domingo, 1 de novembro de 2015

Artigo - Ou melhora a escola pública (e muito) ou a desigualdade não diminui (nunca)


Por: Daniel Hortêncio de Medeiros

Em seu livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, o economista Alexandre Rands Barros, professor da UFPE, Ph.D em Economia pela universidade de Illinois (EUA), compara as regiões Nordeste e Sudeste do Brasil analisando , principalmente, a desigualdade em face de uma menor concentração de capital humano no Nordeste.

Para o professor Rands, é um erro acreditar que o desenvolvimento do Nordeste passe por mais investimentos em infraestrutura e atrativos para instalação de empresas. Ao contrário, os investimentos no desenvolvimento industrial e tecnológico no Nordeste ampliaram a desigualdade, na medida em que cooptaram os jovens mais bem qualificados da região, oriundos de famílias de classe média alta e alta, ampliando assim a distância entre o topo e a base da pirâmide, em um falso ou no mínimo distorcido sentimento de “progresso e crescimento da região”. Como afirma o autor: A mudança de foco ( deve ser) radical. Deixar-se-ia de subsidiar empresários nordestinos com os recursos disponíveis para políticas regionais e passar-se-ia a subsidiar a formação de capital humano, cuja apropriação dos resultados seria voltada principalmente para a população jovem mais pobre. ( pg 236)

O último ENEM trouxe uma informação fundamental: a associação entre o resultado das escolas e o nível socioeconômico dos seus alunos e alunas. E o resultado demonstra claramente a perversa realidade destacada pelo professor Alexandre Rands: os melhores resultados do ENEM, ranqueando as melhores escolas, na sua esmagadora maioria, são de alunos de nível socioeconômico muito alto e alto.

Um único exemplo: as mil melhores escolas, praticamente todas são escolas com alunos de nível socioeconômico alto e muito alto. 907 são particulares. Das 93 públicas, 72 são federais ( com seleção e nível social elevados) e apenas 21 estaduais.

Fica claro pelo resultado do ENEM, que a meritocracia é uma forma de ocultar desigualdade e, embora alunos pobres possam avançar na escala social, essa chance é residual. A solução é investir pesadamente na educação pública de qualidade ou conformar-se com a perpetuação e cada vez maior ampliação do fosso de desigualdade social no país.

No entanto, como diz Alexandre Rands de Barros, sobre a dificuldade de os recursos do governo federal e estadual concentrarem-se fundamentalmente em melhoria do capital humano nas camadas mais pobres da população: com isso, os segmentos sociais beneficiados seriam completamente diferentes. Isso dificulta a implementação de tal política porque os beneficiários de hoje seriam fortes opositores e eles tendem a ter um poder político forte.

O resultado do ENEM 2014 prestou um serviço ao mostrar, por um lado, o impacto pequeno da escola quando o aluno tem suporte socioeconômico e, por outro lado, a importância enorme de a escola pública suprir essa falta de suporte – com professores qualificados para dar aula, com materiais adequados para o aprendizado, com ambiente compatível com as exigências do estudar, com horário integral para que o aprendizado possa se dar no tempo necessário para ser feito com qualidade, com acompanhamento de tutores, psicólogos, orientadores ( tudo o que os jovens de nível socioeconômico muito alto e alto possuem) – e competir, aí sim , em pé de igualdade.

Quando tudo isso for disponibilizado para a população de estudantes pobres, e só aí, será possível dizer: “que vença o melhor”.


Fonte: Gazeta do Povo

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