segunda-feira, 25 de maio de 2015

São Gabriel e seus demônios: mistério em torno de suicídios em município indígena – PARTE I

Faz pouco mais de dois meses que ela se foi, um dia antes do seu aniversário. Maria – vamos chamá-la assim – completaria 20 anos em 02 de março. Ninguém diria que não era uma indiazinha como tantas que colorem as ruas de São Gabriel da Cachoeira, município no noroeste do Amazonas, às margens do rio Negro. Era baixinha, os cabelos negros sobre os ombros, as roupas justas, chinelo de dedos. Mas Maria estava ali só de passagem. No seu enterro, os parentes contaram que tinham vindo rio abaixo para passar o período de férias escolares, quando centenas de indígenas de diversas etnias deixam suas aldeias e enchem a sede do município para resolver pendências burocráticas. Ali na cidade, ela arrumou namorado, um militar, e passava os dias com ele, quando não estava entre amigos. Mas, nos últimos dias, Maria andava triste: o casal havia rompido o namoro. Estava estranha, nervosa. Os parentes contaram que chegou a ter alucinações.

Os pais tinham achado bom o fim do namoro. Ninguém chegou a conhecer de perto o tal soldado. Nunca conseguiram ver o seu rosto porque, segundo contaram, quando ele vinha ao bairro do Dabaru, um dos mais pobres do município, onde a família morava, numa espécie de vilazinha com casas coladas umas nas outras, ele sempre se escondia nas sombras formadas pela parca iluminação. Tinha o rosto coberto pelas trevas da noite. Era branco? Era preto? Era gente?

Na madrugada de sábado para domingo, dia 1º de março, depois de ter passado a tarde e o começo da noite com o irmão mais velho e amigos bebendo na praia do rio, Maria começou a se transformar de vez. Estava agressiva. Os olhos já não eram os dela, contou o irmão, reviravam e mudavam de cor enquanto ela gritava que os pais não gostavam dela, que era ele o filho predileto. O irmão ainda arrastou Maria de volta, mas, quando chegaram em casa, os pais não conseguiam enxergá-la. No lugar dela, viam apenas algo escuro, uma sombra. Um ser da escuridão. O pai não pôde nem levantar da rede no pequeno quarto que dividia com os filhos. Ficou chorando, atônito. Maria entrou no quarto ao lado, bateu a porta. Não conseguiram abri-la, embora não estivesse trancada. Por uma fresta, viram quando ela amarrou uma corda e se enforcou. No momento seguinte, contam, a porta finalmente abriu. Ela já estava morta.

Maria é a vítima mais recente de uma tragédia assombrosa que se repete com enredo semelhante há pelo menos 10 anos em São Gabriel da Cachoeira e que foi traduzida em números pelo Mapa da Violência 2014, da Secretaria-Geral da Presidência da República. De acordo com o relatório baseado em dados do Sistema de Informação da Mortalidade do Ministério da Saúde, São Gabriel é o recordista nas estatísticas de suicídio por habitante dos municípios brasileiros. Em 2012, foram 51,2 suicídios por 100 mil habitantes – 10 vezes mais do que a média nacional. Isso corresponde a 20 pessoas que se mataram, mais ainda do que no ano anterior, quando foram 16 suicídios.

São Gabriel é também o município mais indígena do Brasil. As 23 etnias que há pelo menos 3 mil anos ocupam as margens do rio Negro e de seus afluentes correspondem a 80% da população. Hoje, os cerca de 42 mil habitantes se dividem entre a área urbana – ocupada a partir da margem do rio desde a fundação do forte São Gabriel pelos portugueses, em 1761 – e as centenas de comunidades espalhadas pelo interior da floresta, algumas a dois ou três dias de barco dentro do maior mosaico de terras indígenas do país, com 100 km² de área. Um território maior do que Portugal, onde vivem os Baniwa, Kuripako, Dow, Hupda, Nadöb, Yuhupde, Baré, Warekena, Arapaso, Bará, Barasana, Desana, Karapanã, Kubeo, Makuna, Mirity-tapuya, Pira-tapuya, Siriano, Tariana, Tukano, Tuyuca, Wanana e Yanomami.

De um total de 73 mortes ocorridas entre 2008 e 2012, apenas cinco não foram de indígenas, segundo o Mapa da Violência 2014. Entre os indígenas, 75% eram jovens, como Maria. E muitos dos familiares e amigos contam que se suicidaram depois de terem sido assombrados por seres da escuridão, por parentes mortos, ou mesmo pelo próprio diabo, os quais, chamando-os durante meses a fio, afinal os arrastaram para a forca.

Mas quem chega a São Gabriel e pergunta nas ruas, nos bares, nas igrejas, vai ouvir que os suicídios são um problema do passado. Uma crise, um surto, pronto, passou, não se fala mais nisso. Faz tempo que o assunto não atrai jornalistas forasteiros rio acima, com seus gravadores e suas perguntas. Foi uma crise, um surto, pronto, acabou, não se fala mais nisso. É no passar vagaroso dos dias que os relatos começam a aparecer. E são muitos, em todo canto.

Como o de seu Zeferino, que pode ser encontrado sentado no tronco de uma árvore no quintal de terra ocupado por duas casas – a dele e a dos filhos –, no distante bairro de Tiago Montalvo. De olhos pequenos, marcados pela catarata, as costas encurvadas, Zeferino Teles Lima não gosta de falar, mas a lembrança do filho Tiago não o deixa em paz. Misturando a língua Tukano com o pouco português que sabe, o índio Tariano conta baixinho que "pensa sempre… ele trabalhando na roça dele, trabalhando na casa dele, onde tem deitado…tenho pensado muito… tô pensando ainda, né? Bravo não fica muito não… fica muito triste”. A imagem do filho o persegue dia e noite, chamando. Para se livrar de tanto pensamento, Zeferino procurou as curas tradicionais do seu povo. "Fizeram benzimento por minha vontade. Se assim não tinha benzido, já tinha morto já. Atrás dele né?”, diz. Depois, buscou um padre. "Porque não dá pra mim tristeza e tá dando assim. Aí que padre tirou benzendo pra mim da cabeça. Aí passou um pouquinho agora, tá aos poucos melhorando”.

Segundo a família, Tiago Lima morreu no dia 10 de abril de 2014, na comunidade Nova Esperança, no alto rio Uaupés, interior do município. Estava bêbado. A comunidade se preparava para a festa de Domingo de Ramos e Tiago não teve dificuldade em encontrar um comerciante disposto a vender-lhe cachaça – a venda de bebida alcoólica é proibida em terras indígenas. Comprou três "carotezinhos”, garrafinhas de plástico, de 200 ml. Ninguém viu quando Tiago amarrou a corda dentro da casa, depois de um desentendimento com o irmão, com quem estava morando. O pai resume: "Ele se laçou”. Na sua língua não existe a palavra "suicídio”.

Não foi o primeiro da família a adoecer. Dois primos de Tiago tentaram a morte repetidas vezes nos últimos anos. Do outro lado da rua de terra, a sobrinha de Zeferino, Almerinda Ramos de Lima, conta essa história sem alterar a voz, enquanto organiza o almoço de família na casa do pai, cercada pela filha, o neto, alguns irmãos, as sobrinhas, a tirar suco de açaí. Almerinda foi a primeira mulher a assumir a presidência da Foirn, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, que reúne diversos povos da região. "Minha mãe diz assim, um dia vão acabar se enforcando”, suspira. O irmão Melquior, de 38 anos, tentou se enforcar duas vezes. A primeira foi em 2010, por causa de uma briga com a esposa. A corda arrebentou. Um ano depois, ele voltou a tentar o suicídio, depois de o pai ter lhe chamado a atenção por estar bêbado. "Papai começou a ralhar ele e ele falou: ‘Ah, já que eu que tô errado, já que eu que tô fazendo essas coisas erradas, então eu prefiro me matar, prefiro morrer’. Então, isso que ele fez. Sorte dele que o galho quebrou”. O outro irmão, Ivo, de 35 anos, também foi atrás da corda, depois de uma briga conjugal. "Acho que o diabo não quis levar eles ainda, por isso que não morreram”, diz Almerinda.

Sem registro oficial

A aflição da família de Almerinda não está registrada em lugar nenhum. O único levantamento que existe sobre tentativas de suicídio na região é feito pelo Distrito Sanitário Especial Indígena do Rio Negro (DSEI/RN), órgão do governo federal responsável por cuidar da saúde dos índios aldeados, subordinado ao Ministério da Saúde. O distrito não acompanha nem registra casos que aconteceram na área urbana. E entre os índios aldeados os números levantados são irrisórios. Segundo os dados enviados pelo DSEI à Pública, houve apenas uma tentativa de suicídio relatada em 2014. No ano anterior, foram registradas sete tentativas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para cada suicídio efetivado há pelo menos 10 tentativas.

"As pessoas estão alarmadas, não sabem o que fazer, e isso não se vê nos relatórios. Tem muitas tentativas de suicídio, mas isso não aparece nos números oficiais”, diz Aloízio Cabalzar, antropólogo do Instituto Socioambiental (ISA) que, há 25 anos, trabalha nas comunidades Tukano, Tuiuka e Dessana do rio Tiquié, um afluente do rio Negro, no extremo noroeste do Amazonas. Nesses anos, pelo menos 10 conhecidos dele se suicidaram, calcula: "Vivi muito isso. O suicídio sempre aconteceu, mas como algo atípico. Agora, a coisa ficou muito mais presente, muito mais frequente. As pessoas estão com medo, as famílias têm medo de que os seus filhos se matem. Porque foram muitos jovens, nessa faixa dos 20 anos”.

A única certeza entre as famílias do alto Tiquié é que os enforcamentos começaram na cidade de São Gabriel, e não nas aldeias. "Tem um pouco essa ideia de que a doença, no geral, pela própria história de contato com os brancos, vem sempre subindo pelo rio no sentido da foz, no Amazonas. O suicídio, também, é uma doença contagiosa que está chegando nas comunidades vinda de São Gabriel”, diz o antropólogo.

Os suicídios rio-negrinos se inserem em um alarmante contexto nacional: em 2010, os indígenas representavam 0,4% da população brasileira, mas respondiam por 1% dos suicídios. O caso mais notório é o dos Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Segundo o Centro Missionário Indigenista (Cimi), entre 2000 e 2013, houve 684 mortes por suicídio entre eles – 73 casos apenas em 2013. O Mapa da Violência registra no Mato Grosso do Sul 19,9% dos suicídios indígenas – sete vezes mais do que era de esperar em uma população correspondente a 2,9% da total. Uma "verdadeira situação pandêmica de suicídio entre os jovens indígenas”, destaca o relatório.

Diferentemente dos Guarani-Kaiowa, no Mato Grosso do Sul, porém, não há grandes conflitos de terra no noroeste amazônico, embora muitas áreas ainda estejam em processo de demarcação. A cultura indígena prevalece no município de São Gabriel, graças à organização da Foirn. Essa é a única cidade brasileira que tem quatro línguas oficiais: além do português, o Tukano, Baniwa e o Nhengatu, ou a língua-geral imposta pelos jesuítas no século 17 e até hoje predominante entre certas etnias. Caso único no país, entre 2008 e 2012, chegou a ter prefeito e vice-prefeito indígenas – o titular Tariana e o vice Baniwa. Grande parte das famílias das comunidades passa temporadas na casa de parentes na cidade, uma "extensão” das famílias aldeadas, mantendo quase sempre uma "roça” em algum terreno mais afastado, onde as mulheres seguem plantando mandioca, pimenta, milho e abacaxi.

