segunda-feira, 20 de abril de 2015

Grávidas agredidas têm 4 vezes mais chances de sofrer depressão, diz USP

“Ele já me xingou, me bateu, me deixou em um hospital roxa dos pés à cabeça. Ele já me prendeu dentro de casa e passou vários dias fora. Ele sempre foi violento comigo.” O depoimento é de uma moradora de Ribeirão Preto (SP) que diz ser agredida pelo marido há 22 anos. Ela contou que só procurou a polícia depois de ser violentada durante a gestação do terceiro filho, o caçula da família. “Ele me machucou. Eu cheguei a correr dele.”

O caso relatado pela moradora parece ser mais comum do que se imagina. Uma pesquisa realizada pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP) aponta que 17% das gestantes atendidas no Centro de Referência da Saúde da Mulher, em Ribeirão, já foram agredidas pelo parceiro.

O levantamento foi realizado entre 2012 e 2013, mas a enfermeira-obstetra Mariana Fonseca-Machado, autora do estudo, afirma que a situação se repete ao longo dos anos e pode ser estendida a outras cidades brasileiras. “Foi uma amostragem local, mas que reflete a realidade do Brasil. A violência contra mulher é uma questão cultural e ainda muito velada”, diz.

Mariana explica que 358 gestantes foram entrevistadas durante a pesquisa. Cada uma respondeu sete questionários: um para traçar o perfil sócio demográfico da pesquisada, como idade, escolaridade e renda, um segundo para identificar o tipo de violência sofrida, e outros cinco sobre os tipos de transtornos que enfrentavam, como depressão, estresse, pânico, etc.

Depressão e suicídio

Os resultados apontaram que 70% das gestantes que participaram do estudo eram solteiras, apesar de 80% delas morarem com os parceiros, pais dos bebês. Além disso, 55% das entrevistas já tinham outros filhos e 62% não havia planejado a gestação.

O levantamento mostrou ainda que as grávidas violentadas pelo parceiro – fisicamente, psicologicamente ou sexualmente – têm quatro vezes mais chances de apresentar sintomas depressivos. Já a prevalência de pensamentos suicidas durante a gestação foi relatada por quase 8% das entrevistadas.

Mariana afirma que os dados comprovam que a violência praticada pelo parceiro deixa marcas na vida da mulher, principalmente psicológicas. Além disso, ainda de acordo com a pesquisadora, a gestante agredida acaba desenvolvendo problemas de saúde como dores crônicas, insônia, tontura e infecções, em decorrência da própria violência sofrida.

“Elas chegam ao serviço de saúde com queixas vagas, mas que são reflexo da violência. Por isso, cabe ao profissional que vai atendê-la ter sensibilidade para identificar a agressão por trás do problema”, afirma a pesquisadora, destacando que a maioria das vítimas não fala abertamente sobre o caso.

Rede de apoio
Mariana explica que durante o período de gravidez a mulher tem um contato maior e mais próximo com profissionais da saúde e, por isso, fica mais propensa a revelar as agressões sofridas dentro de casa. Por esse motivo, as equipes precisam estar aptas e, principalmente, dispostas a identificar esses casos nesse momento.

“O que a gente percebe é que ainda falta sensibilização. Os profissionais de saúde não perguntam. São poucos os que se propõe a investigar, seja por falta de formação adequada, por medo do agressor, por achar que não conseguir solucionar o problema ou por falta de uma rede de apoio para encaminhar essa mulher”, diz.

Problema cultural
A enfermeira destaca ainda que a violência praticada pelo parceiro é um problema cultural e mais recorrente em países em desenvolvimento, como o Brasil, onde os valores socioculturais, como a desigualdade entre gêneros, são muito fortes. Por isso, mais do que investir no combate, por meio de leis mais severas, e em serviços de apoio e assistência às vítimas, é preciso investir em educação.

“É um problema cultural considerar que a violência contra mulher é aceitável. É aquela velha história de que 'em briga de marido e mulher não se mete a colher'. Isso não pode se perpetuar. As crianças têm que saber e entender que isso não é uma coisa normal, que a violência não pode ser aceita dessa forma”, conclui.


Fonte: Portal Olhar Direto

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes