domingo, 11 de outubro de 2015

Artigo - Os órfãos da educação


Por: Isaac Roitman*

Cada vez mais os meios de comunicação noticiam as diferentes formas de violência do cotidiano. No Brasil, a questão da violência, sobretudo os homicídios, tem levado setores da sociedade a questionar o papel das instituições no que diz respeito à proteção e à transmissão de valores morais e éticos das crianças e adolescentes.

A violência, em seus variados contornos, é um fenômeno histórico na sociedade brasileira. A escravidão iniciada com os índios e, depois, com a mão de obra africana, a colonização mercantilista, o coronelismo, as oligarquias, a violência urbana e doméstica, o tráfico de drogas, a impunidade, o autoritarismo burocrático do Estado, contribuíram enormemente para o aumento da violência.

Os erros cometidos nas políticas econômicas e a crise ética que comprometem a dignidade e o bem-estar do segmento mais pobre de nossa sociedade podem ser também considerados uma forma de violência. A solução para a questão da violência no Brasil envolve os mais diversos setores da sociedade, não só a segurança pública e um Judiciário eficiente, mas também demanda, com urgência, profundidade e extensão, a melhoria dos sistemas educacional, de saúde, habitacional, bem como oportunidades de emprego, entre outros fatores.

O que se espera de um país que ocupa o oitavo lugar no planeta em número de analfabetos adultos? Temos 14 milhões de adultos que não sabem ler nem escrever, sem contar os chamados analfabetos funcionais. Eles são cegos sociais porque não conseguem decodificar o código escrito ao seu redor. Entre outras dificuldades, eles não conseguem ler o destino dos ônibus, a bula dos remédios, o cardápio das lanchonetes e até mesmo o que está escrito na bandeira brasileira.

Eles podem ser considerados como órfãos da educação, pois não tiveram oportunidade de se alfabetizar no sistema educacional ou nunca tiveram oportunidade de frequentar uma escola. Os delinquentes juvenis confinados nas unidades socioeducativas, verdadeiras escolas do crime, também são vítimas dessa orfandade.

A esse grupo se somam os jovens sem convívio familiar, expostos ao abuso de droga ou em situações marginais. A prevenção da delinquência juvenil requer esforços por parte de toda a sociedade para assegurar as oportunidades educacionais a todas as crianças, visando um desenvolvimento harmonioso, com respeito e promoção da sua personalidade, desde a mais tenra idade.

A prioridade é construir um sistema educacional que promova o ensino dos valores fundamentais e o respeito pela identidade e tradições culturais da criança e pelos direitos e liberdades do ser humano. Nesse sistema, é fundamental a promoção e o desenvolvimento da personalidade cidadã e o estímulo às aptidões e capacidades físicas das crianças e adolescentes.

Para construir o novo sistema educacional, é preciso preparar grande contingente de professores que possam educar as crianças e os jovens do século 21. É importante que essa preparação seja considerada prioridade, principalmente, nas universidades públicas. Para atrair as melhores cabeças de egressos do ensino médio, será fundamental que o professor seja valorizado dentro de uma carreira que estimule de forma contínua a qualidade de seu trabalho.

Os conteúdos deverão ter revisão permanente e ser adequados para o preparo dos estudantes para a vida e para o trabalho. As escolas deverão ser locais agradáveis e equipadas com bibliotecas e recursos modernos da tecnologia de informação e comunicação. Em vez de chata, a escola tem de ser local prazeroso.

A avaliação deve ter como principal objetivo a melhoria da aprendizagem. A gestão deverá ser feita de forma profissional com gestores com formação adequada. A interação da escola com a família deverá ser permanente. 

Se tivermos a coragem e a determinação de ter uma política de Estado para que tenhamos uma educação de qualidade para todas as crianças e jovens brasileiros, estaremos livrando-os da orfandade.

Nesse contexto, é pertinente lembrar o pensamento do filósofo francês Étienne Bonnot de Condillac, que dizia: "O verdadeiro órfão é aquele que não recebeu educação".

Oxalá, possamos, em pouco tempo, eliminar essa orfandade no nosso país.


* Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n.Futuros/CEAM/UnB), presidente do Comitê Editorial da Revista Darcy/UnB e membro tiular de Academia Brasileira de Ciências. Ex-decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, ex-diretor de Avaliação da CAPES, ex-coordenador do Grupo de Trabalho de Educação, da SBPC, ex-sub-secretário de Políticas para Crianças do GDF. Autor, em parceria com Mozart Neves Ramos, do livro A urgência da Educação.


Fonte: Universidade de Brasília - UnB / Correio Braziliense

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes