segunda-feira, 1 de junho de 2015

Congreso dos Povos: ‘queremos a articulação e unidade contra o capitalismo’

Na Colômbia, ao redor de 25% de toda a população é campesina (5 mihões e 600 mil pessoas, 2 milhões e 400 mil dos povos originários e 4 milhões de afrodescendentes, de um total de 12 milhões de habitantes da zona rural colombiana).

Ricardo Herrera é dirigente e líder campesino. Há 23 anos, decidiu vincular-se à luta campesina e dos povos originários, dos afrodescendentes, das organizações sociais e populares do Departamento de Antioquia, na Colômbia, em uma zona cafeeira. "Ali,comecei com a cruação da Associação Campesina de Antioquia, entre 1992 e 1993. Logo já nos demos conta de que era preciso construir uma organização campesina em nível nacional e, em 1995, nasceu o Coordenador Nacional Agrário da Colômbia. O CNA é um agrupamento em torno do qual nos articulamos muitas organizações de diferentes regiões do país. Assim também sou um porta-voz do Congresso dos Povos, www.congresodelospueblos.org

Qual é o objetivo do Congresso dos Povos?

Edificar uma proposta para o campo colombiano baseada na luta pela terra, o território, a reforma agrária; a soberania alimentar, política e cultural; a solução para o conflito social e armado; a luta contra os cultivos de uso ilícito, como a coca, a maconha e a papoula; pela defesa dos direitos dos camponeses/as e o reconhecimento político do campesinato colombiano, que não existe por parte do governo nem do Estado. Em nenhuma parte, se referencia o camponês/a como um sujeito social e político, nem seu aporte substantivo para a produção de alimentos para a humanidade.

O que é o Congresso dos Povos?

Um processo social e político amplo, convergente e articulado por associações agrárias de povos originários, afrodescendentes, estudantes, mulheres, operários, moradores/as urbanos, jovens, crianças, migrantes, gente da dissidência sexual, ambientalistas, etc. Já é um complexo mais participativo e integral que apenas o campesinato em luta. O Congresso dos Povos transcende as fronteiras da Colômbia. Trata-se de uma proposta para os povos do mundo. Continuamos com a América Latina e mais além. Já estamos com parte do povo espanhol, francês, suíço, canadense, estadunidense, mas nunca com os governos. Com a Ásia, Oriente Médio e África ainda o idioma nos dificulta a unidade. Compreendemos o combate em nível planetário de todos/as aqueles/as que temos sido submetidos/as pelo patriarcado, pelo imperialismo, pelo capitalismo, por aquela minoria que viola todos os nossos direitos como pessoas, seres humanos e povos.

Mas, por exemplo, a resistência heróica do povo do Saara Ocidental na África do norte (https://comitesaharaui.wordpress.com/) carece de dificuldades idiomáticas para fazer parte desse empenho, considerando que falam tanto árabe como espanhol…

Pois então, seria muito importante que pudéssemos ter um relacionamento mais direto com o povo saarauí! Entendemos a solidariedade como o entendimento e a irmandade com a dor do outro/a: dar o que o outro necessita e não o que nos sobra.

"O capital não respeita a vida, nem os princípios, nem a solidariedade”

Qual é o projeto estratégico do Congresso dos Povos?

Construir uma nova sociedade, anticapitalista e socialista. Uma sociedade em que sejam respeitados os Direitos Humanos e capaz de criar uma vida digna para a humanidade. A questão é como melhoramos as condições de vida de todos/as os habitantes do mundo.

Qual a sua avaliação sobre o Congresso dos Povos como contradição essencial desta era, o capitalismo versus a humanidade?

Consideramos que nossos direitos foram quebrados e que os serviços se converteram em uma mercadoria controlada pelo capitalismo. O capital não respeita a vida, nem os princípios, nem a solidariedade. A primeira coisa que nós buscamos é que seja respeitada a dignidade humana. Por exemplo, para nós, o direito fundamental à água é um bem comum, enquanto que, para o capitalismo, a água é só uma mercadoria a mais, inacessível para boa parte dos nossos povos. Nós queremos um projeto humano e o capitalismo um mercantilista.

