domingo, 28 de junho de 2015

Jovem niteroiense faz sucesso no YouTube quebrando tabus sobre corpo feminino

Não tira o batom vermelho parece nome de tutorial de blog feminino. Mas a youtuber Jout Jout, de 24 anos, aparece em frente à câmera sem maquiagem e sem roteiro, falando sobre relacionamentos abusivos e - contrariando Tom Jobim - dizendo que "não é impossível ser feliz sozinho".

Em outro vídeo, ela explica como usar um "coletor menstrual" - um copinho que substitui o absorvente. Também já apareceu dizendo que as mulheres não precisam ter vergonha de soltar 'pum vaginal' ou fazer cocô quando o namorado está no quarto ao lado, e que masturbação "é coisa de mulher do bem".

"Destabulizar" (tirar o tabu de) é palavra-chave no vocabulário de Jout Jout, como é conhecida a niteroiense Julia Tolezano. Seu canal no YouTube, com vídeo feitos de forma engraçada e direta, já tem mais de 150 mil inscritos.

"Não é uma coisa super pensada, do tipo 'tem um tabu, vou 'destabulizar'. Ou, 'preste atenção que vou quebrar um tabu agora!'", diz a jovem em entrevista à BBC Brasil.

"Para mim, é um jeito de falar sobre aquilo que para mim é natural - afinal, todos fazemos cocô. Na minha vida não é tabu, mas como as pessoas não falam disso, vira tabu."

'Tira esse batom'

O vídeo que tornou Jout Jout mais conhecida era um mais sério, sobre relacionamentos abusivos. Não tira o batom vermelho, feito a partir de depoimentos de usuários de redes sociais, teve mais de 700 mil visualizações e deu origem à hashtag #naotiraobatomvermelho, que se tornou trending topic no Twitter.

"Ele já mandou você tirar o batom porque você estava com cara de p**a com esse batom vermelho? Ele já sacudiu um guardanapinho na tua cara, 'tira esse batom'?", diz no vídeo.

"Você não precisa estar com alguém pra ser uma pessoa feliz, você pode estar só com você. A gente fica ouvindo essas músicas brasileiras que nos dizem que é impossível ser feliz sozinho (como na letra de 'Wave', clássico de Tom Jobim). Não é impossível ser feliz sozinho. Inclusive só é possível ser feliz com alguém quando você consegue ser feliz sozinho. Uhhh, arrasei agora", diz ela, rodopiando em frente à câmera.

Julia afirma que a reação aos vídeos costuma ser positiva. A maior parte dos comentários são de pessoas que se identificam com os temas - inclusive homens. Ela estima que apenas "0,05%" dos comentários sejam do tipo "garota nojenta, sai daqui".

Julia conta, no entanto, que demorou um pouco para resolver "dar a cara a tapa" e lidar com os comentários. Quando o canal começou, ele não era público exatamente porque ela não queria enfrentar a reação dos outros. "Estava numa fase em que não queria mostrar o que fazia, porque as pessoas podiam não gostar."

Mas, com força de uma amiga, decidiu abriu o canal, há cerca de um ano.

Feminismo

E foi aos poucos também que ela se deu conta de que, ao confrontar abertamente vários tabus sociais, estava participando ativamente da luta por igualdade dos sexos.

"Antes, eu dizia que não era feminista nem 'não feminista', não queria levantar bandeira. Mas desde então tenho lido tanto sobre o assunto que percebi que sou, sim, feminista, o que significa basicamente querer que homens e mulheres tenham direitos iguais", diz Julia. No mês passado, ele participou de um TED Talk promovido, entre outras organizações, pela ONU Mulheres.

Esse processo é muito comum, de acordo com Lola Aronovich, autora do blog feminista Escreva Lola Escreva. Para ela, o feminismo ganhou uma conotação negativa a partir da década de 1980, que classifica de conservadora, após um período de avanços nas duas décadas anteriores.

"A primeira defesa, para muitas mulheres, é dizer que 'não sou feminista', por mais que sejam. Ela não quer o rótulo. Acho isso absurdo, porque é você se deixar definir pelo que o inimigo fala de você e do feminismo", afirma.

"Mas a definição que os detratores fazem não corresponde à realidade do que é: em linhas muitos gerais, ser a favor da igualdade entre gêneros, lutar contra opressões, combater preconceitos", completa.

O amplo interesse pelo canal de Jout Jout pode decorrer justamente da curiosidade e vontade de combater preconceitos e confrontar tabus.

A antropóloga Mirian Goldenberg, da UFRJ, considera que o silêncio sobre o corpo feminino é fruto de uma "cultura repressora que foi completamente internalizada pelas mulheres".

"O corpo da mulher é tratado como um capital, uma riqueza. É um corpo voltado para a sedução, e é um determinado corpo que seduz: jovem, magro, sexy. Todas essas coisas que perturbariam, criariam um ruído na imagem, acabam sendo evitadas", afirma.

Essa repressão também causa problemas sexuais, acrescenta Goldenberg. "Elas têm mais dificuldade de ter prazer, porque quando vão para a cama estão pensando em milhares de coisas relacionadas ao corpo: se estão gordas, flácidas, no cheiro, na depilação", afirma. "A última coisa que ela pensa é no prazer dela."

Política e meleca

E sobre o que Julia não falaria? Política e... meleca.

"Costumo não falar muito sobre coisas que não sei falar, tipo política", afirma.

"E não gosto muito de falar de meleca. Acho meleca demais para mim, acho feio de falar, não sei o que tenho com meleca. É uma coisa que tenho que melhorar em mim. Acho que é a única vergonha que eu tenho", confessa.


Fonte: BBC Brasil

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