domingo, 30 de agosto de 2015

Ludotecas tratam crianças vítimas de violência sexual


Sara, uma garotinha de 4 anos, entra assustada e retraída na ludoteca do Serviço de Atenção a Pessoas em Situação de Violência Sexual (Viver), órgão vinculado à Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA). No pequeno espaço, há brinquedos diversos, fantoches, uma casa em miniatura com os respectivos cômodos e uma família de bonecos.

Aos poucos, a menina vai relaxando e interagindo com os brinquedos e, também, com o psicólogo do serviço. Ela fixa o olhar em um dos bonecos - que no núcleo familiar ali representado exerce o papel de avô - e deixa-o no canto, separado dos demais familiares.

O psicólogo pergunta a razão de ela não querer brincar com o avô. "Ele fez maldade comigo", responde. A revelação é um dos sinais que indicam o abuso sexual sofrido.

A história de Sara é fictícia, mas situações semelhantes passaram a ser cada vez mais comuns no Viver, após a implantação da Ludoteca, inaugurada há 17 dias. Desde então, 33 crianças vítimas de violência, uma média de duas por dia, já foram atendidas no local.

"Diferentemente dos adultos, as crianças, normalmente, não verbalizam o abuso sexual sofrido. Muitas vezes, nem se dão conta de que foi uma violência. Todos estes recursos lúdicos e pedagógicos existentes na ludoteca ajudam as vítimas a se expressar e a interpretar o que lhes teria acontecido", explica o psicólogo do serviço, Wilker França.

Meninas

De acordo com a coordenadora do Viver, Dayse Dantas, 300 pessoas foram atendidas no Serviço entre janeiro e o dia 26 de agosto deste ano. Destas, 252 eram crianças ou adolescentes. A maioria das crianças atendidas tem entre 3 e 9 anos e é do sexo feminino. Já os meninos, entre 5 e 7 anos. O Viver foi criado em 2001.

"Cerca de 70% dos casos encaminhados ao Serviço são relacionados a menores de idade e, pelo menos 90% das ocorrências de violência contra a criança e a mulher, acontecem dentro da própria residência", ressalta Dayse.

Talvez isso explique, em parte, o fato de os responsáveis pelas crianças que sofreram violência resistirem em conceder entrevista ou serem identificadas nessa reportagem.

Doação

A ludoteca do Viver foi doada pelo Instituto Sabin, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), vinculada aos Laboratórios Sabin.

O Instituto criou o Projeto Ludoteca e, desde 2008, financia a implantação desses espaços em diversos estados do país, com o apoio das prefeituras e do governo estadual. O custo médio do Sabin é de R$ 10 mil.

"O nosso objetivo é o de promover uma melhoria nos atendimentos realizados na rede pública voltados a crianças e adolescentes em situação de violência, maus tratos ou negligência", explica o gerente executivo da instituição, Fábio Deboni.

Além do Viver, outros quatro equipamentos do gênero foram implantados em órgãos públicos da Bahia. Um no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), em Barreiras; e três em Salvador, no Hospital Martagão Gesteira, no Tororó; na 2ª Vara da Violência Doméstica e Familiar do Fórum Regional do Imbuí; e no Serviço de Apoio e Orientação Familiar, ambos vinculado ao Tribunal de Justiça da Bahia.

A previsão é de que, em setembro, uma outra unidade seja inaugurada na capital baiana. A ludoteca funcionará na sede da Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional (Cejai), no Centro Administrativo da Bahia (CAB), órgão ligado ao Tribunal de Justiça.

Disque 100 recebe denúncias de crimes ocorridos no país 
O serviço do Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes é coordenado e executado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. 
Por meio da discagem telefônica para o número 100, o usuário pode denunciar diversas formas de violência perpetrada contra crianças e adolescentes. 
O serviço também permite colher informações acerca do paradeiro de crianças e adolescentes desaparecidos, tráfico de pessoas – nesse caso independentemente da idade da vítima – e obter informações sobre os conselhos tutelares. 
O serviço federal funciona diariamente, das 8h às 22h, inclusive nos finais de semana e feriados. 
Todas as denúncias recebidas pelos atendentes são analisadas e encaminhadas aos órgãos de defesa e responsabilização, conforme a competência, em um prazo de 24 horas. A identidade do denunciante é mantida em absoluto sigilo. 
A quem recorrer 
Em caso de suspeita de violência sexual contra crianças e adolescentes, o cidadão pode recorrer ao conselho tutelar, órgão criado para zelar pelo cumprimento dos direitos infanto-juvenis.
A ele cabe receber a notificação e analisar a procedência de cada caso, visitando as famílias. Se for confirmado o fato, o conselho deve levar a situação ao conhecimento do Ministério Público.
Em município onde não há conselhos tutelares, as Varas da Infância e da Juventude podem receber as denúncias.
Outros órgãos que também estão preparados para ajudar são as Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente e as Delegacias da Mulher.
Romper o silêncio
Na página que mantém na internet, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil registra que “é preciso romper com o pacto de silêncio que encobre as situações de abuso e exploração contra crianças e adolescentes. Não se pode ter medo de denunciar. Essa é a única forma de ajudar esses meninos e meninas”.

Fonte: A Tarde

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