domingo, 8 de novembro de 2015

Artigo - A Síndrome do Pequeno Príncipe e o desespero de uma geração emocionalmente doentia


Por: Nathan Queija
Arte: Mar-ka (DeviartArt)

O lançamento do mês com certeza é o filme O Pequeno Príncipe. Dirigido por Mark Osborne a animação é inspirada na obra clássica homônima escrita por Antoine de Saint-Exupéry. É possível perceber a euforia nas salas de cinema quando o trailer começa. Apesar de ser uma animação com um toque infantil quem dá suspiros e, acredite, até gritos são os adultos que colocam pra fora uma saudade da inocência do menino que parece ver o que é invisível aos olhos utilitaristas dessa vida que quase esmaga a gente se a gente deixar.

Inocência? Hoje eu esbarrei nessa pergunta. E nela eu parei. Será que esse príncipe era mesmo inocente? Eu já tinha lido essa obra antes e me lembro de ter gostado muito. Os diálogos pareciam tão verdadeiros e cheios de beleza que foi amor à primeira lida.

Não executo aqui nenhum tipo de juízo sobre a obra em si. O texto continua sendo belo para mim e ainda que eu o tenha visto de outra maneira eu continuo gostando do conjunto só que agora por outras afinidades. Sinta-se a vontade para discordar e continuar amando o menino. Eu ainda o amo só que a gente precisa conversar.

Hoje eu resolvi tirar o pó da prateleira e ler novamente a obra antes de assistir ao filme e para minha surpresa (ou para meu horror) eu descobri um príncipe diferente. O Pequeno Príncipe estava doente. Doente como a nossa geração. Penso que talvez por isso não seja fácil diagnosticar o príncipe como doente porque como pode um cego guiar outro cego? Os nossos olhos estão tão acostumados com a penumbra que não conseguimos perceber algumas nuances na dependência emocional doentia que o garoto não conseguiu resolver nem depois de toda sua trajetória. Quem sabe quantos amigos ainda ele teria que encontrar pra entender que nenhum deles justificaria o erro que ele cometeu ao pensar que a rosa – por mais bonita que fosse – conseguiria desempenhar o papel que ninguém, nem ele mesmo, seria capaz de preencher?

Mas peraí. Dependência emocional? Lori T. Rentzel em seu livreto Eu vou bem sem você a define assim:
A dependência emocional ocorre quando alguém considera a presença e o cuidado contínuos de outra pessoa essenciais para sua segurança pessoal
Pois bem, depois voltamos a esse assunto. De modo bem superficial sabemos que o livro narra o encontro de um piloto de avião cansado de gente séria que só “falava de bridge, de golfe, de política, de gravatas” e que viveu a sua vida “só, sem alguém que pudesse realmente conversar” com o tão famoso pequeno príncipe que “habitava um planeta um pouco maior que ele, e que precisava de um amigo…“. Pronto. Estava resolvida a carência do piloto que queria ser amigo e do príncipe que precisava de um amigo. O livro poderia acabar aqui, mas não, ainda bem que não porque no desenrolar da trama vamos perceber o que se escondia por trás dessas tão bonitas palavras.

O momento divisor do livro é quando o príncipe apresenta ao piloto a sua flor. Única no mundo para ele. A flor que ele tinha medo que o carneiro comesse ou que o tigre a atacasse. Aquela flor ocupou na vida do pequeno um lugar único que parecia ter preenchido a “triste vidinha” que ele levava. Ele cuidava dela como ninguém. Até uma redoma de vidro ele tinha para não deixar que nada acontecesse com aquela que a partir de então era a única digna de admiração.

Até que ela começa a não querer ocupar esse lugar que o príncipe a tinha cercado e então ele confessa que não devia tê-la escutado e a acusa de vaidade. A partir daqui a história vai se desenrolar com o menino se aproveitando de uma migração de pássaros para fugir. Sim, fugir. Ele poderia ter escolhido dar uma volta, mas ele fugiu. E só se foge quando se está desesperado.