Ao longo dos séculos, o suicídio sempre causou mal-estar; por ser inexplicável, inaceitável, uma morte malvista. E não é diferente com os indígenas. Raramente, se fala sobre os mortos ou se contam com detalhes as circunstâncias de um suicídio. É por isso que Valéria Magalhães, psicóloga do DSEI/RN, se impressionou tanto com o relato da família de Maria, transcrito no começo desta reportagem. "É muito difícil eles falarem como aconteceu, e nesse dia, não sei se é porque era muito recente, no dia do enterro, a família descreveu que eles viram que ela tinha um ser da escuridão próximo dela. Aí esse ser incorporou e fez ela se matar. Não foi ela que se matou, foi esse ser da escuridão, que já vinha acompanhando ela há um tempo. Eles contando na hora pra mim, era com tanta certeza que não deixa dúvida pra eles. Aquela morte ia acontecer. Eles não tinham como evitar”, conta a psicóloga, que agora faz, voluntariamente o acompanhamento da família. "Não adianta eu falar pra eles: ‘Isso é uma autossugestão, você não está vendo isso’. É a verdade deles que importa, não a minha. E o que eles estão vivendo é isso”.

São Gabriel e suas mortes

A primeira coisa que é preciso saber ao chegar a São Gabriel da Cachoeira é que, debaixo do morro que ladeia a praia de areia branca e águas escuras, mora a Cobra Grande, pronta a engolir o visitante desavisado, seja índio ou branco, que se aventura sem cuidado nas fortes corredeiras. Ali, onde está a igreja católica, azul e branca, e o imponente prédio da Diocese, a paisagem é tingida pelo som furioso das águas, ininterrupto. À noite, quando o barulho dos carros e dos bares se aquieta, parece que as cachoeiras formadas pelas pedras do rio passam por cima da cidade e arrastam todo mundo para longe, como nas tantas histórias que se conta sobre jovens, meninos e meninas abraçados pela cobra do rio.

Nos anos de 2005 e 2006, parecia que o negrume das águas tinha envolvido de vez São Gabriel. Até então, os casos de suicídio na região eram esparsos, conforme conta o antropólogo Aloízio Cabalzar, da ONG Instituto Socioambiental (ISA). Ele se lembra bem da primeira morte que ficou famosa, em 2001. O rapaz, de 31 anos, era seu conhecido. Um indígena Desana da comunidade de São Luiz, à beira do rio Tiquié, que adentra a Colômbia. Matou-se tomando timbó, um veneno usado na região para caçar ou pescar, proveniente de um cipó trepador. "Foi um caso que chocou bastante, todo mundo ficou bem surpreso”. Apenas um sinal do que estava por vir: "Em 2005, a coisa mudou”.

Naquele ano, o bairro do Dabaru era relativamente recente e fervilhava com a vinda maciça dos índios das aldeias, principalmente em busca de educação secundária para os filhos; as comunidades possuem só escolas de ensino básico. Nas ruas de terra, sem ligação de água ou esgoto, a iluminação era precária e não havia nenhum transporte público. Andava-se muito a pé, as mulheres carregando bebês assentados nos quadris, e apenas os mais bem de vida podiam ter uma bicicleta surrada. Ali, ficava também o único hospital da cidade, o Hospital de Guarnição, administrado por militares. Na véspera do dia das crianças, uma menina foi levada às pressas, durante a noite, para o hospital. Acabara de se enforcar. Tinha apenas 13 anos.

