segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Aplicativo contra a violência de gênero chega à América Latina


A cada 14 minutos uma mulher é agredida por seu parceiro na Colômbia. Gustavo Mendieta, de 61 anos, se surpreende ao escutar a estatística. “Isso é falta de cultura, de amor”, afirma, enquanto coloca do lado direito do para-brisa de seu carro um telefone que chegou da Índia. Há um mês, a partir das 18h, o aparelho tira fotografias a cada 50 metros, de forma automática.

Ao final da jornada de quatro horas de trajeto, mais de 1.000 imagens resumem como são as noites na capital da Colômbia. Mendieta não conhece muito sobre Nairóbi (Quênia) e Nova Délhi (Índia), mas sabe que nesses lugares também existe alguém, como ele, percorrendo as ruas em busca de identificar quais são as regiões mais inseguras para as mulheres. Ele foi selecionado para participar de um projeto de pesquisa que busca comparar a segurança nessas três cidades. Para ele, é difícil acreditar que, em 2014, 16.000 dos quase 20.000 exames médicos legais realizados por violência sexual na Colômbia foram em mulheres, segundo dados da organização Sisma Mujer. “Parece que aqui não se valoriza a vida”, se limita a dizer, enquanto mostra uma ponte e, mais à frente, um parque por onde as mulheres não deveriam passar.

Segundo dados do Instituto Médico Legal, de 2010 a 2014, 680 mulheres foram assassinadas, outras 16.300 violentadas sexualmente e mais de 53.000 agredidas fisicamente em Bogotá. A rua é um dos cenários mais hostis para elas. Ao menos é o que registra o Safetipin, o aplicativo digital que permite desenhar a rota que Mendieta percorre a cada noite, a partir das informações que os moradores da cidade registram.

Carlota Alméciga Romero, encarregada do projeto, conta que essa é a primeira vez que uma cidade latino-americana busca por meio de fotos e de um aplicativo os lugares mais perigosos. “Nos unimos a Nairóbi e a Nova Délhi porque, apesar de sermos tão diferentes, temos em comum a violência contra as mulheres”. Quatro motoristas (dois deles taxistas) vão percorrer 4.000 quilômetros na capital colombiana até o fim do projeto. Milhares de fotos serão analisadas e será possível saber o que falta à cidade para dar segurança às mulheres.

“Eu digo para a minha filha não andar sozinha onde não tiver bastante luz. Temos que evitar o perigo”, afirma o motorista, que, como taxista, já foi assaltado várias vezes. Diz que nas regiões mais pobres, no sul de Bogotá, são usadas armas brancas (facas, navalhas e canivetes) para provocar ferimentos, enquanto nas zonas de mais dinheiro, no norte, utilizam armas de fogo com silenciador. Sua análise coincide com o que dizem as usuárias do Safetipin.

Os lugares onde se sentem mais inseguras são os parques, as pontes, as construções em obras e os cerca de 200 canais que existem em Bogotá. Vários casos de roubo e violência sexual que ocuparam as primeiras páginas de jornais deixaram suas marcas nesses lugares.

Insegurança potencial

O projeto, cujo custo supera o equivalente a 775.000 reais, é patrocinado pela associação Cities Alliance, que promove o papel das cidades para o desenvolvimento sustentável, e tem a coordenação da Secretaria da Mulher de Bogotá. “Serão identificadas as situações que geram a insegurança, de maneira georreferenciada”, diz a coordenadora da iniciativa.

“Eu me sinto bem porque sei que isso vai servir para alguma coisa”, afirma Mendieta, que, no início do projeto, não entendia muito bem os mapas que deveria seguir. “Não sou muito de tecnologia, nem de me guiar por uma tela”. Mas é o que tem feito, e termina cada noite com vários quilômetros rodados e mais de 1.000 fotos registradas.

Desde que alterna esse trabalho com o de levar e trazer produtos de um lado para o outro durante o dia, não viu um só ato de violência, mas sim muitos lugares onde poderiam acontecer. Por isso, decide desviar um pouco do caminho traçado pelo mapa para se aproximar de um lugar onde tenha boa iluminação para a jornalista que o acompanhou em sua jornada.


Fonte: El País Brasil

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