Nessa fuga ele embarca em uma jornada para encontrar algum amigo. Na trajetória ele encontra algumas pessoas peculiares como um rei soberbo, um homem vaidoso, um bêbado que bebe para fugir, um empresário ganancioso, um acendedor de lampião pragmático, um velho racionalista, etc mas nenhuma dessas pessoas parece ser alguém que mereça ser chamado de amigo. Todos tem defeitos. Ninguém quer se encaixar e ser único na vida dele como para ele era aquela flor.

Chegando na Terra o príncipe chega a seguinte conclusão:
Sejam meus amigos, estou só… – disse ele.
Estou só… estou só… estou só – respondeu o eco.
“Que planeta engraçado!”, pensou então. “É completamente seco, pontudo e salgado. E os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz… No meu planeta eu tinha uma flor; e era sempre ela que falava primeiro. […]
“Ela teria se envergonhado”, pensou ele, “se visse isto… Começaria a tossir, simularia morrer para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade…”
O menino depois de ter dado praticamente a volta na galáxia e conhecido muitas pessoas ainda não tinha conseguido tirar a flor da cabeça. Em tudo que ele fazia pensava em como a flor iria reagir. A sua segurança dependia totalmente de alguém que ele não conseguia se desprender. Ele chora sozinho quando começa a perceber que a flor única pra ele era apenas uma rosa comum. O príncipe estava dependente. Lembra da definição da Lori Rentzel?

Quando você acha que já está suficiente então aparece a raposa, sim, a famosa raposa. Aquela tão querida por muita gente por suas frases. Conversa vai, conversa vem e o príncipe ouve a frase que cai como uma luva para o seu coração desesperado: “Cativa-me”. Cativa-me porque eu descobrirei o preço da felicidade e se você vem às quatro horas eu começarei a ser feliz desde as três. Às quatro então nem se fala, eu estarei inquieta e agitada. A raposa disse as palavras que o príncipe queria ouvir desde que fugiu. E então chega a hora da partida e aquilo que parecia ter sido o encontro da jornada acaba por revelar o desespero do menino:
Assim, o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
– Ah! Eu vou chorar.
– A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
Mais uma vez o príncipe se decepciona e coloca a culpa na raposa. Ele nunca consegue admitir que talvez ele esteja doente. É sempre a culpa do outro que é defeituoso, mas na verdade ninguém conseguiria ocupar esse lugar que o menino quer obrigar alguém a preencher. Por fim a raposa antes de ir embora diz a célebre declaração. Se prepara:
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
– Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho, para não se esquecer.
Oi? Sim. É isso mesmo que você leu. O menino entrou no jogo. Conclui que afinal de contas ele é responsável mesmo pela rosa. Vamos ser sinceros. Isso é doentio. É impossível de acontecer. Nós nunca conseguiremos ser responsáveis pela vida de outra pessoa. E a nossa geração quer a todo custo cultivar as suas flores únicas sem perceber que está se machucando ao colocar a vida sobre um deus criado à nossa imagem e semelhança. Podemos e devemos ser responsáveis por nossas atitudes em relação à outras pessoas. Não uso esse texto como pretexto pra viver irresponsavelmente diante do próximo, mas o único responsável pela vida dele é ele mesmo. Querer “cuidar” do outro com a desculpa dele ser único no mundo é quase um suicídio. É assumir o controle de algo incontrolável. Pessoas são dinâmicas.

Eu acredito piamente que fomos criados para viver em comunidade. É impossível viver sozinho. Precisamos uns dos outros, mas é necessário entender que existe uma diferença abismal entre viver em comunidade e querer controlar outra pessoa para satisfazer nossos caprichos. A crítica é sobre querer ser responsável pelo próximo, mas não querer ser responsável por suas atitudes em relação ao próximo.