Sua tia, Elizabeth Silva, é uma indígena Baré, com uma tristeza nos olhos que se disfarça na altivez da postura. A perplexidade se revela aos poucos, à medida que ela relembra a história ocorrida 10 anos antes. "Quando aconteceu, isso deixou a gente sem pé, sem cabeça. Por quê? O que faltava pra ela? O que eu fiz? O que eu não fiz?”, diz ela. A sobrinha Laísa – o nome é fictício – tivera uma infância conturbada. Quando pequena, a mãe teve de fugir do município porque o novo namorado estava sendo procurado pela polícia. Depois de um período de mudanças constantes de residência em Manaus e denúncias de negligência e maus-tratos sofridos por ela, as tias a adotaram e voltaram a São Gabriel. Desde então, "tinha três mães”, revezava-se entre a casa das tias e levava uma vida normal. Assistia à novela, gostava muito de vôlei e, com as amigas da Escola Estadual Irmã Inês Penha, participava da banda marcial. "Era uma menina feliz, alegre com todo mundo, gostava de brincar, gostava de festa, e ela tinha tudo pra se ocupar. Tinha muitas colegas, não era isolada”. Elizabeth lembra como a menina era boa de cozinha e havia prometido ajudá-la a preparar a festa do Dia das Crianças. No dia anterior, foi encontrada pela prima de 16 anos, amarrada por uma corda ao teto da sua casa. "Ela sempre sonhava ser alguma coisa na vida”, diz a tia, que, depois da morte, se mudou de bairro com as irmãs "tentando realmente, esquecer”. A última frase que ouviu da sobrinha ainda ecoa na mente de Elizabeth e a faz chorar. "Eu vou ajudar a senhora, a gente vai fazer um bolo, a gente vai fazer um doce e encher a barriga dessas crianças do Dabaru”.

A prima que a encontrou ficou em estado de choque. Eram muito próximas. Iam juntas para a escola, almoçavam juntas, dividiam confidências. Marta (nome fictício) ficou de cama por uma semana depois do enterro; quando falava, era como se conversasse com Laísa. "A gente teve que amarrar ela. Ela tinha muita força, a gente não aguentava. Ela dizia que [Laísa] tava levando ela. Que chamava ela”, relata Elizabeth, que cuidou da garota durante dois meses em sua casa. "Ela mudava a voz, e era a voz da finada. Dizia: ‘Me perdoe, tia, eu não queria fazer isso não, achava que ninguém me amava tanto assim não’. A gente procurou a igreja. O bispo. Ele ajudou muito a gente nas orações… Até o benzimento”, explica Elizabeth, baixando os olhos. "A gente não sabia mais o que fazer. Todo mundo já tava ficando doente, essa minha irmã não queria comer, só vivia chorando, pra ela acabou tudo, ela não queria mais saber de nada, queria morrer junto com ela…”

Entre um ataque e outro, a prima pôs a culpa em um professor da escola Irmã Inês Penha, onde estudavam. Disse que o professor levava alunos para o cemitério à noite e os fazia ler textos em latim. Haveria um pacto suicida entre esses alunos. Às vezes, Marta dizia que o estava vendo na casa de Elizabeth, diante dos parentes. "Olha aqui, tia, ele tá aqui, você não tá vendo o sapato dele? Ele tá bem aqui perto de mim”, dizia a menina a Elizabeth. "A gente não via! Mas ela tava enxergando”, conta. Nessas visões, o professor aparecia sempre vestido com uma capa preta.

O choque gerado pela morte de Laísa ultrapassou o seio familiar e arrastou consigo a escola toda e, com o tempo, a cidade. Foi um fim de ano negro. Outros alunos, vizinhos e conhecidos da menina, começaram a ter visões, como revela um relato aflito da tenente Graciete Carvalho, então enfermeira no Hospital de Guarnição, escrito para a Fundação Estadual dos Povos Indígenas (Fepi), no dia 20 de dezembro de 2005. O texto foi reproduzido em uma detalhada investigação feita pelo Ministério Público Federal (MPF), em 2011.

