segunda-feira, 30 de março de 2015

Manifestações de 15 de março representam enfrentamento de classes

Após as manifestações do último dia 15 de março, que ocorreram em cerca de 160 cidades do Brasil, reivindicando pautas diversas e polêmicas – "fim da corrupção”, "Fora Dilma” [presidente do Brasil, Dilma Rousseff], "Intervenção militar já” – movimentos sociais e de diretos humanos pedem uma reflexão maior sobre a cobertura midiática das mobilizações e a intensificação do que seria uma luta de classes sociais no país.

Em entrevista à Adital, o diretor do Sindicato dos Fazendários do Ceará (Sintaf) e membro da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Estado, José Nilson Fernandes, que integra a Coalizão pela Reforma Política e Eleições Limpas no Brasil, analisa as manifestações do dia 15 de março e comenta sobre a articulação da democracia participativa nos movimentos sociais.

O que está em jogo no país?

Fernandes destaca que o que é que está em jogo não é só o governo, é uma contraposição de classes, baseada numa estrutura de comunicação midiática, que realiza uma cobertura tendenciosa. "Esse momento é muito semelhante ao segundo governo de Getúlio [Getúlio Vargas, presidente do Brasil, entre 1951 e 1954], quando se começou a realizar reformas trabalhistas, insinuar uma reforma agrária, levando a mídia a fazer algo muito parecido ao que faz hoje: condenar, antecipadamente, criar sensação de completo descaminho das coisas. Não é isso que acontece, tem que se apurar os fatos.”, declara.

O país precisa crescer institucionalmente

Para Fernandes, é importante saber que todos têm o direito de ir às ruas, assim como é fundamental observar a raiva alimentada pela grande mídia. Por conta da abordagem midiática, existiria um ódio criado com relação a alguns países de esquerda. As generalizações de determinada cor são extremamente perigosas. "Um país não evolui com radicalismo, evolui com ideias. Essa marcha do dia 15, trazendo cartazes em favor da ditadura [militar], mostra uma ignorância quanto à página obscura da nossa história. Foi um período muito difícil para o país, nos direitos, na liberdade de expressão”.

A grande vantagem do atual governo, segundo Fernandes, é a investigação de tudo o que está sendo relatado. Porém, há uma abordagem midiática errada. Haveria certo nível de organização porque há um incentivo da grande mídia para que as pessoas estejam nas ruas. "Muitas daquelas pessoas não têm a profundidade da consciência do que está acontecendo no país, porque nunca foram convidadas a fazerem uma análise histórica, uma reflexão mais rica”, destaca.

Em relação à democracia participativa, Fernandes esclarece que há um convite para as pessoas entenderem o país e, a partir daí, descobrirem qual caminho devem adotar. "Muitas daquelas pessoas que estavam na Praça Portugal (manifestação em Fortaleza-Ceará) poderiam estar somente numa onda, canalizada pela mídia. O que a gente precisa é entender que as pessoas não devem ser odiadas, mas convidadas à reflexão”.

Movimento pela Democracia Participativa

A partir de um debate organizado com a participação do teólogo da Libertação e estudioso Leonardo Boff, em setembro de 2014, em Fortaleza, surgiu a ideia de reunir entidades, intelectuais, políticos das mais diversas áreas para voltar a fazer uma discussão teórica, aprofundada, sobre o país. O objetivo é sair um pouco do pragmatismo político apenas.

De acordo com o sindicalista, houve certa acomodação quando a esquerda ocupou o governo. "Nessa visão fragmentada, superficial, aparente, onde valores mais sutis não são apreciados, temos que resgatar o debate, convidando a sociedade para que reflita melhor sobre sua vida. É preciso criar movimentos que resgatem as profundidades dos valores”.

O objetivo do Movimento pela Democracia Participativa é fazer uma análise da conjuntura nacional, da América do Sul, da América Latina, pensar perspectivas e trazer alternativas não só ideológicas, mas também de posturas com relação à sociedade. Dessa maneira, entidades estão se reunindo para ampliar o debate. "Atualmente, nós temos a CUT, o Sintaf, o Sindicato dos Bancários, Sindicato dos Comerciários, a Adital (Agência de Informação Frei Tito para a América Latina), a Apeoc (Associação dos Professores de Estabelecimentos Oficiais do Ceará), entre outras. Estamos numa fase de ampliação desse leque. A ideia é atrair mais entidades, mais intelectuais, mais pessoas que desejam voltar a debater o país como antigamente se fazia.”, ressalta.

Fernandes informa que haverá nova reunião do Movimento pela Democracia Participativa, no próximo dia 24 de março, na sede da CUT/Ceará, para a troca de ideias e a ampliação das reflexões. Existe também uma fanpage no Facebook sobre a democracia participativa. No dia 21 de maio deste ano, está previsto ainda um evento sobre o tema.

Grito dos Excluídos

Em manifesto, a Coordenação do Grito dos Excluídos Continental, rede de movimentos populares presente na América Latina e Caribe, declara seu apoio ao povo brasileiro diante da atual crise política e institucional que enfrenta o Brasil. O documento afirma que é indispensável ao Brasil preservar sua democracia diante de qualquer tentativa de golpe. A crise política não pode recair, unicamente, sobre os trabalhadores. O manifesto denuncia ainda a manipulação midiática, que pretende converter os protestos das ruas em uma base para derrubar o governo legítimo.


Fonte: Adital

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