domingo, 26 de julho de 2015

Violência doméstica expõe a mulher a um inimigo íntimo


No dia em que mais "temeu pela própria vida", C. 36, amamentava a filha de 10 meses na sala de casa quando, às 23h, o marido, que passou o dia dormindo, saiu do quarto e os dois iniciaram uma discussão. Depois de esmurrar um guarda-roupa e quebrar um copo, o agressor chegou à sala e cuspiu no rosto dela. Ele pegou uma faca e a ameaçou. "Pode ficar tranquila que você vai fazer uma visita para a sua mãe no inferno."

O relato de C. é sobre o pior dia nos 20 anos de casamento com o pai dos seus dois filhos. Nessa data, há um ano e meio, a técnica de enfermagem de Campinas decidiu colocar um ponto final no casamento com o agressor, mas, até tomar essa decisão, sofreu por oito anos e meio com dezenas de ataques de fúria do marido, com quem tem dois filhos, uma menina de 2 e um menino de 10 anos.
Não há estatísticas oficiais que apontem a quantidade de mulheres que retornam a viver com os autores de violência após a primeira agressão ou que continuam casadas sem denunciá-los, mas profissionais do meio relatam que esses casos são numerosos e que o silêncio diante das agressões aumenta o risco de lesões e ataques ainda mais graves, colocando em risco a vida dessas mulheres.
No Estado, entre janeiro e maio deste ano, foram registrados 41.376 casos de homicídio doloso, tentativa de homicídio, lesão corporal dolosa, maus tratos, ameaça e danos contra mulheres, o equivalente a 11 episódios de violência a cada hora.
DEPENDÊNCIA
As vítimas não conseguem quebrar o ciclo de violência por diversas razões, segundo elas e profissionais que as auxiliam: dependência emocional, dificuldade em abrir mão do convívio com amigos e parentes e dependência financeira são alguns dos argumentos usados pelas mulheres.
A delegada da DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Campinas, Lícia Couto Lustosa Cordeiro, explicou que há fatores na violência doméstica que, se não impedem, dificultam a saída da mulher de casa. "O casal tem um convívio, uma família, um patrimônio, tem uma vida. É uma situação que envolve os filhos. A pessoa às vezes quer acreditar que isso não vai mais acontecer."
Em casos de agressão, explicou a delegada, quando há marcas aparentes de violência, a vítima só precisa registrar um boletim de ocorrência para que se instaure um inquérito policial e em decorrência um processo. Quando a investigação corre à revelia da agredida, Lícia relatou ter dificuldades na continuidade do caso.

"É difícil, a vítima às vezes se recusa a fazer corpo de delito, você intima e ela não vem. Se a mulher não quer, como investigar um crime sem a identificação da vítima? Cria-se uma dificuldade", afirmou.

A delegada ainda explicou que a formação cultural e o "costume" às agressões dificultam para que a mulher se convença a denunciar o marido.
"Às vezes ela apanhou 30 anos, acha aquilo normal. Mais do que a punição (pelo crime), a mulher deve se proteger (ao denunciar)", disse a delegada. Ela acrescentou que o correto é se separar para evitar futuras agressões.


Fonte: Portal TodoDia

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