domingo, 18 de outubro de 2015

Artigo - Como os pornôs afetam os relacionamentos?


Por: Eloane Berto*
Ilustração: Victor Kenji

Em um dos meus passeios cotidianos em grupos feministas, um post me chamou a atenção de forma especialmente dolorosa. Uma moça grávida escreveu, aparentemente em prantos e solidão, que estava se sentindo muito sensível com a gravidez, que olhava no espelho todos os dias e sentia-se feia e gorda. Porém, além disso tudo, sua auto-estima piorou quando viu seu marido vendo pornôs. Essa moça, em uma situação tão romantizada como a gravidez, na qual a mulher sofre tanto com o seu corpo, passou por um episódio que quase toda mulher já passou, se não com a pornografia em si, por meio de outras situações que geram o mesmo resultado: se sentir um nada.

Problematizações do funcionamento da indústria à parte, que serão abordadas em outros textos da semana, quero focar aqui no valor simbólico que a pornografia vem carregando. Esse entretenimento, da maneira como costuma ser produzido, muitas vezes vestido como algo natural e necessário, tem servido como um meio de doutrinação para a manutenção do sistema que divide as mulheres e as torna inimigas, além de colaborar para a visão de que elas são objetos dos homens.

Uma mulher em um relacionamento provavelmente já ouviu o famoso ditado: “Você sabe do que homem gosta, né? Dama na sociedade e puta na cama”. Ela, geralmente com toda a carga de manter o relacionamento sob sua responsabilidade, muitas vezes passa por cima de sua vontade para satisfazer os desejos sexuais do parceiro, pois dizem que, se ela não for “boa” o suficiente, o seu parceiro vai deixá-la. Mas o que é ser “boa”? Afinal, apesar de haver poucas exceções, a representação das mulheres na indústria pornográfica costuma ser da forma mais objetificada possível. As atrizes são colocadas como personagens insaciáveis, têm curvas idealizadas, são muitas vezes totalmente depiladas e, na narrativa dos filmes, acatam a todos os desejos dos homens, como se, mesmo quando estão por cima, agradar o parceiro fosse a finalidade da mulher que é desejável para um homem.

Além de entrar em crise com a sua sexualidade, muitas mulheres acaba encontrando uma velha companheira: a baixa auto-estima. Acreditam que, se o parceiro está vendo pornografia, é porque ela, enquanto parceira, não é o suficiente para ele. Muitas vezes o diálogo nem é cogitado, já que esse parece ser um espaço tão sagrado para os homens, que uma contestação, em muitos casos, seria considerada loucura.

Assim, considerando que o homem está no direito de se “entreter”, o ódio por essa situação tem o alvo errado: a atriz pornô. Porém, ela é mais uma vítima da estrutura de objetificação. Salvo as diferenças e diversidades de casos, muito dificilmente a mulher que entra nessa indústria o faz por vontade própria, tal como a prostituta. Geralmente ela está em uma situação precária gerada pelo mesmo sistema que incentiva a indústria pornô. Essa criação de modelos em que a mulheres se encaixam, faz com que esqueçamos de ver a situação em que a outra está.

Para alguns desavisados, a crítica à pornografia é uma atitude moralista, posto que nega a repressão da sexualidade, mas estes são os mesmos que incentivam a pornografia como se ela libertasse sexualmente a mulher. Isto, no entanto, não é verdade. Nem todos notam, mas é a pornografia que é a moralista por aqui: ele segue um modelo, e aquele dos piores, o modelo machista. O sexo ali é feito para a satisfação dos desejos masculinos, através da sexualização das lésbicas e exploração da mulher. Isso é sexualidade só para um.

Quando passamos por uma situação que nos deixa mal dentro do relacionamento, seja através da pornografia ou outro meio, é um direito nosso questionarmos e conversarmos com o parceiro sobre o que está acontecendo. Não podemos deixar que naturalizações impostas tirem nossas vozes e oprimam nos vontades. Afinal, alguém que é individualista a ponto de se aproveitar dos seus privilégios e não se importar com o bem estar da parceira é realmente adequado para entender o significa ser mulher?

Seria muito fácil falar: “amem seus corpos que tudo ficará bem, você não precisa se importar com isso!”. Porém, é muito claro que não podemos nos basear em uma atitude individual, pois como é possivel que nos amemos se tudo ao redor grita o contrário? Por mais que haja reflexão sobre o porquê de nos sentirmos tão mal com nossos corpos e saibamos todos os motivos disso, fomos tão bombardeadas desde crianças com tantos modelos que, às vezes, temos nossas recaídas, e não devemos ter vergonha disso. Não devemos ter vergonha de nos expressar, seja com o parceiro ou com qualquer outra pessoa. Em um relacionamento em que há respeito, tudo se ajeita. E se não há, temos o direito de exigi-lo.


* Eloane Berto é estudante de Letras e feminista. Envolvida com a filologia, escrita e teatro com um único objetivo: dar voz às mulheres.


Fonte: Blog Lado M

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