domingo, 4 de outubro de 2015

O que aconteceria se não houvesse limites a imigração?


Há poucos líderes políticos no mundo de hoje que se arriscariam a defender abertamente a imigração sem restrições.

O tema é polêmico, não importa o continente ou o país. O fluxo crescente de imigrantes que chegam à Europa fugindo de guerras e buscando melhores condições de vida deu fôlego novo a este debate. Em diversos países, políticos passaram a abordar a construção de barreiras para limitar o movimento de pessoas.

Divergências culturais e políticas pesam nessa questão. Muitos países, ricos ou pobres, temem que cultura, identidade, religião ou segurança acabem sob risco – e até se perdendo – com a chegada de estrangeiros em massa - especialmente quando esse fluxo acontece de maneira ilegal, como ocorre com milhares de pessoas que arriscam viver sem a documentação correta em outros países.

São questões como essa que fazem com que grande parte da opinião pública adote um viés contrário à imigração.

Mas, apesar de críticas, há acadêmicos que insistem que o argumento econômico favorável à imigração é forte e evidente.

Para muitos economistas, é óbvio que, tanto o imigrante quanto o país que o recebe, se beneficiam da imigração.

Entre esses que argumentam a favor dos benefícios econômicos de um mundo com menos limites de fronteiras e mais livre circulação estão o professor americano de Harvard, Lant Pritchett, e o professor nascido na Índia e que hoje leciona na Universidade de Columbia, em Nova York, Jagdish Bhagwati.

A BBC conversou com os dois para ouvir por que eles "remam contra a maré" ao defenderem os benefícios da imigração.

'Todos ganham'

O professor Lant Pritchett, de Harvard, defende o fim quase absoluto das fronteiras. Para ele, os controles imigratórios impedem o bom funcionamento dos mercados.

"Existem grandes benefícios quando se permite o livre comércio entre um país e outro, e isso inclui a questão da mão-de-obra".

Levando esse argumento ao caso extremo, o ideal seria, então, acabar com todas as barreiras existentes para a imigração?

"Nem vale falar sobre isso", responde. "Seria um caso irreal e as considerações políticas e de segurança fariam disso algo impraticável."

Mas sem chegar a esses extremos, o professor de Harvard defende com veemência a retirada da maioria das "travas" à chegada de trabalhadores estrangeiros.

"Um relaxamento substancial nas restrições imigratórias existentes beneficiaria tanto os imigrantes quanto os países que recebem esse imigrantes e até mesmo os países de origem desses imigrantes. É uma situação em que todos ganham", disse.

"Meus estudos indicam que, por cada pessoa de um país em desenvolvimento que se muda para os Estados Unidos, existem ganhos de US$ 15 mil por ano em termos de produtividade".

"Os Estados Unidos são um país muito mais produtivo e a mesma pessoa com a mesma educação poderá ser muito mais produtiva se ela se mudar para lá. Isso faz com que os empresários que a contratam ganhem mais e que também paguem mais. Os ganhos marginais da imigração são astronômicos."

E os mais pobres?

Pritchett duvida que haja alguma reforma econômica mais positiva do que a imigração.

"A receita total por todas as demais reformas econômicas discutidas na Organização Mundial do Comércio fica pequena se comparada ao que se ganharia se os países industrializados liberassem uns 3% a mais de força de trabalho para a imigração."

No entanto, outros economistas garantem que, apesar de ser possível que a comunidade como um todo se beneficie da imigração, sempre haverá pessoas específicas prejudicadas – em particular os trabalhadores com pouca educação nos países que recebem os imigrantes. Eles veriam suas oportunidades sere diminuídas com a chegada de competência estrangeira no mercado de trabalho.

Mas Pritchett não aceita esse argumento como crítica a uma nova formulação das políticas imigratórias.

"Não usamos esse padrão em nenhuma outra política. Praticamente, não existe nenhuma política que beneficie todas as pessoas sem exceção. A essência da economia é buscar a solução mais eficiente e depois pensar em como compensar as pessoas que podem sair perdendo. Se não for assim, não seria possível implementar nenhuma reforma econômica".

Além disso, ele diz não haver evidência empírica contundente que prove que os trabalhadores locais menos qualificados se veriam prejudicados pela imigração.

"A imigração aumentaria os salários dos americanos como um todo e teria um impacto próximo de zero aos salários dos americanos menos qualificados".

Pritchett alega que os imigrantes não tomam os empregos dos locais, mas sim ocupam as vagas que eles não querem.

Um argumento polêmico porque, do outro lado, os críticos da imigração dizem que se não houver imigrantes, a mão-de-obra fica escassa, e os salários desses empregos mais humildes seriam mais altos, já que precisariam ser atrativos para os moradores locais.

Pritchett discorda. "Na semana passada, fui escalar as montanhas do Estado de Utah e, na solidão desta região do oeste dos Estados Unidos, a 3 mil metros de altura, me encontrei com um pastor de ovelhas peruano. Elevar o salários dos pastores de ovelhas ao nível necessário para convencer um americano a fazer esse tipo de trabalho destruiria essa indústria no país."

Lição dos imigrantes

Jagdish Bhagwati, professor da Universidade de Columbia, também é um defensor ferrenho da liberação da imigração.

Vindo da Índia, ele mesmo chegou aos Estados Unidos como um imigrante altamente qualificado. Mas acredita que a imigração não deve se restringir a especialistas e universitários.

"Tanto a chegada de pessoas altamente qualificadas quanto a de pessoas com baixos níveis de educação suprem necessidades", argumenta.

"Quando os imigrantes chegam para dirigir táxis, como fazem muitos em Nova York, estão demonstrando que existem alternativas distintas para as pessoas de baixa educação e elas não precisam ficar esperando que o governo consiga trabalho para elas. Eles estão virando exemplo para muitos habitantes locais", disse Bhagwati.

"Muitos dos imigrantes começam em pequenos negócios e eles mesmos criam trabalhos. Não há um número fixo de trabalhadores na economia".

Bhagwati também reconhece que esse não é um argumento para remover por completo os controles da imigração.

Ele aceita que existem considerações políticas e sociais que fazem com que isso seja impossível de administrar.

Mas ele defende com veemência a importância de não fechar as portas aos imigrantes, inclusive aos de origem humilde e que têm pouca educação.

"Podem ter mais forme de sucesso, o que é algo que vai passando entre seus familiares. Basta ver as tantas histórias de sucesso de segunda geração de muitas famílias de imigrantes".


Fonte: BBC Brasil

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