domingo, 25 de outubro de 2015

Estudos indicam que pedofilia tem marcas no cérebro


"Tem 12 anos, já aguenta fazer um filme pornô (risos)". Foi com frases desse tipo endereçados a Valentina, uma menina de 12 anos, que alguns telespectadores receberam a estreia do reality show “MasterChef Júnior”, uma competição gastronômica para crianças realizada pela Band. Os comentários, publicados principalmente no Twitter, chocaram a sociedade e deram início a um extenso debate. Esse tipo de colocação pode ser considerado pedofilia, crime punível com oito a 15 anos de reclusão e, segundo especialistas, facilitado pelas dimensões da internet e sua “proteção” ao anonimato. 

Do ponto de vista psicológico, a pedofilia é um distúrbio em que o indivíduo tem interesse sexual por crianças. A ciência ainda não bateu o martelo sobre as causas do problema, mas as principais suspeitas recaem sobre uma combinação de fatores genéticos, ambientais e neurológicos.

Estudos recentes encontraram diferenças entre a estrutura cerebral de pedófilos e a de não pedófilos. Alguns deles demonstraram que os pedófilos possuem menos massa cinzenta em diversas áreas do cérebro, como o córtex bilateral órbito-frontal (região responsável pela tomada de decisões e envolvida nos processos de inibição sexual), na ínsula (região que controla as emoções) e no córtex cingulado (região ligada à identificação dos erros).
“A pedofilia é frequentemente considerada uma questão de menor importância, e as pesquisas sobre sua natureza estão atrasadas se as compararmos com os estudos sobre outros distúrbios psiquiátricos. Contudo, com o crescimento do uso das técnicas de neuroimagem, estamos aumentando nossos conhecimentos sobre os fatores que predispõem e os que acompanham o desenvolvimento da pedofilia”, explica a pesquisadora alemã Gilian Tenbergen. Ela é uma das autoras do artigo “The neurobiology and psychology of pedophilia: recent advances and challenges” (“A neurobiologia e a psicologia da pedofilia: avanços e desafios recentes”, em livre tradução), publicado em junho deste ano, que compila as pesquisas mais relevantes sobre o assunto.
A ciência trabalha com três hipóteses no campo neurológico. A primeira delas atribui o distúrbio a diferenças nos córtex órbito-frontal e dorsolateral pré-frontal frequentemente presentes nos pedófilos. “Como o córtex órbito-frontal é responsável pelo controle do comportamento, especialmente a inibição do comportamento sexual, diferenças de volume ou disfunções nessa área poderiam explicar a pedofilia”, explica a pesquisadora.
Uma segunda teoria aposta em lesões nos lobos temporais dos pacientes com o distúrbio, que podem aumentar os comportamentos pedófilos ou elevar a amplitude de desvios nos interesses sexuais. A terceira teoria aponta que diferenças na formação cerebral masculina, ainda na fase intrauterina do indivíduo, são as responsáveis pelo desenvolvimento da pedofilia na vida adulta. As pesquisas que levaram à teoria, contudo, não deram conta de explicar quais diferenças seriam essas.

Comportamento

Do ponto de vista comportamental, também é difícil traçar um perfil do pedófilo, já que a maioria deles sabe que a prática é criminosa. Mas alguns indícios podem revelar o distúrbio.
“Normalmente, os pedófilos são sedutores, atenciosos com crianças, tentam agradar – muitas vezes, com presentes –, elogiam a criança, possuem vários objetos do universo infantil, como jogos. Eles costumam pedir à criança para guardar segredo sobre suas ações e pedem para a criança fazer carinho nas partes íntimas, tirar fotos com pouca ou nenhuma roupa ou usar roupas sensuais”, revela o psicólogo Gustavo Teixeira, coordenador da pós-graduação em terapia analítica comportamental do Centro Universitário Una.
Teixeira reconhece que a aparição na TV em rede nacional e a presença nas redes sociais deixam a criança mais exposta. Por outro lado, não aconselha que a criança seja retirada desses meios. “Impedir as crianças de participar de um programa que vai ser divertido para elas, no qual elas poderão mostrar seus dotes artísticos ou culinários e ter novas experiências, não me parece o melhor caminho”, opina. O foco das ações, segundo ele, não deve ser privar a vítima, mas sim encontrar formas de lidar com as pessoas que têm distúrbio sexual.


Fonte: Jornal O Tempo

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