segunda-feira, 10 de agosto de 2015

ONG quer promover investigação internacional sobre caso Lava Jato


A ONG anticorrupção Transparência Internacional fará uma investigação própria sobre os desdobramentos da operação Lava Jato em outros países do continente.

A iniciativa ocorre num momento em que a Lava Jato despertou a atenção no Peru, após virem à tona indícios de que empreiteiras brasileiras teriam pago propinas para executar obras no país.

A Proética, entidade que representa a Transparência Internacional no Peru, confirmou à BBC Brasil que vai pedir informações a órgãos públicos peruanos a respeito de contratos no país vizinho de empresas brasileiras citadas na Lava Jato.

"Essa iniciativa de caráter regional surge pelo caso da Lava Jato: seções da Transparência Internacional na Venezuela, Guatemala, Argentina, Peru, Panamá e República Dominicana estão se coordenando (para buscar dados) junto com o departamento de Américas da nossa secretaria, em Berlim", informou a Proética por e-mail.

"A informação (coletada) será avaliada e em seguida remetida aos operadores da Justiça no Brasil. Em outros países da América Latina, as seções nacionais da Transparência Internacional farão o mesmo. A informação que buscamos está relacionada às operações dessas empresas brasileiras (diretamente ou através de sucursais ou consórcios) em países latino-americanos que não o Brasil."

"Em cada país onde a Transparência tem uma seção e onde essas empresas atuaram, serão solicitados às autoridades todos os contratos que tiverem, com amparo das leis de acesso à informação", disse o presidente da Transparência Internacional, o peruano José Ugaz, ao serviço oficial de notícias peruano Agência Andina.

Segundo a Agência Andina, a investigação da Transparência Internacional poderia ir além da América Latina, em países como os EUA e no continente africano, "onde empresas brasileiras executaram obras que hoje são alvo de denúncias de suborno".

No âmbito oficial, o procurador-geral do Peru, Fuad Khoury, afirmou na quinta-feira que também vai investigar o caso.

O caso

Vieram à tona nesta semana informações sobre supostos vínculos de empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção na Petrobras e do ex-ministro José Dirceu com a gestão de Alan García, antecessor do atual presidente peruano, Ollanta Humala, e possível candidato à sua sucessão na eleição de 2016.

O congressista Sergio Tejada, ex-aliado de Humala, diz estar apurando os supostos vínculos entre uma brasileira contratada pela empresa JD Consultoria, de Dirceu, empreiteiras e a administração de García.

Implicado por delatores da Lava Jato, Dirceu foi preso na última segunda-feira pela Polícia Federal – entre outras acusações, os investigadores dizem que pagamentos feitos por empreiteiras à empresa de Dirceu seriam de propina.

Tejada publicou no Twitter a suposta agenda de visitas de Dirceu e de sua contratada Zaida Sisson ao palácio presidencial durante a gestão de García. "Há muito a ser investigado", escreveu na rede social. Ele citou supostos encontros de Dirceu, de Zaida e cinco empresários com o então presidente, em 2007.

O congressista Mauricio Mulder, do mesmo partido que García, o APRA, negou que o ex-presidente tenha se reunido com Zaida. "As visitas ao Palácio nem sempre são ao gabinete presidencial. Posso garantir que ela não teve reunião com o ex-presidente", disse Mulder, segundo o site do jornal El Comercio.

De acordo com a imprensa local, Zaida teria visitado o palácio presidencial também no governo de Humala, em 2013, para reunião com a então responsável pelo Organismo Supervisor das Contratações do Estado, Rocío Calderón.

Calderón seria amiga da primeira-dama, Nadine, ainda segundo a imprensa peruana. Quando questionado por jornalistas, na quarta, sobre essa suposta reunião, Humala respondeu que tinha a "impressão" de que querem "afetar uma pessoa" (Calderón).

O Ministério Público local diz já investigar, desde a Operação Castelo de Areia, supostos pagamentos de suborno para a construção da rodovia Interoceânica, que liga Brasil e Peru e foi realizada nos governos de Alejandro Toledo (2001-2006) e de García (2006-2011).

Humala afirmou que "lamenta a situação" que o Brasil está vivendo e que se o caso da Interoceânica atingir funcionários de seu governo, eles também serão investigados.

Em entrevista, nesta quarta, à emissora de rádio RPP, de Lima, Zaida afirmou que seu trabalho para a JD Consultoria, de Dirceu, consistiu no estabelecimento de relações entre as empresas brasileiras com o mercado peruano. Ela negou irregularidades.


Fonte: BBC Brasil

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