segunda-feira, 6 de abril de 2015

Privatização de rio provoca 14 mil mortes de indígenas por inanição

Desde que o principal rio da região foi represado e sua água privatizada pela indústria agrícola e pela maior exploração de mina de carbono a céu aberto do mundo, a maior comunidade indígena da Colômbia, composta pelos povos Wayúu, morre de fome e sede. Situada no extremo norte do país, na península desértica de La Guajira, a população sofre com a desnutrição, contabilizando pelo menos 37 mil crianças indígenas desnutridas. Dados apontam que cerca de 14 mil meninas e meninos já morreram de inanição.

Segundo entidades que acompanham a população, é difícil dimensionar a tragédia que tem acometido os Wayúu. Isto porque essa comunidade, de origem pré-hispânica, carece da presença estatal colombiana efetiva. Dados divulgados pelo jornal digital alternativo Las 2 Orillas apontam que a maior parte das crianças indígenas que morrem na região não consegue chegar aos centros de saúde mais próximos para ser atendida. Sem meios de transporte, elas precisariam caminhar enormes distâncias pelo deserto.

Por igual motivo, mais da metade delas sequer são inscritas no registro civil ao nascer, tampouco geram declarações de óbito, ao falecerem. O que impossibilita o governo de obter estatísticas reais da situação em La Guajira.

Os Wayúu vivem sem acesso à água desde que o rio Ranchería, único na região, secou em sua totalidade. Seu caudal é, hoje, destinado, exclusivamente, a grandes fazendas do sul da região e a operações industriais das minas de carbono. Atualmente, em seu leito, transitam carros e animais de carga. Com isso, a etnia vive em condições de miséria, carecendo de alimentos e serviços básicos, como um aqueduto e saúde, além de eletricidade e educação.

Desigualdade social e degradação ambiental

A região de La Guajira, com uma população de 500 mil pessoas, recebeu, nos últimos 20 anos, mais de 1 bilhão de dólares de incentivo para a extração de seus recursos naturais (carbono e gás), além de uma verba anual advinda do Orçamento Federal da Colômbia. Não bastando a destinação desigual de recursos para as populações, de acordo com Las 2 Orillas, a maior parte desses recursos acaba sendo desviada em esquemas de corrupção que dominam as administrações públicas locais.

Segundo o veículo alternativo, o governo colombiano destina recursos do Orçamento Federal para a etnia Wayúu. No entanto, a verba não chega aos indígenas. O Programa de Alimentação e Nutrição (PAN) para La Guajira, por exemplo, destinado a melhorar a segurança alimentar e nutricional de populações em condições de extrema pobreza, tem investimento anual de mais de 15 milhões de dólares, mas se encontra atrelado a redes de corrupção, que detêm sua verba ilegalmente. Denúncias de porta-vozes dos indígenas apontam que essa verba acaba sendo utilizada na captação de votos em campanhas políticas.

Em meio a todo esse contexto, a Defensoria do Povo, órgão governamental encarregado da defesa dos direitos humanos da população, chegou a qualificar a situação como uma "crise humanitária”. No último mês de fevereiro, representantes do povo Wayúu recorreram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), para que tutele a garantia dos seus direitos fundamentais.

Os indígenas reivindicam que a CIDH estabeleça medidas cautelares urgentes que permitam recuperar o uso do único rio que há na região e, com isso, conter a atual mortandade por inanição, principalmente de crianças e idosos. A pretensão é que a comunidade volte a ter acesso ao recurso natural e desfrute, de maneira segura, prioritária e exclusiva, da água. Para isso, requerem a abertura imediata das comportas da represa para a população e que a indústria utilize outras fontes públicas de água, como as subterrâneas.

Saiba mais sobre o contexto do povo Wayúu por meio do documentário inédito "El río que se robaron” (em português, O rio que roubaram), do jornalista colombiano Gonzalo Guillén. A produção, com imagens e testemunhos das vítimas, será utilizada como prova judicial junto à CIDH sobre os fatos denunciados.



Fonte: Adital

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