segunda-feira, 11 de maio de 2015

Entrevista: Ataque dos setores conservadores à Petrobras atinge todos os brasileiros

A tentativa de desestruturar a Petrobras, por parte dos setores conservadores da política brasileira e parte do empresariado, afeta, em primeiro lugar, a classe trabalhadora. Com o momento de instabilidade da maior empresa estatal do Brasil, a ampliação da contratação direta de funcionários capacitados para a estatal foi paralisada e isso atinge, diretamente, a liderança da companhia em várias áreas. Para discutir essa questão, a Adital entrevistou Joaquim Pinheiro, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que está unido às organizações sociais e sindicais em defesa da empresa, considerada o grande patrimônio do Brasil.

Pinheiro explica que esse refreamento dos investimentos deve recair sobre a cadeia produtiva de vários setores do país, com especial destaque para a influência no chamado efeito renda, a taxa que mede a variação de consumo que ocorre quando há uma mudança de preço no mercado. Em outras palavras: mexe no poder de compra de todos os trabalhadores, não apenas daqueles vinculados, diretamente, à atividade petroleira. Quando o preço de um bem essencial cresce, o consumidor perde poder aquisitivo e a demanda pelo produto diminui. Isso afeta a economia brasileira em grandes proporções.

A atual crise da petroleira é mais um entre os muitos episódios da história recente do país, que representaria uma investida das forças conservadoras para tomar de assalto um patrimônio que distribui riquezas em todos os setores da população. Segundo Pinheiro, podemos enxergar nesse embate um claro e direto enfrentamento de classes. Num governo cada vez mais refém da política neoliberal, realizando seguidas concessões e retrocedendo nas conquistas populares e trabalhistas, o caminho não é outro senão a construção de um movimento de massas, que dispute um projeto de país, contrário à onda conservadora e em favor dos direitos duramente conquistados pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores.

No meio dessa grande contraofensiva implementada por muitas e variadas iniciativas, difundindo informações sobre o valor da empresa pública e suplantando a tentativa de dominação da estatal ao capital estrangeiro, a Petrobras tem, sim, um caminho para se fortalecer. Pinheiro aponta que um saldo positivo de toda essa crise poderia ser construído da seguinte maneira: se o governo utilizar recursos do tesouro para adquirir as ações desvalorizadas da petroleira e se tornar 100% estatal; se impedir a precarização do trabalhador por meio da contratação direta de terceirizados; e se elevar a blindagem da empresa contra os ataques que querem usurpar o patrimônio brasileiro. Leia a entrevista completa.

ADITAL - De que maneira a crise institucional da Petrobras afeta a classe trabalhadora?

Joaquim Pinheiro - De duas maneiras: diretamente, pois com a operação do Pré-Sal criou-se uma necessidade de contratação direta de mais 20 mil novos postos de trabalho, em várias áreas de atuação. Somando-se aos mais de 86 mil existentes, a Petrobras ampliaria, consideravelmente, seu quadro de funcionários altamente capacitados. Todos esses planejamentos estão paralisados e isso afeta, diretamente, a liderança da companhia em vários setores.

ADITAL - Esses efeitos atingem apenas os funcionários da Petrobras ou, indiretamente, se expandem para outros profissionais e outros setores? Como?

JP - Indiretamente, essa paralisação afeta os investimentos nas indústrias e, certamente, recai sobre a cadeia produtiva e sobre o chamado efeito renda, quando a renda dos trabalhadores se transforma em consumo, ativando outros setores. Estão em risco mais de 1,5 milhão de empregos.

ADITAL - Que papel a cobertura da mídia comercial tem desempenhado nesse contexto?

JP - É importante afirmar que nós, do MST, assim como a imensa maioria dos trabalhadores da Petrobras e o povo brasileiro, queremos que os corruptos e corruptores sejam punidos e que os mecanismos de combate à corrupção sejam aprimorados. Agora, não é dessa forma que se comportam as grandes empresas de comunicação. A grande mídia está, claramente, manipulando, pois seus interesses são os mesmos das grandes petroleiras estrangeiras, que estão de olho nas riquezas do Pré-Sal. Para isso, estão numa cruzada para, aliados a políticos entreguistas, privatizarem a Petrobras e permitirem que as multinacionais fiquem com todo o petróleo. Isso seria uma catástrofe para o desenvolvimento nacional.

ADITAL - Podemos enxergar em todo esse contexto um enfrentamento de classes?

