domingo, 28 de junho de 2015

Diante da crise, governos de esquerda ganham espaço na América Latina e Europa

Juan Carlos Monedero, professor de Ciência Política na Universidade Complutense de Madrid e anteriormente assessor do Centro Internacional Miranda de Caracas, acompanha o Podemos [hoje, principal partido de extrema esquerda da Espanha] desde o seu nascimento, em janeiro de 2014, e faz parte do grupo de politólogos, que, juntamente com Pablo Iglesias, deu vida à formação que tem transformado a política espanhola nos últimos dois anos e conquistado a histórica eleição das novas prefeitas de Barcelona e Madrid.

Em seu artigo "A filosofia política do socialismo no século XXI” (2012), Juan Carlos Monedero considera que o socialismo no século XXI necessita articular bases compartilhadas que permitam ir construindo referenciais teóricos. Para cimentar referenciais científicos acerca do socialismo faz falta precisar alguns lugares compartilhados, se bem, ao configurar o socialismo como uma proposta normativa, esta tarefa se torna, certamente, complicada. Tentando superar as dificuldades, faz falta, em primeiro lugar, uma definição do que seja o socialismo. A possibilidade de pensar o socialismo passa por uma reconsideração da natureza humana e por uma construção de uma linguagem diferente, sustentada em práticas diferentes. Em terceiro lugar, é preciso deter-se no papel do Estado, lugar essencial, junto à participação, ao impulso da sociedade socialista (a construção de um Estado comunitário é, portanto, uma aposta radical). Em quarto lugar, é necessário precisar quais são os elementos que devem articular esse socialismo e em que se diferencia das práticas do socialismo no século XX (com uma enuncição dos seus acertos e erros, do papel do novo sujeito plural e dos problemas que implica um suposto "socialismo científico”). Por último, está pendente estabelecer quais são os valores que há por trás do que seja o socialismo no século XXI. Nada aporta construir um marco teórico autoalimentado, que não se confronte com os marcos teóricos que, supostamente, sustentam as petições políticas de superação do modelo socialista (1).

Esta entrevista exclusiva com o professor Juan Carlos Monedero evidencia a força de novas experimentações sociais e políticas para governar a partir de um processo de mudança, que une a América Latina e a Europa, como destaca Samuele Mazzolini, analista político da Presidência da República e em Senplades – Secretaria Nacional de Planejamento e Desenvolvimento (Equador): "A capacidade do Syriza [partido de extrema esquerda vitorioso na Grécia] e o Podemos de irem mais além da administração do punhado de votos da esquerda radical sancionam, de maneira definitiva, a validade do populismo e das reflexões que o inspiram. A lógica de construção de relatos nacional-populares, capazes de interpelarem o povo a partir de suas demandas sociais concretas é, crescentemente, reconhecida também na Europa como a única forma política para voltar à disputa hegemônica, da qual a esquerda tem sido excluída pelo neoliberalismo. Para o pensador argentino Lacau, não poderia ter havido maior recompensa por seus esforços intelectuais do que a existência e o êxito de forças como o Syriza e o Podemos, no contexto mais recalcitrante para acolher suas estratégias políticas” (2).

Qual é o papel dos intelectuais?

Há o risco de que os acadêmicos não toquem com as mãos na realidade. É preciso refletir sobre o processo emancipatório. Identificamos dificuldades estruturais para transformar as realidades, mas permanecemos parados.

Que papel tem o Estado em sua relação com o direito à Cidade?

O sistema capitalista ultrapassou os limites. O direito à cidade tem virtudes porque permite construir alternativas, concentrar esforços em um lugar em que podemos definir que o direito à cidade é um conjunto de lutas que estão, hoje, vigentes, é uma riqueza coletiva que construímos entre todos.

O direito à cidade rompe o esquema neoliberal e estabelece uma leitura nova, rompe a separação entre direita e esquerda, é preciso ir mais além da classe operária. A construção da cidade é um processo coletivo, recordando a corresponsabilidade fiscal de todos e também dos ricos com a cidade.

