segunda-feira, 6 de abril de 2015

Televisões públicas: desafios para a América Latina

Ignacio Ramonet, doutor em Semiologia, especialista em geopolítica, diretor do jornal Le Monde Diplomatique em espanhol, entre outras responsabilidades e méritos, realizou recentemente, na sede do Ciespal [Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação na América Latina], em Quito, uma conferência intitulada "Democracia e Meios de Comunicação”.

Com uma ampla trajetória e produção científica nesse âmbito, o destacado pesquisador refletiu sobre o papel das televisões públicas, em particular, nos países progressistas da América Latina, frente ao desafio do ocaso da televisão de massas.

A televisão pública, em qualquer país, tem vocação, da mesma forma que a educação pública, de contribuir para a formação dos cidadãos, e para a transmissão dos valores humanistas emancipadores, que são valores de paz, de cidadania, de democracia, de respeito, de justiça, de coesão social e solidariedade; mas esta tarefa da televisão pública, que é tarefa da educação pública, resulta, hoje, cada vez mais difícil, refletiu Ramonet.

Em primeiro lugar, pelas novas práticas de acesso aos conteúdos audiovisuais, sobretudo, entre as jovens gerações. Em segundo lugar, pela crescente desconfiança para com os discursos políticos e as instituições que os transmitem, em particular, na Europa neste momento.

O pesquisador assinalou que todos os estudos realizados nos Estados Unidos ou na Europa indicam que está se produzindo uma mudança rápida, sobretudo, entre os jovens, que passam de um consumo linear da televisão para um consumo diferido, para um consumo a la carte, em uma segunda tela, não na tela da televisão, que pode ser o computador, o tablet, ou o telefone celular inteligente. Ou seja, que de receptores passivos os cidadãos telespectadores estão passando a ser, mediante o uso massivo das redes sociais, produtores-difusores ou produtores-consumidores, e já não têm uma simples função passiva.

Com respeito aos meios públicos, a ideia é criá-los e desenvolvê-los. No contexto latino-americano, em alguns países, foi preciso criá-los e em outros se trata de que os governos destinem recursos para reforçar essas vias de comunicação. Em muitos países, o monopólio dos meios de comunicação não lhes dava a opção os cidadãos escolhessem, dependiam da televisão privada. Os governantes que têm proposto que haja meios públicos, essencialmente, buscam propor outra opção, oferecer uma visão diferente.

De acordo com os resultados da pesquisa da mexicana Ana Cristina Covarrubias, a rede e o ciberespaço estão mudando os modelos de uso dos meios de comunicação e, em particular, da televisão.

A tendência de consagrar cada vez menos tempo à televisão é algo muito claro. A era digital e a sociedade conectada são realidades provavelmente de todas as capitais do continente, pelo que estas novas formas de consumo não devem ser ignoradas na hora de estabelecer estratégias.

Uma de suas principais consequências é o declínio do uso da televisão e o aumento de outras formas de consumo. O grande monopólio que era a televisão aberta está deixando espaço para outros meios na Internet.

Os estudos indicam que continuará havendo momentos de audiência massiva para ver a televisão, mas em circunstâncias muito particulares, e haverá uma grande sincronização social entre o momento em que está ocorrendo e o momento em que as pessoas a veem. Haverá milhões de telespectadores, que estarão na frente da tela, mas em momentos de atualidade, de grande transcendência, como podem ser os resultados de eleições nacionais, catástrofes, atentados, eventos esportivos de relevância nacional ou internacional. Ramonet precisa, no entanto, que é preciso levar em conta que não se trata só de uma mudança tecnológica e que o que está ocorrendo com os meios de comunicação tem implicações diversas.

Algmas são positivas, por exemplo, as redes sociais favorecem o intercâmbio rápido de informação, ajudam a organização dos movimentos sociais, permitem a verificação de informação, têm dado continuidade a esse fenômeno tão importante como é o wikileaks, tem permitido que tenhamos informação que estava oculta, entre outras.

Mas também é preciso considerar o fato de que a Internet está se transformando e está tomando o poder nas comunicações de massas as grandes empresas da galáxia Internet, todas elas estadunidenses, que estão dominando a informação planetária.

Hoje em dia, com a crise dos meios tradicionais, os grandes grupos midiáticos entraram em crise e estão desmoronando, mas, na realidade, o controle das massas passa agora para essas grandes empresas que dominam as massas, o problema não desapareceu, mas está se deslocando.

Como afirmam Edward Snowden e Julián Assange, todas essas megaempresas acumulam informação sobre nós, a cada vez que usamos as redes sociais. Uma informação que ou bem a comercializam com outras empresas para analisar práticas de consumo, ou, sutilmente, as cedem a agências de inteligência dos EUA, em particular a a NSA, como demonstrou Snowden.