Os cristãos/ãs

E o que ocorre com os cristãos/ãs pela libertação? Têm lugar no Congresso dos Povos?

Do interior do Congresso participa a Coalizão de Movimentos Sociais e Cristãos da Colômbia.

E do Brasil, peça chave na América Latina?

No Brasil, mantemos uma importante coordenação com o Movimento dos Sem Terra (http://www.mst.org.br/), o Movimento de Pequenos Agricultores (http://www.mpabrasil.org.br/), o Movimento contra as Represas. Nestes agrupamentos, existe um enorme território cristão.

A coordenação posta em prática

O que faces aqui, Ricardo, em Santiago do Chile, reunidos agora mesmo a 10 minutos do La Moneda e a duas ruas da Estação Central, em plena Avenida Alameda?

Estou em uma missão que busca tornar visível e referenciar o processo do Congresso dos Povos ante as organizações sociais e populares do Chile. Viemos a expressar nossa irmandade como povos oprimidos e a necessidade da unidade para a libertação. Viemos aprender, intercambiar, conhecer nossas respectivas experiências, e convidá-los a visitarem nossos territórios. Viemos compartilhar os meios e formas de comunicação, que falem a partir dos nossos próprios povos e seus interesses. Queremos construir agendas de mobilizações concretas entre povos irmãos e realizar campanhas em que se manifeste a oportunidade da criação prática de uma sociedade pós-capitalista. De fato, podemos coordenar uma grande campanha pela defesa da água em nossos distintos territórios; contra as grandes transnacionais, que expoliam e saqueiam nossos recursos; pelo direito à autonomia e independência dos nossos territórios.

O internacionalismo está no centro de sentido do Congresso dos Povos…

O internacionalismo, para nós, significa a colocação em prática dos nossos objetivos. Compreendemos a solidariedade como reciprocidade e sintonia política, econômica, cultural, social, concretas.

Quais são os inimigos principais dos povos da América Latina?

Não só o imperialismo norte-americano. A exploração e o saque provocado pelas transnacionais de qualquer procedência também são. Para nós, a China tampouco é nenhuma alternativa porque seus interesses na região não buscam nosso bem comum. Aqui vemos uma disputa mundial em nível comercial: sejam Estados empresariais, como o estadunidense, o chinês, o europeu.

"Queremos governar

Qual é a inspiração primeira do Congresso dos Povos?

Os povos originários. Aqueles/as irmãos/ãs indígenas que concluíram que sozinhos não podem fazer frente a inimigos tão poderosos. Eles/as tomaram a iniciativa desse empenho, que se tornou tão amplo. E, na última década, na Colômbia, as distintas organizações em luta concluíram que, únicamente, a unidade mais ampla dos povos é a força que demandam as transformações necessárias.

O que ocorre com o poder político para o Congresso dos Povos?

O movimento do Congresso dos Povos está em construção e é social e político. Somos agrupamentos sociais que arrancam da reivindicação, mas aspiramos a ser poder, a construir poder popular. Inclusive, a luta eleitoral, pelo menos na Colômbia, é um cenário mais de disputa de poder. Queremos governar. Mas todo dirigente que chegue a um espaço de poder institucional deve estar absolutamente subordinado ao movimento popular, às suas propostas e aos seus interesses. E não pode ser qualquer dirigente. Tem que haver ganhado sua autoridade no seio do movimento popular, conduzindo-se pela ética que exige a transformação social radical. Do contrário, esse dirigente simplesmente tem que deixar seu cargo. Jamais apoiaríamos um candidato do sistema de partidos políticos dominante e que não provenha, destacadamente, da nossa própria construção social e política.

"A paz é assunto de todos/as e os povos a constroem

O que ocorre com os Diálogos de Paz entre o Governo de Santos [presidente colombiano, Juan Manuel Santos] e parte da insurgência na Colômbia, que se desenvolve em Havana, Cuba?

