domingo, 25 de outubro de 2015

MasterChef Brasil Júnior e a sexualização de crianças e adolescentes


Com emissoras apostando cada vez mais em programas de baixa qualidade, focados no sensacionalismo na luta acirrada por audiência, a Band mandou muito bem em seu mais novo reality show: MasterChef Brasil Júnior. Sim, atrações com criança tendem a não ser lá muito legal, então temos ai uma exceção à regra. Pelo que foi possível conferir no primeiro episódio, lançado na terça-feira (20), todos os concorrentes estão confortáveis em integrar o programa, suas manobras entre facas e fogão são supervisionadas, seus pais acompanham as provas e a equipe de jurados, composta por Paola Carosella, Erick Jacquin e Henrique Fogaça, tem pegado leve nas avaliações dos pequenos cozinheiros.

Já na estreia, com quase duas horas de transmissão, o público certamente se emocionou com o desempenho dos pequenos na execução das provas, surpreendeu-se com a apresentação dos pratos muito bem preparados e conferiu momentos impagáveis, muita ternura (de todos os envolvidos) e boas lições de generosidade – no tratamento do júri com os concorrentes e dos participantes entre si. Eis um bom programa para se assistir em família, por assim dizer.

Em sua abertura, MasterChef Brasil Júnior atingiu pico de 7 pontos de audiência, rendendo à Band o segundo lugar no IBOPE por alguns minutos. Apesar do sucesso, nem tudo são flores. Assim como as duas edições anteriores, voltada aos adultos, a versão infantil do reality também liderou os trending topics do Twitter. Alguns comentários, porém, de extremo mau gosto. Como abominamos essas atitudes e não queremos expor as crianças envolvidas, explicaremos os fatos sem identificar seus nomes.

Alguns concorrentes meninos, que sequer iniciaram a vida sexual, Oganharam rótulos sexualizados, sendo apontados como homossexuaispelos internautas, em infelizes comentários como ‘Aloka’, ‘Criança Viada’ e ‘É de Humanas’ taggeados às suas contas no Twitter.

Outra participante, ao invés de ser vítima de bullying, foi atingida por comentários que insinuam pedofilia, endossando que ‘dependia da criança’, ‘que naquela idade já aprontava’ e afins. A menina de apenas 12 anos teve uma fanpage criada por um ‘admirador’, conquistou mais de 150 likes e graças às denúncias dos internautas já saiu do ar.

Em seu about, o administrador declarava que ‘todos nós sonhamos em casar com uma mulher desse tipo’. A página ainda expôs fotos da menina e criticou esquerdistas, feministas e gays, além de se isentar das acusações dos ‘moralistas’ que se opuseram ao conteúdo publicado.

O blog ‘Foco Cristão’ também saiu em defesa dos agressores, justificando as insinuações da seguinte maneira: ‘Ela é uma mulher de 12 anos de idade. Os moralistas odiadores do sexo nada sabem sobre biologia. Ela deve ser considerada adulta a partir do momento da menstruação. Já está na idade até de ter filhos, claro que vai atiçar o desejo dos homens. Logo, ela tem que ser ‘gostosa’ para atrair os machos e assim ser fecundada para gerar a prole”.

O site deixa ainda um recado aos pais da garota: “Relaxem! Vocês já foram adolescentes, sabem que a sexualidade aflorar é normal. Não deixem que medos, inseguranças e a histeria dos moralistas abalem vocês e atrapalhem a vida da jovem”.

Em depoimento à imprensa, o pai da menina declarou que já previa o assédio e por isso havia chamado uma pessoa especialmente para cuidar da conta do Twitter de sua filha. O que ele não imaginava, todavia, eram os tarados sem noção, que chegaram até a pedir que a menina enviasse fotos nuas. O genitor garantiu, porém, que a jovem está blindada contra esses pedidos e que, por ora, não irá acional judicialmente ninguém.

A Band também se pronunciou, advertindo que a atração conta com psicólogos à disposição para orientações aos participantes e demonstrou repúdio aos comentários sexuais em relação aos concorrentes: “O foco do programa é o talento das crianças, e nem de longe há qualquer provocação a esse tipo de estímulo”.

Assunto encerrado, então? De forma alguma. Talvez não fosse nem de longe a intenção, mas o MasterChef Brasil Júnior está ai para mostrar – finalmente – um papel muito importante que a televisão tem na comunicação e informações fornecidas aos expectadores. Tendo como segunda tela a internet, que aumenta a visibilidade do programa, abrindo espaço para debater temas polêmicos, considerados tabus, e que não são abordados de maneira consolidada na telinha.

Este reality show é uma grande oportunidade para realizarmos uma série de mudanças em nossas vidas e, por consequência, na sociedade. Aos pais, um bom argumento para conversar com seus filhos sobre a pedofilia. É comum que muitos pais não toquem no assunto querendo ‘proteger’ a prole de algo tão cruel, mas, curiosamente, é na infância que esses abusos acontecem e se os pequenos são alertados sobre tal possibilidade, provavelmente terão mais facilidade em compreender situações de risco e poderem conversa abertamente com seus pais caso sejam vítimas de pedófilos.

Ainda falando sobre pais e filhos, o bullying também pode ser conversado. Afinal de contas, não são apenas os participantes do programa que sofrem com acusações do gênero. Todas as crianças são suscetíveis e geralmente têm de lidar sozinhas com os assédios – especialmente os virtuais. As crianças de hoje são internautas e estão presentes nas redes sociais. E o que elas precisam não é serem banidas e monitoradas apenas. Elas precisam ser instruídas por seus pais sobre o domínio de seus corpos e seus limites. Elas precisam saber que têm o apoio de seus familiares para passar por essas situações desconfortáveis e mostrarem que, apesar de pouca idade, têm voz.

Se o pai da pequena futura chef opta por não recorrer à Justiça, isso não significa que você não possa fazer o mesmo. Muito pelo contrário, quanto mais pessoas se unirem nas denúncias desses comentários, maior a chance de tirá-los do anonimato proporcionado pela internet e fazer com que seresponsabilizem pelos seus feitos.

Primeiramente, vale ressaltar que pedofilia (atração sexual por crianças) é considerada uma doença e não um crime. O Código Penal brasileiro, porém, tipifica toda relação com menores de 14 anos como estupro, como está expresso no artigo 217-A – e a pena prevista é de oito a quinze anos de detenção.

Ou seja, neste caso, os autores dessas publicações não podem ser considerados como criminosos, mas podem ser investigados e denunciados, tendo de responder por apologia ao crime, estímulo à pedofilia e injúria.

O que você pode fazer para ajudar? Printar cada comentário, relacionar seu link e anotar o horário da publicação para levar os dados coletados aoDepartamento de Polícia mais próximo. As denúncias também podem ser feitas online, através deste site ou do site do SaferNet.

Caso se depare com outra fanpage do gênero, clique em reticências e depois em ‘denunciar página’ para que os administradores do Facebookpossam avaliar o conteúdo e tomar as devidas providências.

O artigo 241-D do Estatuto da Criança e do Adolescente informa que aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso dá pena de um a três anos de reclusão mais multa. Sendo assim, os donos dos perfis@andreemuniiz, @Kemper_guedes, @luantipatico e @victorHrentschlpodem – e devem – ser responsabilizados por suas publicações.

Além disso, qualquer criança e adolescente ofendido com esses comentários ou com outros que se destinem a sua pessoa podem procurar a Delegacia de Proteção à Criança Vítima de Violência, representados por seus pais, ou levar o caso ao conhecimento do Ministério Público.


Fonte: Portal A Coisa Toda

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