Por fim, depois do relato dessa grande jornada chega a hora do menino se despedir do piloto:
– Esta noite… por favor… não venhas.
– Eu não te deixarei.
– Eu parecerei estar sofrendo… parecerei estar morrendo. É assim. Não venhas ver. Não vale a pena…
– Eu não te abandonarei.
Mas ele estava preocupado. […]
E ele também se calou, porque estava chorando…
– É aqui. Deixa-me ficar só.
E sentou-se, porque tinha medo. Disse ainda:
– Tu sabes… minha flor… eu sou responsável por ela! Ela é tão frágil! Tão ingênua! E tem apenas quatro pequenos espinhos para defendê-la do mundo… […]
O principezinho guarda sua flor todas as noites na redoma de vidro e vigia atentamente seu carneiro…
Assim acaba a história. Triste. Triste porque o principezinho só conseguiu ficar em “paz e feliz” quando a flor estava ali diante dele intacta sem poder ser quem ela é. Triste porque o menino só conseguiu se sentir seguro quando pensou que poderia controlar a flor. Triste porque essa história fala sobre nós e a crise nos relacionamentos que assola nossa geração. Nós estamos doentes.

Todos estamos suscetíveis à isso em qualquer época da vida. Seja na relação entre namorados, amigos e até entre pais e filhos. Todas essas coisas são muito boas. Podemos ter relacionamentos sadios sim, sair da nossa zona de conforto para ajudar o próximo, amar quando não somos amados, etc., mas o perigo mora no momento em que colocamos essas coisas como o fim último de nossa vida. Já ouviu a frase: “Depois que te conheci minha vida fez sentido”? Pois é.

Eu li o livro Cidades de Papel do John Green e fui assistir ao filme que está em cartaz em alguns cinemas ainda. Pra mim é um livro ok, com alguns picos interessantes. O filme também, fez o que pode com o que o livro ofereceu, mas o que mais me chamou a atenção é que eu encontrei muitas semelhanças no enredo com o que estou tentando dizer aqui. Depois de toda aquela aventura do Quentin em busca da Margo idealizada em sua cabeça ele descobre uma Margo ser humano que não pode oferecer as expectativas que ele colocou sobre ela e a própria garota entende que não é capaz de carregar o título que tomou sobre si. A conclusão que Quentin chega é: “Que coisa mais traiçoeira é acreditar que uma pessoa é mais do que uma pessoa”.

Por mais maduro que você pensa ser tome cuidado para não cair. Podemos criar redomas de vidro e confundir amor com uma necessidade doentia de resolver nossas crises existenciais com soluções fugazes. Isso não é amor. O amor não procura seus interesses. Em momento algum o garoto do livro estava preocupado com a flor. Por mais bonitas que as palavras dele possam ser ele estava o tempo todo procurando alguma coisa pra resolver a dor do coração dele. É sutil, mas venenoso. Mata aos poucos. É narcísico.

Eu recomendo que você leia o livreto da Lori Rentzel se quiser saber um pouco mais sobre o assunto da dependência emocional. Não sou especialista no assunto, apenas escrevo o que vejo e vivo.

O garoto fugiu em busca de um amigo, mas em momento nenhum parou para refletir sobre o que ele estava fazendo com a vida dele. No impulso ele nem percebeu para quem ele estava entregando o seu coração. Se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova.

Quem passa por esse tipo de situação costuma dizer que é uma das piores experiências principalmente quando existe a ruptura assim como houve na história do príncipe e o deixou melancólico pro resto do livro sem uma resolução para o seu real problema. Eu já passei por isso. Esse monstro tem nome: idolatria.