JP -
Claramente. É nesse momento que aquelas forças conservadoras, que estavam operando na surdina, nos bastidores, na calada da noite, têm de se expor. Toda uma campanha difamatória da mídia serviu como base para o senador Aloysio Nunes (Partido da Social Democracia Brasileira - PSDB - São Paulo) apresentar, em dezembro de 2014, um Projeto de Lei para mudar a Lei do Pré-Sal, abrindo essa riqueza para as multinacionais. Dois meses depois, José Serra (PSDB – São Paulo) declarou em entrevistas que o governo deveria privatizar a empresa. De outro lado, vários movimentos sociais, partidos de esquerdas, setores nacionalistas e democráticos da sociedade saíram em defesa da Petrobras. Enfim, esse debate está nas ruas e há um enfretamento direto.

ADITAL - Qual a principal agenda da classe trabalhadora neste contexto?

JP - As denúncias de corrupção na Petrobras estão inseridas em um contexto de dificuldade política e econômica no nosso país. Completam-se 100 dias do segundo governo Dilma [Rousseff, em segundo mandado como presidente da República, desde 1º de janeiro de 2015] e ainda não se consegue ver plasmadas em um horizonte as diretrizes que irão nortear o próximo período, conforme anunciado em campanha.

Ao contrário. O que se vê é um governo que vem fazendo seguidas concessões e anunciando uma agenda neoliberalizante, com o intuito de suavizar as ações das forças conservadoras e de tentar recompor a base de apoio institucional. Nesse sentido, não resta alternativa às organizações populares, democráticas e progressistas a não ser o enfrentamento dessa agenda neoliberal. Para isso, é fundamental a construção de lutas e bandeiras que, em meio à diversidade, gerem coesão suficiente para alavancarem um movimento de massas que dispute um projeto de país.

Não aceitamos nenhuma medida que comprometa ou retire os direitos duramente conquistados pelos trabalhadores. É necessário o combate aberto aos interesses do capital, com taxação das grandes fortunas, suspensão do pagamento da dívida pública, reestatização das empresas privatizadas, reformas agrária, urbana e política.

ADITAL - Que valores a campanha em defesa da Petrobras carrega?

JP -
A Petrobras é símbolo do patriotismo brasileiro. Historicamente, sempre houve a tentativa de entregar a empresa aos estrangeiros, desde a década de 1950, mas aqueles que lutavam e defendiam o controle nacional sobre o petróleo venceram e a Petrobras se transformou numa das maiores empresas do mundo.

ADITAL - Com quais métodos a campanha pretende se fortalecer em todo o país?

JP - A informação é fundamental para fortalecer a campanha em defesa da Petrobras. Não se defende aquilo que não se conhece. E o povo brasileiro precisa conhecer a Petrobras e a importância que a empresa tem em inovação da ciência e tecnologia e que é a principal indutora do desenvolvimento do país.

ADITAL - Que consequências a dominação da Petrobras pelo capital estrangeiro poderia trazer para o Brasil e para os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros?

JP -
As riquezas geradas pela Petrobras são equivalentes a 13% do PIB [Produto Interno Bruto] brasileiro. Só em 2013, foram mais de R$ 104,4 bilhões investidos no Brasil. As reservas que, em 2002, eram de 11 bilhões de barris de petróleo, hoje, já ultrapassam 38 bilhões de barris. Portanto, as consequências de todas essas riquezas serem transferidas para as empresas estrangeiras são incalculáveis.

ADITAL - É o caso das diferentes forças de esquerda afinarem um diálogo unificado na defesa do patrimônio público que representa a Petrobras e reagirem à ofensiva conservadora em curso? Quais os desafios para isso?

JP -
Cada organização, movimento social, sindical, estudantil, pastoral social, partido e as mais variadas representações da sociedade civil organizada, com vieses mais progressistas ou nacionalistas, estamos cientes da gravidade da situação. Já avançamos alguns passos em busca da unidade na ação, mas ainda é insuficiente para o tamanho do enfrentamento que temos pela frente. Felizmente, as ruas ainda são os melhores lugares para se construir essa unidade, e é onde devemos estar.

ADITAL - Qual deve ser o esforço de mobilização agora em torno da opinião pública?

JP -
Creio que o principal deles é, em todas as nossas mobilizações, além de levar a bandeira da defesa da Petrobras como patrimônio brasileiro, é fazer chegar à população que uma parte dos recursos oriundos da exploração do Pré-Sal será destinada à educação e à melhoria da saúde.

ADITAL - Há caminhos para que a empresa saia deste episódio ainda mais fortalecida? Quais são?

JP -
Sim. O primeiro seria o governo utilizar recursos do tesouro, aproveitando a queda nas ações da Petrobras, e comprar essas ações, tornando a empresa 100% estatal. A criação de mecanismos que impeçam a precarização dos trabalhadores contratados por empresas terceirizadas ou, até mesmo, a contratação desses trabalhadores diretos pela Petrobras. E, por fim, aumentar a blindagem da empresa contra os ataques que visam a usurpar um patrimônio que é de todo o povo brasileiro.


Fonte: Adital

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