segunda-feira, 16 de março de 2015

Tráfico de seres humanos não é feito só por grupos organizados

Um grupo de investigadores responsáveis por dois projectos em Portugal contra o tráfico de seres humanos, alertou hoje para o facto de este crime não ser só cometido por redes internacionais, mas também por pessoas próximas da vítima.

O alerta foi feito hoje à tarde, em Lisboa, na sessão de apresentação dos resultados e impactos do projecto “Comunidades Activas contra o Tráfico”, desenvolvido por dois investigadores da Associação de Estudos Estratégicos e Internacionais (NSIS).

Nesse âmbito, a equipa do NSIS dinamizou, durante um ano, um projecto-piloto na área da cidadania activa na freguesia de São Teotónio, concelho de Odemira (distrito de Beja), e outro na União das Freguesias de Pontinha e Famões, em Odivelas (Lisboa).

“Uma das perceções que desmistificámos com estes projectos é que as vítimas de tráfico seriam só cidadãos estrangeiros e que as redes seriam necessariamente organizadas e sofisticadas, mas isso não corresponde à verdade”, explicou à agência Lusa o investigador do NSIS Miguel Santos Neves.

O investigador referiu que, em muitos casos, o traficante é alguém “muito próximo da vítima” ou do potencial alvo, podendo ser um amigo ou até mesmo um familiar.

A esse respeito, Miguel Santos Neves exemplificou com um caso detetado numa escola de Odivelas – na qual está em funcionamento o projeto-piloto - onde uma professora descobriu que o pai de uma aluna se preparava para a vender.

“A professora percebeu pelo comportamento da rapariga que algo se passava e conseguiu descobrir que o pai a iria vender. Imediatamente acionou os meios legais para salvar a menina e o caso está a ser investigado”, contou.

O investigador referiu igualmente a existência de esquemas para aliciar vítimas que pode passar, no caso das raparigas, por promessas de virem a ser modelos e, no dos rapazes, de serem jogadores de futebol.

“A sensibilização junto das escolas foi muito importante para que os próprios alunos tomassem consciência desta realidade e relatassem casos que se passaram com eles ou com amigos”, apontou.

Nesse sentido, o investigador sublinhou que as escolas assumem um “papel fundamental” no desenvolvimento dos projetos de combate ao tráfico e referiu que alguns dos estabelecimentos escolares das freguesias trabalhadas introduziram nos seus programas conteúdos dedicados a esta temática.


Fonte: Jornal i (Portugal)

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