Hoje, é possível identificar alguns erros da esquerda atual, como, por exemplo, o paternalismo do Estado. Necessitamos construir novos sujeitos de corresponsabilidade dos direitos, é preciso repensar o papel dos partitos políticos. É preciso refletir entre o direito à cidade e a impugnação do Estado. Considero que seja um erro tratar de mudar o mundo sem tomar o poder.

Foi simbólico o desmantelamento do Estado social com o presidente Salvador Allende, no Chile. É necessário manter a estrutura do Estado, que gestione toda a especificidade de um Estado, acompanhado pela experimentação social, que buscam novas soluções, não há desenho prévio. Existe uma crise civilizadora e, por isso, temos que nos mover com a experimentação social, juntamente com o aparato do Estado, nessa direção é evidente que com o Podemos aprendemos sobre a América Latina.

Qual é a proposta política do Podemos?

Criamos o Podemos pelo risco da latino-americanização da Espanha, no sentido de repetir o vendaval neoliberal dos anos 1980, que tem impedido a democracia na América Latina. Não aceitamos a precariedade trabalhista dos jovens. Foram incrementados os mecanismos de repressão, se estigmatizaram os protestos, as periferias. Devemos reconstruir a democracia. Em particular, o papel das empresas dos meios de comunicação, falávamos sobre o quão tão mal iria Petro [Gustavo Petro, prefeito de Bogotá, Colômbia], mas Bogotá está em pé de guerra para construir a mudança.

Resolver a partidocracia explica o nascimento do Podemos: é importante a renovação da participação política, em que a representação política não esgotava e conseguimos a histórica vitória nas Prefeituras de Barcelona e Madrid (há 23 anos, gobernava a direita).

As desigualdades estão rompendo o pacto social. Em nossas ciudades, as pessoas não têm moradia, não têm teto, não têm oportunidades.

Para entender esta crise, é preciso analisar a derrota dos anos 1970, do modelo Keynesiano, quebrou e entrou o sistema neoliberal, no qual se propõe uma sociedade neoliberal como guerra do indivíduo contra outros indivíduos, assim se dinamita a possibilidade de mudança, com redes que irritam o poder.

É preciso entender, profundamente, o pensamento neoliberal da cultura, que considera que o privado é melhor do que o público.

Como os novos movimentos sociais dos indignados disputam o poder?

Em um novo contexto de dívida e desemprego, os novos movimentos vêm disputar o poder com os partidos políticos tradicionais mudando o eixo das propostas. O Podemos, continuando o recurso colocado em andamento pelo movimento indignado (o 15M), mudou o discurso e ao invés de falar de crise falou de estafa; ao invés de enfrentar os cidadãos, assinalou aos banqueiros e aos políticos assimilados pelo poder financiero, acusando-os de serem uma ‘casta’ distante da democracia e inimiga do povo. Ao invés de assumir, acriticamente, tudo o que vinha da Europa, acertou em entender que a Europa, agora mesmo, está nas mãos de grupos de interesse, que velam por seus próprios interesses e os das grandes corporações.

Você considera que é preciso defender o Estado Social e construir novos modelos civilizatórios, como sustenta Boaventura de Sousa?

Para poder reverter a maquinaria eleitoral na Espanha, a única solução é rearmar com os movimentos sociais novas condições, em que apelamos à cidadania pela mudança.

Este processo votou Margaret Tatcher para derrotar o Estado Social – Welfare State.

Necessitamos de modelos civilizatórios diferentes. Na Espanha, temos a esperança da reconstrução democrática que o Movimento dos Indignados 15M começou a perguntar sobre a democracia representativa porque não me representa. Há a possibilidade de novas sociedades, como contra o fascismo nos anos 1930.

O desafio é desafiar a economia, que impede fazer políticas contra a fome, que causa a queda da esperança de vida. Se os povos não têm consciência do desafio, é necessário ganhar na rua.

Há o desafio de medidas ambientais, que o povo não assume, como é o caso da Yasuni-ITT no Equador, porque os povos não têm uma consciência global da mudança.

Gostei da sua intervenção, no último dia 03 de março de 2015, convidado por Joachim Rücker, presidente do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas no Painel de Alto Nível sobre o fortalecimento da cooperação internacional no âmbito dos direitos humanos.