Vivemos em uma sociedade conectada e estamos contentes de ter avançado rumo a uma nova tecnologia; mas não devemos esquecer que uma sociedade conectada é uma sociedade espionada, e uma sociedade espionada é una sociedade controlada.

Evidentemente, nos damos conta de que nos lançamos a usar as redes sociais como uma solução fácil e agradável de uma nova sociabilidade, como um novo terreno ganhado da nossa liberdade; e que a cada vez que usamos essas redes estamos, dando a instituições distantes as correntes para que nos mantenham presos e dependentes deles.

Tudo isso, como dizia a princípio, aumenta a desconfiança dos indivíduos para com o discurso das instituições, sejam econômicas, políticas, sociais, ainda que essas instituições sejam democráticas, como está ocorrendo na Espanha, e antes aconteceu na Grécia.

Em alguns países, os fenômenos de corrupção estão nutrindo a abstenção na hora de votar ou bem o voto vai para os partidos extremistas de direita. Setores inteiros da população e entre eles a maioria dos jovens não se sentem representados e já não creem na palavra de muitos dos seus dirigentes. Estes dirigentes ainda são legais porque foram eleitos democraticamente, mas, para muitos cidadãos, são cada vez menos legítimos, aqueles que praticam políticas antipopulares, que praticam uma austeridade com sadismo econômico e com grande desastre e sofrimento social.

Nesse contexto tão rapidamente flutuante e cada vez mais opressor, tanto do ponto de vista tecnológico como sociológico, é que devem ser pensadas as políticas da televisão pública, dirigidas, em particular, à juventude. Em uma perspectiva emancipadora, a televisão pública tem que encontrar um equilíbrio entre suas quatro grandes missões. Primeiro: a transmissão de conhecimento. Segundo: a educação para os valores cívicos. Terceiro: a iniciação à arte e à cultura; e quarto: a formação de um pensamento crítico.

O sistema midiático privado, massivamente controlado pelas grandes corporações ainda hoje em dia, não se propõe a nenhuma dessas quatro missões. Inclusive, podemos afirmar que promove, implicita ou explicitamente, valores que estão em contradição completa com as antes citadas; são os antivalores do neoliberalismo: o individualismo, a admiração pela força, o elogio da violência e o culto ao dinheiro.

No que, devido à evolução das práticas culturais, tem se convertido em um mercado sem fronteiras do consumo audiovisual, as televisões públicas devem competir em todas as plataformas com os meios privados muito mais poderosos e, inclusive, devem enfrentar uma situação de competição desigual, dada a proporção de recursos financeiros entre os dois sistemas.

Como ganhar essa batalha? Como podem as televisões públicas ganharem essa batalha nesse contexto tecnológico, político, sociológico?

Não existem fórmulas únicas, a partir de um diagnóstico adequado, devam ser usados todos os recursos das novas tecnologias digitais, formatos, gêneros, jogos, cinema de animação e, inclusive, as séries. As televisões públicas devem privilegiar um tema ao qual os jovens são muito sensíveis: o do imperativo ambiental ante os perigos da mudança climática, que ameaça o futuro do planeta.

Para as televisões públicas, frente a uma competição feroz, que é, com frequência, de excelente qualidade, o desafio é colossal. Para vencê-lo se requerem recursos financeiros, que o Estado deve esforçar-se por procurar, mas quiçá não seja este o principal problema. O que importa, diante de tudo, para o êxito de uma TV pública, é a capacidade de mobilizar equipes de criadores, que deem asas à sua capacidade e inteligência criativa.

Os impérios compreendem desde sempre que a conservação da sua hegemonia se faz através da conquista das mentes. Da mesma maneira que os povos colonizados utilizaram os instrumentos políticos do colonizador para combatê-lo melhor e derrotá-lo, as televisões públicas não devem duvidar de usar algumas ferramentas da indústria do entretenimento dominante para promover seus valores emancipadores.

Essa luta é nacional e internacional. Por isso, a partir do Ciespal, fazemos um chamado para que se constitua, na América Latina, algo que não existe: uma aliança das televisões públicas. Se chamaria Atepuna: Aliança das Televisões Públicas da Nossa América. Esta aliança deve lançar a contraofensiva cultural que se impõe. Esta contraofensiva deverá também mobilizar os criadores de todos os países da região. Me alegra dizerr que canais como Telesur, Canal 22, Canal Encuentro, da televisão pública argentina, Bolívia TV, Equador TV, entre todos, são e serão cada vez mais vetores privilegiados dessa nascente e necessária emancipação das mentes, tanto no Equador como em toda a América Latina.


Fonte: Agência Latinoamericana de Información - ALAI / Adital

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