"No dia 11 de outubro (terça-feira), chegou no hospital uma menina de 13 anos que foi encontrada por sua prima de 16 anos, enforcada. (…) Todos achavam que estava relacionado com a trajetória de vida dela, marcada por maus-tratos, e até suspeita de abuso sexual quando morava com a mãe em Manaus, mas essa ideia foi tomando outro rumo tendo em vista que a sua prima, depois do seu enterro, entrou em estado de choque e ficou com um comportamento estranho. (…) No dia 24 de outubro (segunda-feira), chegou outra menor de 12 anos (M.P.R.) também vítima de enforcamento. No dia 31 de outubro (segunda-feira), chegou ao Hospital uma jovem de 17 anos (B) em surto psicótico, segundo o Major Cid, nosso psiquiatra. Ela estava completamente transtornada, tinha momentos em que ela prendia a respiração e era preciso sacudi-la para sair daquele estado e pudesse ficar normal. Durante a alucinação, ela dizia que a [Laísa] queria levar ela e outros jovens.” No dia 07 de novembro, uma segunda-feira, outro jovem de 14 anos, vizinho de Laísa no Dabaru, se enforcou. Na semana seguinte, relata Graciete, "ocorreram algumas tentativas e inúmeras manifestações, através de bilhetes e cartas, de desejo de também realizar o enforcamento. No dia 10 de novembro, atendemos a uma menor de 12 anos que tentou enforcamento. Ela referiu que, às vezes, escutava vozes que lhe perturbavam muito, não conseguia dormir e vinha uma grande vontade de pegar uma corda”. No dia 11 de novembro, outra menina deu entrada no hospital porque, segundo a família, estava muito triste e transtornada, dizendo que "os jovens que morreram queriam levá-la”. No dia seguinte, outra jovem, de 17 anos, foi levada para lá pelo Conselho Tutelar, depois de resgatada pela irmã com uma corda ao redor do pescoço. Também morava na vizinhança de Laísa.

Uma de suas tias encontrou uma lista com o nome de colegas de Laísa em uma associação de artesãos, onde a menina se reunia com as amigas. A lista foi tida como um prenúncio de que todas iriam morrer. As cartas de despedida se multiplicaram na escola Inês Penha. Muitas apontavam falta de carinho e atenção em casa, outras listavam inimizades escolares. Outras eram mais serenas, como a dessa menina de 12 anos: "Pai, mãe, tios, tias e irmãos vocês foram muito legais comigo. Mãe, peço desculpas por palavras que um dia eu falei. Pai, muito obrigada por tudo que me ensinou, irmãos eu sei que vocês são muito pequenos para entender e F. eu sei que você no fundo do seu coração gostava muito de mim. Eu amo muito vocês beijos e abraços. Professores e professor, muito obrigada por tudo que me ensinaram, eu sei que as vezes bagunçava muito eu escrever algumas letras erradas mais é por que eu estou nervosa. Beijos e Abraços para todos”.

O diretor da escola pediu o adiantamento do fim do ano letivo e a Inês Penha fechou mais cedo. No hospital, o número de emergências crescia. "No dia 19 de novembro (sábado), somos chamados, eu e o Mj Cid, para atender a outra jovem de 16 anos, que estava completamente atordoada. Quando cheguei na emergência do Hospital, vi o desespero dos familiares segurando a jovem (I.M.) porque ela corria de um lado para o outro e colocava as mãos no ouvido, tremia e com um olhar assustado dizia que estava vendo um homem de preto e os três menores que se enforcaram e que diziam que queriam levá-la. De acordo com o amigo que a socorreu, ela estava sozinha em casa, gritando num canto da casa com as mãos na cabeça dizendo que não queria ir. Segundo ele, ela falou que procurou corda e não encontrou na casa e que o homem de preto dizia que estava esperando um momento em que ela estivesse triste e sozinha para buscá-la. Na abordagem com a mãe, perguntei se havia acontecido alguma coisa em casa e ela disse apenas que havia ‘ralhado muito’ com a IM. O Major Cid viu a paciente e teve que prescrever antipsicótico porque estava em surto. […] Ela veio três finais de semana seguidos no Hospital. Mas o comportamento já estava diferente. Estamos acompanhando ela desde o dia 21 de novembro. A mãe, já que o pai estava em Manaus fazendo tratamento de saúde, procurou um benzedor, que terminou o trabalho está com uma semana. De fato ela está bem melhor até porque o pai chegou de Manaus, mas às vezes se refere à dor de cabeça e uma certa tristeza”. A partir dali, prossegue a tenente, novos casos chegavam todo fim de semana – e já não se restringiam a alunos da Inês Penha. Dezesseis adolescentes tentaram se matar naquele fim de ano, segundo o levantamento feito pelo MPF.



Fonte: Adital

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