistente ou romântico. Se uma mulher faz isso, ela é patética ou uma stalker maníaca. Essa ideia se traduz com especial frequência em romances hollywoodianos, em que dezenas de mocinhos que perseguem, espionam, assediam ou até ameaçam se matar para conseguir a mocinha são tratados como grandes galãs e heróis românticos.


Homens são garanhões, mulheres são vadias

Essa é clássica. O filho é endeusado por trazer várias namoradas para casa, já a filha traz desonra e vergonha pra família se carrega uma camisinha na bolsa.

Essa é uma situação de dois pesos, duas medidas especialmente complicada, pois a restrição moral da sexualidade de mulheres torna aceitável a justificativa “ela estava pedindo” – uma surra, um estupro, um assédio, etc. A dominação sobre elas, nesse caso, se dá tanto pela restrição da sexualidade (que sempre vai variar em intensidade para poder justificar comportamentos criminosos), como pela ameaça constante do “castigo” se ela não se adequar.


Homens mais velhos são charmosos, mulheres mais velhas são invisíveis

Quando um homem envelhece, ele se torna “distinto” ou “charmoso”. Já quando mulheres envelhecem, elas se tornam invisíveis – a não ser que conservem características de “mulheres jovens”. Não é a toa que tudo o que a mídia tem a falar sobre celebridades mais velhas são coisas como “Fulaninha completa 50 anos, mas ainda exibe corpão!”.

Hollywood, aliás, (sempre Hollywood!) é um bom termômetro do quanto a sociedade não aceita/gosta quando mulheres envelhecem. Quantas vezes não nos deparamos com mães que poderiam ser par românticos de seus próprios filhos no cinema?


Homens são autênticos, mulheres são grosseiras

Da mesma forma, se homens são assertivos e francos, eles são objetivos, eficientes, confiantes. Se mulheres são assertivas e francas, são agressivas, mandonas, metidas. Vou contar algo de minha vida para ilustrar esse item. Três coisas sobre mim: sou introvertida, tenho uma expressão naturalmente séria e tenho dificuldade para fingir quando não estou a vontade. Meu marido, por outro lado, é como eu, só que mil vezes pior, porque ele não tem necessidade nenhuma, nem faz esforço nenhum para agradar ninguém. Bem, eu, sendo do jeito que sou, passei boa parte da minha vida ouvindo que eu sou “metida”, “arrogante”, “grosseira”. Por esse motivo, hoje em dia faço o maior esforço para me adequar. Já o meu marido? Ah, é o jeito dele, né? Ele é autêntico, seguro de si! Na pior das hipóteses, é visto como um excêntrico, ou mesmo misterioso.

Saindo levemente do tópico, penso que pode entrar nesse item também as diferenças de tratamento entre mulheres e homens que não cuidam do corpo/aparência. A única exigência que se faz de homens em relação a isso é que se mantenham limpos. Já de mulheres exige-se uma rotina constante de cuidados com a pele, cabelos, depilação, sobrancelhas, unhas, rugas, etc, etc, etc, para não serem chamadas de “relaxadas”.


Homens ‘submissos’ estão ‘na coleira’, mulheres submissas são boas namoradas/esposas

Parece que esse caso é o inverso – com mulheres recebendo um elogio, enquanto homens são criticados – mas claro que não é. Basicamente, se mulheres agem como capacho, assumindo todas as expectativas que ditam que ela deve servir e obedecer, todo mundo bate palmas. “Isso que é a mulher!”. “Não fazem mais mulheres como essa!”. “Que mulher exemplar!”.

Agora, se homens assumem esse papel cuidadosamente reservado para mulheres, ele está “na coleira”, foi castrado, emasculado. Basicamente, não é mais homem. E assim como elogiar mulheres submissas funciona como um reforço positivo para mantê-las na linha, ridicularizar homens aparentemente nessa posição funciona como uma punição para fazê-los sair rapidinho dessa posição.


* Lara Vascouto é Internacionalista, ex-Googler e fanática por ler e escrever textos bem-humorados. Optou por ser pobre e feliz na praia ao invés de rica e triste em São Paulo. Você encontra os textos da Lara também na OBVIOUS, Portal Ano Zero, Lugar de Mulher, CONTI Outra Revista Lampião e Revista Curió.


Fonte: Blog Nó de Oito

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