segunda-feira, 20 de abril de 2015

Artigo - Cristian, "el diablo"

Por: Dilson Cunha

Ele nasceu de um estupro. Sua mãe foi violentada aos 11 anos e engravidou. A Flórida, que restringe o aborto mesmo em casos de estupro, não permitiu a interrupção da gestação. O estuprador foi condenado a 10 anos de prisão. Cristian Fernandez nasceu e sua mãe o abandonou.

Aos três anos foi expulso do jardim de infância por ter arriado as calças na frente de uma coleguinha e simulado um ato sexual, que deve ter aprendido quando foi sexualmente violentado por um primo de mais de 10 anos de idade. Sua avó foi presa ao ser pega no flagra cheirando cocaína em meio a um considerável montinho da droga. Mais tarde, aos 11 anos, seu padrasto se suicidou na frente dele e de seus meio irmãos. Não sem antes dar uma surra brutal em Cristian. Meses depois Cristian foi considerado suspeito da morte do meio irmão de apenas 2 anos. Meses depois mata a madrasta com um tiro de uma espingarda que ganhou do pai e da Segunda Emenda quando tinha 11 anos.

Agora, Cristian se sentou (na verdade, voltou a se sentar) no banco dos réus do tribunal do Facebook, a rede mundial dos justos , e virou meme do louvor ao senso de justiça norte americano. "Parabéns aos norte americanos", diz a postagem. Coisa típica de quem conhece o lado "A" da história. Típica de quem trabalha com um conceito reducionista e ideologizado de justiça que condena Cristian, mas absolve um Bush. Sim, porque nesse relativismo, quem torrou 1 trilhão de dólares numa guerra insana que arrebentou com o Iraque, matou mais de uma centena de milhares e deixou um saldo negativo que inclui um ISIS e uma fictícia eterna briga étnica entre sunitas e xiitas (batistas x presbiterianos), é menos violento que um Cristian.
Nesse relativismo também, o Cristian é mais violento que os sociopatas de Wall Street, que violentam dezenas, centenas e milhares de famílias em suas mesas de apostas, conforme denunciou o 'Lobo de Wall Street' e o escritor liberal Thom Hartmann, dentre outros.
Para quem enxerga daqui o mundo pelos olhos do Mickey vê um mundo encantado onde há capitães América combatendo as injustiça e debelando o mal. Para quem só conhece a política internacional dos EUA pelos telejornais, também. Para quem filtra ideologicamente o que gente como Chomsky denuncia ainda que o que denuncia seja irrefutável, também. Para esses a justiça da Pensilvânia é justíssima. Ainda que se saiba que no único país do planeta em que crianças são julgadas como adultos o número de crianças condenadas à prisão perpétua tenha crescido cerca de mais de 500% no último meio século. Ou seja, a repressão, apenas, não é remédio definitivo contra a violência.
Aí, então, um Cristian vira nossa "sessão de descarrego". Vira nossa 'Madalena'! Nossa catarse. Focamos no "diabo", mas não no "inferno". Nos efeitos, sempre; nas causas, nunca! Um Cristian é, na verdade, uma ameaça à lógica de nossa "ordem". Numa cultura individualista como a norte americana, o sucesso, ainda que individual e, portanto, meritocrático, não deixa de ser sistêmico. Já o fracasso, ainda que sistêmico, é sempre individual.

A condenação de Cristian (olha a ironia do nome) é a pá de cal desse inferno existencial que o condenou à danação perpétua antes mesmo dele nascer. A justiça também é abortiva, tardiamente abortiva.
Pior do que a condenação é a dança dos caciques em torno do feito. Não há o que comemorar. Cristian é o fracasso de uma visão pífia e reducionista de mundo. É a negação da virtude dos 'waspers'. A sociedade, se quiser ser honesta e não hipócrita, tem que se sentar no banco dos réus também. É claro que eu sei do desvario de se falar em 'sociedade' num ambiente individualista como o americano. Basta ver a atenção que se deu ao "Sniper Americano" versus o descaso que se deu a "Selma". É a segunda vez que um 'sniper' atinge Luther King. Não soube de nenhuma sala que exibiu ou esteja exibindo "Selma".
Cristian, "el diablo", está aí. Ninguém sabe como ele se virou na vida nesse universo nada 'cristiano', como interpretou seus códigos, que ferramental recebera para fazer manutenção da vida e de como processou esse mundo hostil. Mas quem se importa? Já escuto até os ecos do "Tá com dó? Leva pra casa!" Já se ouve a festa dos caciques, dos eleitos, da roda dos santos escarnecedores. Dos que teimam em lavar as mãos nisso que somos levados a crer que não seja outra coisa senão justiça.
Parafraseando Theodor Adorno, "depois de Cristian, a poesia não tem mais sentido". Seja da Disney World, de Hollywood, do Tea Party ou de Wall Street.


Fonte: Facebook

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