segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Artigo - A nova (velha) cara do HIV


Por: Poz

A notícia de que o ator americano Charlie Sheen, o famoso Charlie Harper da série“Two And a Half Men”, é portador do virus HIV pegou muita gente de surpresa na última terça-feira. Boatos sobre a condição de Sheen começaram a circular com mais força na semana passada, até que ele fez um pronunciamento oficial no programa “Today”, da NBC.

Como o próprio reconhece, falar publicamente sobre o vírus o transforma em uma espécie de “porta voz” da soropositividade, pois graças à sua fama o assunto voltou às manchetes. Ele é a mais “nova” cara do HIV, apesar de seu “currículo sexual” de promiscuidade, que não traz nada de novo para o estigma sobre a doença.

Por causa de sua imagem de “pegador”, o ator é ídolo entre os machistas, chegando inclusive a ser o rosto da página misógina “Orgulho de ser hétero”, do Facebook. Agora, essa imagem está arranhada por Charlie ter a “doença de viado” e pelos boatos de que seria bissexual, o que alimenta a ideia de que os homens heterossexuais só contraem o vírus quando se envolvem, direta ou indiretamente, com homossexuais.

Em pleno 2015, as pessoas ainda parecem pensar no HIV como uma espécie de “arma biológica homofóbica” ou como um “castigo divino”, considerando plausível que um vírus tenha a capacidade de detectar desejos e de recriminar comportamentos, “escolhendo” suas vítimas de um jeito consciente. Trinta anos depois, a AIDS ainda é compreendida como uma “peste gay”, o que é extremamente preocupante porque “a nova cara do HIV” é exatamente a de Charlie Sheen: a do hétero que se enxerga como invencível.

A população gay foi escolhida como estandarte da epidemia porque era mais conveniente criminalizar um grupo já estigmatizado do que repensar a maneira como o machismo molda a sexualidade masculina. É devido a essa conduta sexual que os homens (tanto héteros quanto gays) se tornaram as vítimas mais comuns do HIV, mas rapidamente os casos de infecção entre mulheres (particularmente as casadas) aumentaram, e hoje é consenso que os heterossexuais são os mais afetados – inclusive por serem a maioria da população. O que preocupa é o fato de que muitos dos portadores não conhecem sua sorologia, até mesmo por causa do preconceito que envolve a doença, e também a estigmatização de condutas sexuais específicas como a prostituição, o sexo grupal e a homossexualidade.

Há pessoas comemorando a ironia de que Charlie Sheen, esse “super hétero”, tenha se revelado soropositivo. Elas perguntam se os machistas que o transformaram em herói terão capacidade de lidar com a novidade, sem entender que rir dessa situação é reafirmar o HIV como um “castigo” ou como algo merecidopor um “erro” ou conduta “imoral”.

Sheen tem agora a oportunidade de reformular a própria imagem pública e de utilizar o preconceito contra o HIV para denunciar a perseguição que sofreu (sua decisão em assumir seu status vem depois de casos repetidos de chantagem) e lutar por uma causa nobre, que há muito não recebia a devida atenção da mídia. Com a taxa de transmissão aumentando especialmente entre os jovens, é positivo que o HIV tenha uma “nova cara”, por mais triste que seja o fato de uma pessoa portadora do vírus ainda ter que se perguntar se deve ou não falar sobre isso, acabando por fazê-lo por causa de ameaças e tendo que considerar as implicações disso para sua carreira.

É o tipo de medo que acompanha todas as pessoas que vivem com o HIV, provando que a única “novidade” nesse caso é a pessoa discutida, já que os problemas já estão aí há décadas, desde que o sexo voltou a ser compreendido como uma “roleta russa”.


Fonte: Revista Fórum / Lado Positivo

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