domingo, 8 de novembro de 2015

Mulheres têm partes do corpo mutiladas por ex-companheiros


A catarinense Maria de Fátima, 49, não respira pelo nariz, não vê e não sorri. A paraense Kelly, 20, mal ouve. A gaúcha Gisele, 22, está sem andar. A alagoana Jane, 31, quase não consegue comer ou escovar os dentes sozinha.

Essas brasileiras estão unidas por uma tragédia em comum: tiveram decepados mãos, pés, dedos, seios ou orelhas, a pele rasgada por facão ou o rosto desfigurado por namorados e ex-maridos.
Os castigos extremos no Brasil, que remetem a ataques registrados na Índia, no Afeganistão e em países do Oriente Médio, são, segundo especialistas, tentativas simbólicas de punição à mulher que contrariou o homem.
Essas agressões brutais ocorrem, em geral, quando a vítima decide se separar, afirma Marisa Sanematsu, uma das fundadoras do Instituto Patrícia Galvão, ONG de defesa da mulher no Brasil.

"Não é um castigo específico ao que ela fez, mas ao que não fez: não se submeteu, não obedeceu. E o homem que domina não suporta ser contrariado", disse. Para ela, a raiz de toda a violência contra a mulher está nas relações desiguais entre os sexos.

Enquanto o ácido no rosto visa desfigurar a mulher e "inutilizar" a companheira para outra relação amorosa, cortar a mão, para Marisa, tem como objetivo acabar com a independência dela.
Camila Cabral, 24, não tem dúvidas de que a raiva por ter sido abandonado e o ciúme foram as motivações para o padrasto Lauri Nery jogar ácido no rosto da mãe dela, Maria de Fátima Cecílio, 49, em Joinville (SC), em janeiro.
Em dezembro do ano passado, Maria pediu a separação. "Ao se despedir, ele disse a ela: 'Fica tranquila que você nunca mais vai me ver nem sentir meu cheiro'. Ali ele já planejava se vingar", conta Camila. O padrasto foi condenado a 22 anos de prisão pelo crime.
O ácido fechou as narinas de Maria, que hoje respira por uma abertura no pescoço. Ela fala pouco e come com dificuldade, já que os lábios ficaram deformados. Perdeu um olho e aguarda um transplante de córnea do outro.
Em agosto, na cidade de Óbidos (PA), Kelly dos Santos, 20, teve as orelhas arrancadas, quase perdeu o nariz e ficou com cicatrizes no rosto. Antes, o marido lhe deu uma pancada na cabeça que a deixou desacordada. Foragido, André Medeiros justificou o ato em uma carta: para ele, Kelly o havia traído.
No mesmo mês, Gisele Santos, 22, teve as duas mãos decepadas e os pés feridos pelo companheiro em São Leopoldo (RS). Dez dias depois, a 127 km dali, na cidade de Venâncio Aires, uma jovem de 15 anos perdeu uma mão em um ataque do namorado.

CULPA APÓS A MORTE
Professora de Direito Penal da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Marta Machado conduziu uma pesquisa que analisou 34 casos de feminicídio (morte de mulheres) praticado pelos maridos. Há casos de corpos desfigurados, com mutilações na genitália.
Além da conclusão de que polícia e Justiça pouco ou nada fizeram para proteger mulheres que vinham sendo agredidas, a docente observou que, no momento do júri, elas voltavam a ser "atacadas" depois de mortas.

Se a mulher era considerada uma boa mãe de família, diz Machado, merecia a proteção da Justiça. O acusado, visto como um monstro, recebia punição severa. Mas, se ela era descrita como dona de moral questionável ou de sexualidade exacerbada, o marido "trabalhador apenas perdeu a cabeça", o que atenuava a punição final.

"A Justiça trabalha para construir esse estereótipo, de como era a conduta da mulher morta, e por vezes coloca a culpa nela", diz Marta.
O ciúme sempre esteve presente na vida de Jane Palmeira de Lima, 31, que mora em Hortolândia (109 km de São Paulo). "No começo tinha umas brigas, uns tapas, coisas de qualquer casal."
José da Silva Filho tem esquizofrenia. Há um ano, para desgosto de Jane, decidiu parar de tomar remédios controlados e voltou a beber. Em dezembro de 2014, inesperadamente, ele a atacou com um facão, cortando dedos e retalhando seu braço. Até hoje, ela vai ao hospital todos os dias cuidar dos curativos.
Jane, que era manicure, sonha em poder usar as mãos para voltar a trabalhar. "Não tenho raiva, mas quero ele bem longe de mim. Viver junto, nunca mais." José da Silva Filho está preso, mas ainda aguarda o julgamento.
Em alguns casos, a defesa do criminoso alega um histórico de doença mental para justificar a violência, mas, segundo o médico Marcelo Feijó de Mello, da Associação Brasileira de Psiquiatria, há outros fatores envolvidos, como impulsividade, tipo de personalidade e as noções de Justiça e respeito pelo outro.


Fonte: Folha de São Paulo

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