Você afirmou: "Me perguntei acerca da validade universal dos direitos humanos em um mundo onde opera uma clara dupla vara de medir. Ainda mais quando os países que definem esses direitos a partir do "norte global” são os países que, sistemáticamente, os violan tanto dentro das suas fronteiras (fomentando as desigualdades com políticas de ajuste) como fora das mesmas (através de formas de neocolonialismo ou neoimperialismo).

Seguindo a análise de Boaventura de Sousa Santos, propus complementar a definição dos direitos humanos a partir de outras propostas, que também pretendem contribuir para articular uma ideia ampla da dignidade humana. Situando-me em um "otimismo trágico” (na expressão de Juan José Tamayo), procurei distanciar-me de algumas intervenções excessivamente otimistas, que não se compadecen com um mundo – no qual o modelo capitalista é hegemónico –, onde dois terços da humanidade são desnecessários por não serem relevantes nem como produtores nem como consumidores.

Finalmente, propus uma série de desafios que, se forem superados com êxito, permitirão que a aplicação dos direitos humanos sirva para superar os obstáculos que constróem, atualmente, o "caos mundial”. A complementariedade, nesse cenário – e tal como está se tentando com a cooperação sul-sul – estará acima da competitividade – o modelo que prima na Europa. A cooperação em direitos humanos, longe de ser uma desculpa para que alguns países exerçam privilégios sobre outros, poderá atuar, então, como uma base de convivência planetária, tanto para todos os seres humanos como para as gerações futuras e, inclusive, para a natureza (uma herança que os filhos deixam para os pais, como diz a sabedoria indígena).

Só a partir de uma compreensão humilde dos direitos humanos – que abra as fontes de definição da dignidade humana a âmbitos como a filosofia, as teologias progressistas e as concepções de mundo que o modelo neoliberal dá como mortas – e que situem as causas das desigualdades no coração do problema, será possível sua verdadeira universalidade. Superá-las não será uma mera tarefa dos Estados, mas que formas de participação democrática popular devem acudir em sua reformulação. Será, precisamente, longe da arrogância das definições oficiais que poderemos acudir a uma verdadeira condição dos direitos humanos, que trabalhe para ampliar e aprofundar a dignidade humana” (3).

Como aterrizar essa dignidade na construção do direito à cidade?


A primeira luta é contra a corrupção. Para uma cidade alternativa, é necessário frear o saque e a corrupção, mais além das etiquetas ideológicas tradicionais.

No programa do Podemos propomos os Conselhos Cidadãos de igualdade, nos quais a sociedade civil faz propostas não consultivas, mas impositivas com relação ao governo.

Outro ponto é a reconstrução econômica da ciedade.

Os resgates cidadãos se fundam no artigo nº 25 das Nações Unidas sobre o direito a satisfazer as necessidades básicas, o povo não pode estar em situação de fome, por isso propomos a renda básica de cidadania.

Serve uma reconstrução ecológica das cidades.

Propomos cartões médicas para migrantes sem documentos.

Outro ponto é a des-mercantilização da cidade; por exemplo, em Lima, os jovens elaboraram muitos grafites como presente para a cidade durante o mandato da prefeita Susana Villaran e o novo prefeito os apagou.

Dentro do direito à cidade, a mulher no âmbito europeu e também latino-americano deve encontrar espaços de reivindicação, os cuidados são responsabilidade coletiva.

Na Espanha, existe a experiência de Donosti, perdeu a eleição com o maior investimento social do país, não conseguiram explicar bem os avanços, tiveram má comunicação. Por isso é preciso comunicar e explicar bem a mensagem de mudança.

(1) Revista de filosofía, ISSN-e 0798-1171, Vol. 72, Nº. 3, 2012, págs. 37-84
http://dialnet.unirioja.es/servlet/autor?codigo=43984
(2) http://www.telegrafo.com.ec/opinion/columnistas/item/ernesto-laclau-un-ano-despues.html
(3) http://www.comiendotierra.es/2015/03/08/intervencion-de-juan-carlos-monedero-en-naciones-unidas/


Fonte: Adital

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes