segunda-feira, 6 de abril de 2015

Conflitos pela água crescem no Brasil e déficit do recurso preocupa todo o mundo

Por ocasião do Mês da Água, organizações nacionais e internacionais vêm lançando estudos e reflexões sobre o futuro e o uso sustentável do recurso natural no mundo. Em relatório a ser publicado em abril deste ano, em Brasília, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) analisa os Conflitos pela Água no Campo no Brasil, no período de 2005 a 2014. A pesquisa visa a perceber a dinâmica dos conflitos e gerar reflexões sobre a privatização e o ciclo das águas no país. O estudo revela que 2014 foi o ano com o maior número de conflitos pela água e de famílias envolvidas nos últimos 10 anos.

Em entrevista à Adital, o integrante da CPT em Salvador [Estado da Bahia] e analista responsável pela pesquisa, Roberto Malvezzi, informa que, diante da atual crise nacional de água no Brasil, as conclusões do relatório acabam tendo maior repercussão na mídia se comparado aos anos anteriores da publicação. "2014 sinaliza que a situação está mais complicada. A menor disponibilidade de água somada à uma maior demanda aumentou o número de conflitos”, destaca.

Registrados anualmente pela CPT desde 2002, os conflitos pela água no Brasil apresentam números preocupantes. O recente relatório aponta que foram 322.508 famílias envolvidas em conflitos desde 2005. Em 2014, 127 ocorrências afetaram 42.815 famílias. O Pará é o estado com o maior número de famílias envolvidas nesse período (69.302). Malvezzi esclarece que a liderança do Pará, que também é o líder brasileiro em conflitos pela terra, ocorre em função, principalmente, da Construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O chamado "Complexo Hidrelétrico Tapajós”, que prevê a construção de sete usinas ao longo de dois rios, no oeste do Pará, vai impactar, diretamente, 32 comunidades tradicionais, entre quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais, extrativistas, abrangendo cerca de 2 mil quilômetros de território indígena, em especial da etnia munduruku.

Em segundo lugar nos conflitos aparece o Estado do Rio de Janeiro (66.687 famílias impactadas). A implantação do complexo industrial da Companhia Siderúrgica do Atlântico, impactando mais de 8 mil famílias, está diretamente associada ao conflito. Minas Gerais segue em terceiro lugar, com 26.179 famílias envolvidas em conflitos por barragens e açudes, a partir de construções do governo federal e de empresas nacionais e internacionais. Rondônia vem a seguir, com o envolvimento de 23.312 famílias, principalmente devido à construção das Usinas de Jirau e Santo Antônio.

Malvezzi ressalta que o Brasil, conhecido como "País das Águas’, não precisava passar pela crise hídrica que vem enfrentando. "O futuro é complicado e incerto. A civilização brasileira tem interferido diretamente no ciclo das águas. Os cientistas alertam que a derrubada da mata prejudica a capacidade de fornecimento de água, os chamados rios voadores. O desmatamento do Cerrado compromete os aquíferos, as monoculturas impactam na biodiversidade”, adverte.

O analista acentua que, nos últimos anos, o país vem sofrendo com fenômenos extremos. Secas e estiagens prolongadas, enchentes avassaladoras, como no Acre e no Rio Grande do Sul, este ano. A mudança climática tem impactado fortemente o ciclo das águas. "E todos os projetos do governo são para expandir o uso da água e não para preservar”, denuncia.

Água para um mundo sustentável

De acordo com o Relatório da Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento de Água 2015 -Água para um mundo sustentável – lançado no último dia 20 de março, em Nova Déli (Índia), se forem mantidos os atuais padrões de consumo, em 2030, o mundo enfrentará um déficit de 40% no abastecimento de água.

Para Irina Bokova, diretora geral da Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas (Unesco), "precisamos de medidas concretas para alcançar a sustentabilidade em escala mundial, a fim de conter a velocidade com que o clima está mudando. Os desastres relacionados com a água tornaram-se mais destrutivos, econômica e socialmente, de todos os perigos naturais, afetando, de maneira desproporcional, as mulheres, os mais pobres e os desfavorecidos, assim como alimentando a pobreza”.

A água em números

Organizações em todo o mundo alertam que há uma necessidade urgente de mudar a forma de uso e gerenciamento da água. É preciso um equilíbrio entre o suprimento e a demanda.


Desafios

A água é essencial para o crescimento da economia e para o combate à pobreza, sendo um recurso diretamente afetado pelo desenvolvimento econômico. Os desafios na interface água e desenvolvimento sustentável variam de uma região para outra.

Segundo o Relatório das Nações Unidas (Água para um mundo sustentável), na Europa e América do Norte, é necessário aumentar a eficiência do uso de recursos, reduzir o desperdício e a poluição, influenciar os padrões de consumo e escolher as tecnologias apropriadas.

Para a região da América Latina e Caribe, os desafios consistem em construir a capacidade institucional formal para gerenciar os recursos hídricos, promovendo a integração sustentável da gestão desses recursos para o desenvolvimento socioeconômico e a redução da pobreza.

Na ocasião em que as Nações Unidas se preparam para aprovar os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030, que serão finalizados no segundo semestre de 2015, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, os estudos apontam a necessidade de se dedicar um objetivo inteiramente aos recursos hídricos. Devem ser consideradas questões relativas à governança, qualidade da água, gestão de águas residuais e prevenção de desastres naturais.


Fonte: Adital

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