domingo, 18 de outubro de 2015

Estudo constata que estresse no trabalho por levar ao derrame


Desemprego em alta, competitividade acirrada, prazos cada vez mais exíguos para cumprir tarefas complexas... As pressões diárias do mercado estão consumindo a saúde do trabalhador, dizem pesquisadores. Há tempos encontrou-se uma relação entre o estresse laboral e o aumento da incidência de males cardíacos. Agora, cientistas da Universidade Médica de Gangzhou, na China, constataram também uma forte associação com derrame, incluindo o acidente vascular cerebral (AVC).

O estudo, publicado na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, foi feito com dados de 138.782 pessoas que participaram de seis pesquisas epidemiológicas realizadas na Suécia, na Finlândia, no Japão e nos Estados Unidos. Ao longo de três a 17 anos, elas foram acompanhadas e seus registros médicos, coletados. Os cientistas, então, classificaram os empregos em quatro grupos, baseados no nível de controle que os trabalhadores tinham sobre suas atividades e a dificuldade que enfrentavam, como prazos apertados e desgaste mental. Horas de trabalho e demandas físicas não entraram na conta.

As categorias criadas foram: trabalho passivo (baixa demanda e baixo controle, como artesãos e zeladores), baixo nível de estresse (baixa demanda e grande nível de controle, como cientistas e arquitetos), alto nível de estresse (alta demanda e pouco controle, como garçons e enfermeiros) e trabalhos ativos (alta demanda e alto controle, como médicos, professores e engenheiros). Nos seis estudos epidemiológicos avaliados, entre 11% e 27% dos participantes encaixaram-se na categoria de alto nível de estresse.

Ao analisar os registros médicos dessas pessoas, os pesquisadores encontraram uma forte associação entre o estresse e a ocorrência de derrames. Aquelas que tinham baixo controle de sua atividade laboral e alta demanda apresentaram risco 22% maior de sofrer qualquer tipo de derrame e 58% mais alto de ter isquemia cerebral, tipo de acidente vascular caracterizado pela falta de sangue no cérebro e principal causa de morte e incapacidades em todo o mundo — de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada seis segundos ocorre um óbito em decorrência de AVC isquêmico.

A avaliação de subgrupos indicou que as mulheres estão em desvantagem: comparadas aos homens na mesma situação, o risco de elas sofrerem um derrame é 33% mais alto. De acordo com Dingli Xu, coautora do estudo, muitos mecanismos podem estar por trás da associação entre trabalhos estressantes e ocorrência de derrame. “Em primeiro lugar, os trabalhadores podem estar buscando formas não saudáveis de lidar como o estresse, adotando comportamentos como tabagismo, se alimentando mal, reduzindo as atividades físicas... Tudo isso é fator de risco bem conhecido para derrames”, observa.

A neurologista, contudo, alerta que é urgente investigar a relação de forma mais aprofundada. “Mesmo aqueles que mantêm hábitos saudáveis, mas têm um posto laboral muito estressante, apresentam 25% de risco maior. Então, isso mostra que apenas o comportamento pouco saudável não explica totalmente o risco aumentado de derrame em pessoas com alto nível de estresse”, observa.

Dingli Xu acredita que, quando perene, a forte pressão do trabalho pode levar a perturbações na produção de substâncias endócrinas no sistema nervoso central. Isso elevaria a resposta inflamatória, um processo que, entre outras coisas, desestabiliza as placas ateroscleróticas, acelera o envelhecimento celular e estimula a secreção de cortisol — tudo isso, fatores biológicos associados ao derrame.

Influência cultural

A neurologista especializada em derrames Jennifer J. Majersik, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, conta que está habituada a ouvir de seus pacientes a pergunta se o estresse favorece o derrame. “A dúvida é particularmente comum quando o derrame ocorreu em meio a um evento difícil da vida ou com uma pessoa jovem que trabalha ou estuda demais”, diz. “Até agora, eu não tinha como responder a meus pacientes preocupados, mas esse artigo publicado na Neurology joga luz sobre essa importante questão”, diz.

Mais informações no jornal citado na fonte.


Fonte: Correio Braziliense

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