Tim Keller em seu livro Deuses falsos diz assim:
Há uma diferença entre o pesar e o desespero. O pesar é uma dor para a qual existem fontes de consolação. O pesar vem da perda de algo bom entre outros, de modo que, se você experimenta um retrocesso na carreira, pode encontrar conforto em sua família para suportar a crise. No entanto, o desespero é inconsolável, porque vem da perda de algo último. Quando a sua vida perde a última fonte de sentido ou esperança, não há fontes alternativas para onde voltar-se. Isso acaba com você.
Qual é a causa dessa estranha melancolia que permeia nossa sociedade mesmo em tempos de explosão de atividade frenética, e que se transforma em imediato desespero quando a prosperidade diminui? Tocqueville diz que ela vem do ato de tomar uma “alegria incompleta deste mundo” e construir a vida inteira em torno dela. Esta é a definição de idolatria.
O pequeno príncipe fugiu porque se desesperou e se desesperou porque viu ruir a sua casa construída sobre a areia. Todos podemos passar por isso. Sério. Não escrevo aqui como alguém que já aprendeu a lição e chegou lá. Muito pelo contrário. Essa não é apenas uma fase a ser superada, mas uma luta diária que travamos e ela começa no momento em que acordamos. É um caminho estreito, difícil, mas possível de ser trilhado. Ele não diz respeito a simplesmente ser maduro emocionalmente como um prêmio que se ganha por bom comportamento. Pelo contrário, é um caminho de perda, mas já dizia Jesus Cristo: “quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. Essa é uma luta que quando se perde é que se ganha. E pro nosso bem amigos: tomara que a gente perca.

Eu tenho encontrado tanta gente machucada no caminho. É de doer o coração porque a dificuldade é que quem entra nesse jogo dificilmente percebe que está dentro dele. Todas as as suas ações e pensamentos são guiados por tal ídolo, seja lá qual for (pessoas, trabalho, dinheiro, carreira acadêmica, etc) . É uma regra cega e nós frequentemente somos peões sem saber dessa regra. Perdemos a sensibilidade sobre o resto da vida que não diz respeito ao que esse ídolo quer que a gente faça. Essa percepção só vem quando esse ídolo cai. E ele vai cair. E vai doer muito porque a vida não vai mais fazer sentido sem esse apoio que a “sustentava” e não existe mais. É queda livre, mas tomara que uma vez que a queda acabe e a gente se encontre no chão percebamos que esse era o lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Eu temo por nós, amigos. Temo por nós que somos ensinados todos os dias a embarcar nessa busca incessante pela felicidade que não se encontra completamente aqui. Eu temo que na ânsia de viver a gente se afogue e veja a vida escorrendo pelas mãos. Nesse aspecto essa música tem muito a nos ensinar:


Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver
Toda pedra do caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver
É Preciso Saber Viver interpretada por Titãs

Existe esperança. Existe Vida. Por isso que eu falo que não deixei de admirar o livro. As palavras continuam sendo muito bonitas e acredito que elas não sejam totalmente erradas, o erro está na escolha da boca de quem você decide ouvir e se ancorar.
Deus mesmo disse: “Nunca o deixarei, nunca o abandonarei”
Hebreus 13:5
Dá-me, filho meu, o teu coração, e os teus olhos observem os meus caminhos. Provérbios 23:26
UPDATE: Recebi algumas críticas (e isso é ótimo!) de que eu estaria julgando a obra segundo padrões ético-religiosos. A minha ideia quando postei era realmente ouvir outros pontos de vista porque esse é um pensamento em construção. Não sou dono da verdade e sei que posso estar errado, mas caminho naquilo que creio ser correto até aqui. E quem não caminha acreditando em algo? É impossível ser neutro. Não julguei a obra como falei no artigo, tampouco a julgaria dentro de padrões “ético-religiosos”, essa expressão é perigosa e vem carregada de conceitos que precisamos esclarecer. A proposta da obra não é responder à essas questões. O livro continua sendo para mim uma grande obra com um texto incrível e muito belo. Concordo que existem muitos ensinamentos em suas linhas. A minha crítica no texto é sobre a nossa conduta, que partiu da minha percepção sobre mim mesmo, baseado na minha percepção sobre o comportamento do personagem no enredo que eu discordo em alguns momentos. Não é sobre a obra (não tenho competência pra isso), mas sobre nós. Claro que você pode discordar do que eu digo aqui, só estou esclarecendo o que foi pretendido no texto.


Fonte: Blog do Nathan Queija

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