O Congresso dos Povos está buscando a paz na Colômbia. Isto é, resolver os problemas estruturais que são os causantes de que haja guerra em nosso país. A insurgência armada poderá deter sua ação, mas a violência saída do terrorismo de Estado pode continuar. Se não participa o povo colombiano dos diálogos de paz, perdurará a violência. Nós valorizamos muito que esteja acontecendo os diálogos entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP, http://www.pazfarc-ep.org/) porque o nosso povo é que são as vítimas da guerra.

O povo colombiano faz parte dos Diálogos de Paz?

Poderíamos dizer que em parte sim, porque a insurgência armada corresponde a uma fração do povo em seu conjunto. Agora, nós também estamos exigindo do governo que convoque as guerrilhas do Exército de Libertação Nacional (http://www.patrialibre.info/index.php/es/).

E por que o ELN não está na mesa de diálogo?

O governo parece considerar que tem as FARC-EP tão debilitadas que lhes está ‘oferecendo’ uma ‘possibilidade de submissão’. E sobre o ELN, o governo diz que ‘não influi nem contribui”. Na realidade, ouvimos diariamente a ação do ELN. O movimento popular assinala que se o governo se sentar com a insurgência armada para a paz, que seja com toda, do contrário já é um cenário incompleto. Mas, sobretudo, no Congresso dos Povos, estimamos que nenhum conflito do mundo em que existe a guerra, as pessoas que habitam os territórios mais afetados podem deixar de participarem de algum diálogo que, realmente, busque a paz verdadeira e duradoura. Tem que haver participação direta do povo colombiano, tanto dos organizados como dos não organizados. A respeito, o problema se reduz à vontade política genuína do governo.

O que tem manifestado o ELN através de suas declarações públicas?

Enquanto o Governo de Santos dita que o modelo econômico não será alterado no país, o ELN se nega ao extrativismo destrutivo, por exemplo.

Poderia se afirmar que na mesa de diálogo o governo está pedindo a rendição incondicional da insurgência?

Sim.

Qual é a esperança do Congresso dos Povos nos Diálogos de Paz, então?

Uma esperança ‘de baixa intensidade’. O presidente Santos deseja que a Colômbia, sob a intensificação do atual modelo capitalista antipopular, ingresse na lista dos cinco países mais ricos do mundo. E, para isso, é preciso cumprir certos requisitos, claro. Que haja mais investimento transnacional através da paz social sem participação popular. Esta é a paz de Santos: desmobilizar e desarmar a insurgência.

E o que pensas que está ganhando a insurgência na mesa de diálogo?

A possibilidade de interagir e de se expressar. Fenômenos dos quais carecia antes dos Diálogos de Paz, em Havana, Cuba.

Mas o Governo de Santos também ganha notoriedade mundial…

Certamente. Aparece como um governo que quer a paz.

Qual é a diferença substantiva entre o ex presidente Álvaro Uribe e Juan Manuel Santos?

Que Uribe quis expropriar o povo pela força e militarmente, e Santos quer fazer isto juridicamente. Santos quer legalizar a ocupação de 9 milhões de hectares que, no Governo de Uribe, foram arrebatadas pelos paramilitares. Santos foi ministro da Defesa de Álvaro Uribe. O modelo se mantém incólume e idêntico. Todo o plano de desenvolvimento aprovado este ano está focado no extrativismo: no saque dos nossos recursos e bens naturais. Pelo demais, Santos fala de paz enquanto segue comprando armas para a guerra.

O que é a paz para o Congresso dos Povos?

Justiça social. Qualquer ocorrência de injustiça é violatória dos nossos direitos. A paz é assunto de todos/as e a constroem os povos. O desfrute de tudo para todos/as. A paz é um estado de satisfação que obtém o ser humano ao ter resolvido seus problemas e necessidades.

Contato

internacional@congresodelospueblos.org
comunicaciones@congresodelospueblos.org
www.congresodelospueblos.org


Fonte: Adital

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