domingo, 1 de novembro de 2015

Campanha contra violência sexual conquista a internet


... Então elas resolveram contar seus mais íntimos e dolorosos segredos. Desde a semana passada, meninas e mulheres lotam as redes sociais com relatos de assédios e abusos que sofreram nos ônibus, nas ruas e em casa. Em menos de dez dias, a hastag #primeiroassedio teve 82 mil citações no Twitter e no Facebook. Não são textos fáceis de ler.

Cada palavra carrega a memória de uma humilhação que ficou engasgada no passado. Ao escrever sobre a violência experimentada, as autoras tentam aliviar o sofrimento, compartilhando experiências e “acordando” os leitores para o tema.

Muitos dos relatos estão em uma página virtual criada por uma carioca de apenas 17 anos, moradora de Campo Grande, que dos 11 aos 13 foi abusada pelo homem que jurava lhe proteger. “Ele é meu padrasto. Moro até hoje com ele. É horrível. Tenho nojo dele”, conta a adolescente que sonha em ser médica. Ela vibrou quando abriu a prova do Enem e viu que o tema da redação tratava de algo que ela conhece na pele – a violência contra a mulher.

“Meu padrasto não me bate, mas o que ele fez comigo é bem pior”, compara a menina, sem ódio na voz, mas com coragem para recordar a brutalidade que experimentou antes mesmo de ficar moça. “A primeira vez, ele me abusou enquanto eu dormia entre ele e minha mãe. Ela não acordou. Eu fiquei calada e com muito medo”, lembra a menina, que sofreu crises depresssivas e jamais conseguiu apoio materno. “Amo minha mãe. Eu contei, e ela não acreditou. Nunca fui à polícia para não estragar minha família. Minha mãe gosta muito dele”, recorda.

O drama da menina de Campo Grande está nos extremos de uma estatística dramática. Pesquisa feita com 2.224 mulheres, com idade entre 14 e 24 anos, moradoras de 370 cidades brasileiras, revela que 94% já foram assediadas verbalmente, e 77% sofreram assédio físico.

Mais assombroso do que o percentual é a idade média das vítimas: nove anos, segundos dados da ONG ÉNóis Inteligência Jovem e do Instituto Patrícia Galvão, responsáveis pelo estudo. Na prática significa que quase toda brasileira, ao menos uma vez na vida, já foi agredida com frases grosseiras e atos que variam desde encoxadas no transporte público até passadas de mão no meio da rua.

“Encoxada é violência corriqueira para toda mulher no Rio de Janeiro. Ontem mesmo eu estava no ônibus e um tarado começou a roçar o pênis em mim”, conta Júlia Rezende Túribio Dantas, 21 anos, estudante de Direito da PUC que cansou de aturar as agressões masculinos e passou a integrar um coletivo feminista na faculdade. “Estamos aprendendo a reagir, a nos empoderar e a gritar ‘tarado’ cada vez que uma coisa dessas acontece. Nossa geração não quer mais considerar natural aquilo que a mulher não consente”, ensina a moça, antes de partir para mais um protesto contra o machismo.

Herdeiras de Simone de Beuavoir, novas feministas ocupam ruas e redes

Milhares de brasileiras que participam da campanha do #primeiroassedio promovem um renascimento do movimento feminista.Elas já não precisam lutar pelo direito ao voto, à minissaia, ao trabalho. Nem queimam sutiãs na praça como fizeram, nos anos 60, as contemporâneas da matriarca das feministas, a filósofa francesa Simone de Beauvoir.

“Essa explosão de meninas feministas é uma ótima notícia”, comemora a cientista social Lia Zanotta, uma das mais respeitadas estudiosas do país sobre os movimentos de mulheres. “As feministas do século 21 agem de maneira diferente. Sua base é a experiência pessoal. Elas rejeitam qualquer ato sem consentimento e não admitem o velho argumento que culpa as próprias mulheres pelas agressões sofridas”, completa a antropóloga.

O combustível da nova onda feminista é a experiência pessoal compartilhada em redes sociais, mas, como suas antepassadas, elas também vão às ruas. Na semana passada, milhares de cariocas protestaram na Cinelândia contra projeto de lei do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) que retira conquistas históricas do movimento feminista, como a pílula do dia seguinte. “Há uma onda de conservadorismo na política e as mulheres estão reagindo com bravura”, diz a psicanalista Claudia Gindre, 47 anos. “As meninas estão nos ensinando que não ficar calada é o melhor remédio para combater a violência”.

Psicóloga alerta para educação dos meninos

A psicanalista Claudia Gindre, especialista no atendimento de crianças, está convencida que o silêncio é o maior cúmplice do assédio e do abuso sexual. “Esses relatos na internet criam uma rede de consciência e ajudam a reduzir a perversão machista que joga a responsabilidade do assédio sobre a mulher”, diz a terapeuta, convicta de que atos que parecem banais, como tomar uma cantada chula na rua, não são normais. “Ouvir algo ‘ como vou te chupar todinha não é sinal de macho. É sinal de agressor”, pontua.

Essa mudança de comportamento passa não somente pela ruptura do silêncio feminino, mas também pela reeducação dos meninos, historicamente ensinados de que há mulheres que merecem o assédio porque estão vestidas com essa ou aquela roupa. “As mães de garotos têm papel importantíssimo. Uma educação de meninos focada no respeito às meninas é algo muito tranformador”.

Esse novo homem respeitador começa a surgir. Na própria campanha do primeiro assédio, há relatos de rapazes solidários às meninas, caso do texto do músico Mário Feitosa: “Somos homens. E eu vou usar linguagem ‘de homem’. Ninguém nos apalpa na rua ou sussurra "vagabundo" no pé do nosso ouvido. Os homens não consideram agressão porque não passam por isso”.

‘Mães, acreditem nas suas filhas’, diz garota abusada pelo padrasto

“Hoje eu decidi contar para vocês sobre o meu primeiro assédio. Eu tinha 11 anos e vivia a minha infância como uma criança comum. Tinha a inocência de brincar de boneca e desenhar casinhas nas folhas de papel com giz. Num fim de semana em que eu senti saudade da minha mãe, fui dormir na cama dela. Foi neste dia que meu o padrasto me molestou e abusou de mim sexualmente.

Depois deste dia, ocorreram outras quatro vezes. Eu não sabia o que fazer porque era muito pequena e tinha medo dele. Minha mãe não percebia e nem tinha ideia do que acontecia. Eu só sabia chorar e sofrer com aquilo. Até que um dia, ele me deu moedas e disse para perdoá-lo. Fui crescendo com aquilo e na adolescência descobri o que era realmente. Isso me dói até hoje. Já tive surtos e depressão. Quando tinha meus 15 anos, decidi contar para a minha mãe, e ela não acreditou.

Meu padrasto sempre me proibiu de ter namorados e me proibia de sair na minha adolescência. Dizia que eu era uma vagabunda, que ia engravidar e ser uma faxineira sem estudo. Eu engoli cada lágrima pela felicidade da minha mãe. Não digam que uma pessoa que foi abusada sexualmente, verbalmente ou o que seja, merecia ou gostava. Ninguém merece esse sentimento e essa dor na vida. Mães, acreditem nas suas filhas. Apóiem, dêem um abraço e façam um gesto de carinho.”

Homem relata ter sido assediado aos dez anos

Humberto Rezende tem 42 anos, é cantor, compositor, jornalista e feminista. Sensibilizado pelo cotidiano de medo das mulheres, Beto revelou que ele próprio experimentou, aos 10 anos, um pouco do mesmo clima de insegurança. O relato amealhou uma multidão de curtidas no Face.

“Eu tinha 10 anos. Passava férias em Fortaleza com minha família, e, certa manhã, saí sozinho para comprar uma bola de frescobol em uma loja a dois quarteirões. Um homem me chamou. ‘Ei, vem cá.’ Parei e olhei pra ele. ‘Vem cá’, insistiu, e eu senti medo. Aquele homem me olhava de um jeito estranho, não parecia gostar de mim, mas me queria mais perto dele. ‘Meu pai tá me esperando’, consegui dizer, apontando o hotel. ‘Ah, seu pai. Então tá, pode ir.’ Eu me virei e apertei o passo, mas ainda deu tempo de ouvir: “Você é muito gostosinha, sabia?”

Aquela frase fez com que o medo crescesse, e eu disparei a correr. Passei o resto do dia calado. O medo se misturou com a vergonha. Ele achou que eu era menina, pensava às vezes. E depois me indagava, apavorado: o que será que ele teria feito comigo?”


Fonte: Jornal O Dia - RJ

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